Amélia Martins, 82 anos, Carlos Cerdeira, 74, são um casal. Conheceram-se há quase quatro décadas. Lisboa não era a de hoje. A cidade deles vivia marcada pelos ecos recentes da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1986, era visualmente mais cinzenta e castigada pela poluição acumulada nas fachadas de prédios devolutos, mas o dia a dia ainda era profundamente de bairro. Lisboa e Benfica, onde moram, estavam longe de estar “assombrados”, como este castelo de papel onde se unem as mãos de Amélia e Carlos. E longe de terem tanta cor como a dos seus fantoches, que andam a correr o mundo.
Ela era professora de Ensino Básico. Mais tarde, decidiu estudar educação para a arte, no conservatório, o que a levou a um estágio em Paris, no Centre Pompidou. Quando regressou a Lisboa, juntou-se a um grupo de atividades lúdico-expressivas, onde aprendeu expressão artística, o drama e a música. É desses tempos que vêm todas as vozes que aprendeu a dar aos seus fantoches.
Já ele trabalhou durante anos com antenas, válvulas e eletrónica para emissões de televisão.
Cruzaram-se num clube de atividades de montanha, o clube de Ar Livre, no Parque do Calhau em Monsanto. Ali pertinho de onde vivem.
Mas a história deles e dos fantoches começa quando Carlos foi convidado para um grupo de teatro de fantoches. Ganhou-lhe o gosto e juntaram-se os dois, já reformados. Amélia e Carlos nunca precisaram de levar o palco às costas: bastava-lhes um lençol, amigos a segurarem as pontas, e o “Era uma vez” acontecia.

Até que o hobby virou coisa séria: decidiram fazer as formações com profissionais na Biblioteca de Oeiras. Há 15 anos que contam histórias com fantoches em bibliotecas, bairros e aldeias, em centros de dia e lares, levando-os até além fronteiras. Já chegaram às aldeias mais remotas de Madagáscar e de Guatemala.
Não cobram pelos espetáculos. “Fazemos isto porque gostamos. Nós ficamos felizes e as outras pessoas também ficam”, realça Amélia.
O sonho de Carlos e Amélia viaja com eles para todo o lado. O casal passa todos os anos férias em Faro e nem aí deixa o seu teatro para trás: levam os seus fantoches na mala de viagem e apresentam-se na biblioteca da cidade, sempre que são convidados. “A vida é mais do que passear. Há um dever com a cidade”, acrescenta Amélia.
Os fantoches são comprados, começam por ser apenas bonecos e, nas mãos de Carlos e Amélia, é que viram personagens. “A marioneta já é um objeto iluminado, mas somos nós que temos que lhes dar vida.” Algumas histórias ganham outra dimensão quando Carlos pega na viola braguesa e acompanha a narração de Amélia.
Recuperar clássicos
A primeira peça que apresentaram foi Os músicos vadios, uma adaptação dos Músicos de Bremen dos irmãos Grimm, sobre um grupo de animais unidos pela música. “Adaptámos as diferenças dos animais e quisemos adicionar um final solidário. O objetivo era apelar ao cultivo moral da sociedade”, explica Carlos.
Entre as peças mais recentes estão Dom Roberto e O Grufalão, sendo a última inspirada num livro infantil, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura.
Amélia conta um episódio que a marcou na biblioteca de Faro: “No ano passado fizemos um espetáculo para um grupo de jovens com deficiência. Fiquei aflita porque não tinha muita experiência e não sabia que história poderíamos contar que os interessasse. No final eles queriam agarrar nos fantoches e explorá-los, estavam muito felizes. Mas fiquei com uma imagem de uma rapariga que parecia ter cerca de 30 anos a dar festinhas num porquinho – deixou-me encantada. O educador que os acompanhava disse-me que foi um momento muito importante para o grupo. Eles nem queriam ir embora.”
Para Carlos, o espetáculo mais marcante é qualquer um que seja uma troca afetuosa entre o teatro e as crianças. “A maneira como nos agarram e abraçam é uma coisa impressionante. As crianças vivem o nosso teatro como se fosse mesmo realidade.”
E amanhã, noutro lar, escola ou aldeia, Amélia e Carlos voltarão a montar o fantocheiro. Onde, por alguns minutos, as histórias deixam de ser histórias e passam a ser um lugar onde tudo pode ser verdade.
“E pirlimpimpim a história chegou ao fim”, remata Amélia. Isto, claro, até à próxima história.
Esta história faz parte da série “Lisboa a Voltar a Gostar Dela Própria”, uma iniciativa que pretende dar palco a artistas que, embora distantes dos grandes focos mediáticos, moldam a cultura vibrante da cidade. Saiba mais na página do projeto.

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