O jovem casal cruza a roulotte estacionada no passeio e a criança no colo da mãe aponta para a montra. “Pão!”, pede, mastigando a chucha à boca. O pai recolhe um dos sacos no balcão, mas a filha não está satisfeita. “Pão! Pão! Pão!”, exige, ensaiando o choro, o pranto evitado pela rápida ação da vendedora, que parte um pedaço de carcaça e entrega à criança.
Fernanda sabe que a fome tem pressa e o pão por milhares de anos tem sido o melhor paliativo à mão. Não leu nos livros, vivenciou a lição na prática: durante quase cinco décadas, ela e a mãe Lurdes ganham o pão de cada dia por trás do pequeno balcão na padaria instalada na roulotte quase à esquina da rua Afonso Lopes Vieira com a avenida da Igreja, em Alvalade.
Ali, onde as “maminhas e carcacinhas” são as preferidas das crianças e há pão de Trancoso, a terra da anfitriã Lurdes, trazido da Guarda de 15 em 15 dias, sempre às quintas. Há ainda os tradicionais pães de Mafra e Alentejano, além dos bolos.
Um negócio de família ao serviço das outras famílias do bairro, o pão alimentando crianças de chucha à boca nos infantários da zona, servido à mesa dos cafés e restaurantes locais (como o Jacaré Paguá) e também entregue à porta de casa, biblicamente partilhado entre os mais carentes da paróquia na Igreja do Campo Grande.
E, principalmente, vendido ali, aos vizinhos, a maioria tratada pelo nome.
É assim desde 1979, quando Lurdes Nascimento finalmente conseguiu regularizar-se na Junta de Freguesia e estacionar a padaria na roulotte no passeio. Era o fim dos dias de vem e vai a vender pão pelas ruas de Alvalade – primeiro equilibrada num triciclo com uma alcofa atrelada ao bagageiro, depois enfiada num antigo Mini.
Tempos também de uma certa clandestinidade.
Sem a devida licença, Lurdes vivia uma rotina de gato e rato com a fiscalização. “A polícia não me deixava em paz. Vinha atrás de mim para me multar”, diverte-se hoje a octogenária. A solução partiu de um dos clientes da padaria móvel, “um senhor que trabalhava na Junta”, recorda-se, que a ajudou com os papéis.
Lurdes hoje está reformada. Não precisa mais de abrir a roulotte às 6h30 e permanecer de pé atrás do balcão até às 13h30. Surge na padaria apenas no momento em que a nova encarregada, a filha Fernanda, sai para a ronda diária de entregas do pão à porta dos clientes.

“Há muitos velhotes que não têm mais condições de sair de casa, ligam e nós vamos levar o pão à porta”, explica.
Trancoso, Angola, Lisboa e os vizinhos de Alvalade
Nascida em Trancoso, na Guarda, em 1946, Lurdes chegou a Lisboa já adulta. Casou e depois, junto com a filha, mudou-se para Angola, em 1968, acompanhando o marido Raul em missão na tropa. O retorno à capital aconteceria em 1973, passando a viver no antigo Bairro do Relógio. O marido só voltaria dois anos depois.
Era preciso, então, desenrascar-se sozinha.
E assim o fez, como tantos outros portugueses, dando um litro de suor por dia. Primeiro, na limpeza de casas, depois, com a venda de pães, pelas ruas, no triciclo, no velho Mini. A roulotte não estabilizou apenas o negócio, mas a vida da família: em meados da década de 1980, Lurdes compraria a sua casa, no prédio vizinho à padaria.
A história é curiosa.
Como a roulotte não tem casa de banho, era preciso contar com a solidariedade dos vizinhos quando a natureza convocava. Uma das vizinhas abriu as portas da casa à vendedora. Uma mulher já de idade e solitária. A generosidade foi retribuída na mesma moeda e dona Lurdes faria companhia à vizinha e depois cuidaria dela… até o fim.
“Como ela não tinha parentes, um dia perguntou se não queria comprar o apartamento. Naquele tempo, não era a loucura de hoje e paguei três mil contos pela casa”, lembra-se.
Lurdes sabe… nunca foi apenas pão. Na roulotte de Alvalade, para além do trigo, fermento, água e sal, a receita leva também uma boa pitada de espírito de bairro.

Negócio de pães… e de tostões
Um senhor aproxima-se lentamente do balcão. Tem uma cédula de 20 euros na mão e umas moedas na outra. Em silêncio, dá a nota à vendedora. “Não, não é esta, a moeda paga”, diz Fernanda, recolhendo a quantia em troca de um saco de pão de Mafra. “Tadinho, já não enxerga o dinheiro”, confidencia, após o senhor deixar a roulotte.
Com a exceção do jovem casal com a criança ao colo, a clientela em busca de pão é maioritariamente sénior, cabelos prateados, passos lentos, o auxílio de uma bengala. “Os jovens já quase não compram pão”, atesta Fernanda.
Apesar das entregas à porta, aos infantários, cafés, restaurantes e à igreja, o movimento já não é o mesmo de antes, quando a padaria abria as portas também à tarde. “Hoje, já não vale a pena”, reforça Fernanda. A culpa não é dos jovens, mas de um velho conhecido não só da padaria como de outros negócios do bairro: os supermercados.
Com a proliferação de supermercados em Alvalade – assim como outros bairros de Lisboa – onde é possível dar de caras com meia dúzia deles num raio de poucas centenas de metros, o faturamento de cafés, pastelarias, padarias e até dos floristas ficou mais curto.

“O supermercado hoje vende de tudo. Pão, flor, e até remédio”, lembra Fernanda.
A variedade e qualidade têm segurado os clientes habituais, mas a verdade é que o orçamento familiar já não é tão folgado assim. E não só por causa da concorrência pesada. Fernanda, por exemplo, reclama dos 410 euros mensais pagos à Junta de Freguesia pelo espaço no passeio. “No fim do mês, acaba por sobrar pouco”, contabiliza.
Aos 60 anos, aproxima-se a idade da reforma de Fernanda e, ao contrário do que aconteceu com ela, com o negócio do pão em declínio e sem herdeiros dispostos a da seguimento, a saída de cena da filha de dona Lurdes pode representar o fechar definitivo de portas da roulotte de Alvalade, destino semelhante de outros comércios históricos do bairro, onde o desinteresse dos herdeiros ameaça a tradição.
“Meus dois filhos estudaram e não têm interesse na padaria. É o mesmo com os meus irmãos, que trabalham em outros ramos mais atraentes do que o pãozinho”, revela Fernanda, sob o olhar atento da matriarca Lurdes, que fazendo uso da sabedoria apreendida em anos no negócio da panificação, remata: “O lucro nos pães é nos tostões.”
De tostão em tostão, Lurdes e depois a filha, Fernanda, tiraram o sustento da família do nobre ofício da venda do milenar alimento. Garantiram o pão quentinho, mas também o calor do convívio, da solidariedade e de uma palavra amiga.
Uma receita cada vez mais rara de espírito de bairro, em risco de desaparecer da mesa dos vizinhos de Alvalade.

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