Antes de Amesterdão, antes de Londres, houve Lisboa. No século XVI, a capital portuguesa tornou-se a primeira cidade verdadeiramente global, o ponto onde continentes distantes se encontravam para negociar. No coração dessa rede pulsava a Casa da Índia, o primeiro grande centro logístico transcontinental – uma máquina de trocas que ligava Lisboa a mundos até então separados por oceanos. E, depois do terramoto de 1755, a reconstrução da Baixa tornou-se, segundo se conta, o primeiro ato de urbanismo do mundo desenhado exclusivamente para o comércio: montras padronizadas, ruas organizadas por ofícios…

Mas há uma pergunta que atravessa séculos: o que é que Lisboa teve, e talvez tenha perdido, para ser a primeira cidade do mundo desenhada pelo comércio? “Vai tudo dar à localização”, diz-nos o especialista João Barreta.

E, afinal, o que correu mal para deixarmos de ser exemplo na Europa e no mundo?

São algumas das muitas perguntas agora respondidas nesta parceria entre o Âmbito Cultural do El Corte Inglês e a Mensagem de Lisboa, um curso em cinco sessões: “A Cidade ao Balcão: Como o Comércio Desenhou o Mundo… em Lisboa” arrancou dia 23 de setembro, numa conversa ao vivo entre João Barreta (especialista em Planeamento e Gestão do Território, também cronista na Mensagem) e Catarina Reis (editora da Mensagem).

As sessões seguintes decorrem a 25 de setembro e a 1, 8 e 12 de outubro, sempre às 18h30, na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglês de Lisboa:

2.ª SESSÃO – 25 DE SETEMBRO 
Urbanismo e comércio: um ciclo virtuoso (o que dizem os sábios) 
O urbanismo moderno ensinou-nos que uma rua sem lojas é uma rua morta. As lojas funcionam como a célula viva da cidade. O comércio não é apenas um “anexo”, mas o seu sistema operativo. É o comércio que dita para onde as pessoas caminham, onde se sentem seguras e como a economia se materializa. Nesta aula analisaremos as suas várias vertentes e as teorias que sobre elas se estabeleceram. O conceito de “Fachada Ativa”, de Jan Ghel, com a definição do que é uma cidade viva através das suas lojas, aos “Olhos da Rua”, de Jane Jacobs, que explica como as lojas funcionam como um sistema de vigilância natural – uma montra iluminada e um lojista à porta tornam a calçada mais segura do que qualquer câmara de segurança. E a Cidade de 15 Minutos, com a “Logística de Proximidade” e o “Mix de usos”, ou como a “loja de conveniência” ou a mercearia de bairro são ferramentas de planeamento ambiental. 
Com Rita Ochoa, professora da Faculdade de Arquitetura de Lisboa

3.ª SESSÃO – 1 DE OUTUBRO 
Fenomenologia do comércio: ruas, armazéns e centros comerciais 
Quais as diferenças, para a cidade e para o indivíduo dos diferentes modelos comerciais, de rua, Armazém e Centro Comercial. Como é que todos coabitam. A moda dos Armazéns que coincidem com o nascimento do comércio como desejo de uma classe média crescente, pós-Revolução Industrial, no final do século XIX. Mudanças no produto, no espetáculo do consumo e, até, na emancipação feminina (os grandes armazéns foram os primeiros espaços públicos seguros e “aceitáveis” onde as mulheres podiam circular sozinhas, e passar o dia fora de casa sem supervisão masculina). A democratização do luxo. A mania portuguesa com os Centro Comerciais, apogeu e queda? Os Centros Comerciais analisados pela semiótica, como “Não-Lugar” de uma Hiper-Realidade, em amnésia geográfica. 
Com João Barreta

4.ª SESSÃO – 8 DE OUTUBRO 
a) Gentrificação, globalização e identidade 
O que fazer com a grande pressão imobiliária? Podemos apoiar a resistência das “Lojas com História” face à padronização das multinacionais? A gentrificação, o turismo, os bairros e o seu impacto. Exemplos de outras cidades, como Paris, Londres, Nova Iorque, Amesterdão, etc. Como as lojas de serviços (sapateiros, drogarias) são substituídas por lojas de souvenirs ou cadeias de café globais. Os desafios do comércio histórico em Lisboa, o que fazer para o preservar sem ser em… formol. 
b) Cartografia do Comércio em Lisboa: lojas que marcaram a história da cidade, do Chiado aos novos hubs 
A história de algumas das lojas com história e o que lá se passou (incluindo as que já não existem). Do Chiado, epicentro da fenomenologia comercial em Lisboa, com os grandes armazéns, onde o comércio se funde com a cultura (Livraria Bertrand, A Brasileira), ao comércio de bairro em Campo de Ourique, ou o modernismo de Alvalade e Avenida de Roma. 
Com João Barreta

5.ª SESSÃO – 12 DE OUTUBRO 
A Cidade Pós-Consumo? O futuro e o Phygital. Sustentabilidade e Comércio 5.0 
O que é, hoje, na era do digital, uma loja? As lojas físicas estão a tornar-se espaços de experiência e não apenas de stock. Instagram e o seu papel. O que acontece à calçada quando a loja vira apenas um ponto de recolha (Click & Collect)? Sustentabilidade? Comércio circular? Personalização e Inteligência Artificial? E os influencers? 
Debate com Susana Santos, do ECI, Diogo Moura, vereador da Cultura da CML, Sandra Condesso, da UACS e Alexandre Fonseca. da ACEPI.


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