Nem pop star, nem jogador de futebol, na minha outra encarnação quero vir mesmo é como senhorio. E digo mais, não é qualquer senhorio não, quero vir senhorio em Lisboa. Isso sim é que é vida. Que luxo! Ter um teto próprio e ainda um, dois ou três tetos para atirar às feras na arena do delirante mercado imobiliário do metro quadrado mais caro da Europa.
O senhorio é uma entidade especial a começar pela terminologia ancestral, secular e feudal do termo. Só o nome reivindica uma pompa, sugere a propriedade de algo ou de alguém, exige a reverência de quem está diante dele. Diferente de outras funções sem o mesmo pedigree, digamos, um presidente de câmara, um deputado, de paupérrima semântica.
Vai ver por isso os governantes andam a estender o tapete vermelho à sua excelência, o senhorio.
Vejam o miminho da nova lei, aprovada nesses dias, que em vez de proteger o inquilino da folia da especulação imobiliária, deu corda ao senhorio para enforcar o pobre coitado do inquilino ainda mais. Facilitou o despejo e liberou o valor da renda. Agora vale tudo, xingar a mãe, golpe abaixo da linha da cintura, dedo no olho, puxar o cabelo.
Quem fez a lei, besuntado pelo espírito santo do liberalismo, teve ainda o desplante de lembrar: é sempre possível ao inquilino negociar com o senhorio. Claro que é, mas vamos combinar, seria como sugerir ao atacante em direção ao gol com a bola no pé que negocie a sua canela com as travas das chuteiras de Otamendi.
A lógica – lógica na falta de um termo melhor – parece simples, a de que a culpa da crise da habitação em Lisboa não é de quem compra um prédio inteiro e o mantém fechado à espera da valorização para revendê-lo ou o converte num pombal de turistas, mas de quem não tem onde morar.
Na cabeça dessas pessoas, funciona mais ou menos assim: se não tivesse tanta gente atrás de uma casa, não teria tanta gente atrás de uma casa.
E como metade do dinheiro que entra em Portugal vem de pessoas interessadas em investir no negócio imobiliário, é bom não irritar o patrão e a tendência é que o senhorio farme ainda mais aura.
É mel na chupeta, mamão com açúcar, o senhorio tem a faca e o queijo na mão.
Não tem nada de ruim.
É o bom no bom, aliás, melhor dizendo, ser senhorio em Lisboa é o ótimo no ótimo.
O senhorio está tão em alta que até a agência de imigração de Portugal acredita mais nele do que nos órgãos oficiais portugueses. É verdade. Antes, bastava um comprovativo emitido e carimbado pela Junta de Freguesia com a assinatura de outras duas testemunhas para provar que o pobre do imigrante tinha um teto naquele bairro.
E olhe lá que não era uma testemunha qualquer, tinha de ser um eleitor da freguesia. Imagine a cena: o imigrante recém-caído de pára-queda de onde quer que seja a correr atrás de dois desconhecidos, perguntando se eles votam no bairro, mendigando um gatafunho num pedaço de papel.
Fácil, não era. Ainda assim, hoje a Junta de Freguesia e as testemunhas perderam o estatuto legal. Quem diz ao governo português que o imigrante vive em Portugal é o senhorio. Que pode ser português, mas do jeito que a banda toca, é mais provável que o senhorio seja um investidor estrangeiro, chinês, inglês, alemão, norte-americano.
O que pode culminar na bizarra situação de um estrangeiro, e não um português, ser o responsável por atestar a residência de outro estrangeiro no país. Um estrangeiro que, ao contrário do inquilino, talvez nem viva em Portugal. Mas ainda assim, será dele a última palavra para o governo português renovar ou não a residência do imigrante.
Essa nova trend da agência recentemente me deu uma dor de cabeça.
Precisava renovar a residência do mais novo e, apesar de cinco anos morando na mesma casa, o meu senhorio recusou-se a emitir a declaração atestando que o meu filho vivia comigo. Justificou a negativa argumentando que nunca o viu na vida e, assim sendo, não podia atestar a sua existência.
Algo semelhante a não acreditar na existência dos dinossauros por nunca ter visto um.
E não adiantou enviar para o senhorio a residência caducada do meu filho emitida pelo governo português, o tal atestado da junta firmado por duas testemunhas eleitores da freguesia, passaporte, certidão de nascimento, comprovativo de matrícula na escola, número fiscal, inscrição no centro de saúde e a foto dele ao lado de Paulinho, o célebre roupeiro do Sporting.
Nada o convenceu da existência do meu filho. Se nunca o viu, não existia. Ponto.
Durante um tempo, o processo de renovação da residência foi e voltou no site da agência, dez dias de prazo para lá, dez dias para cá, sempre a exigirem o atestado do senhorio de residência do menor. Até que um belo dia, o funcionário da vez no outro lado do ecrã prestou melhor atenção na pilha de comprovativos anexados, somou dois mais dois e concluiu o óbvio:
É claro que o filho menor dele vive com ele.
Ou ainda, talvez a foto do meu filho com Paulinho tenha pesado na decisão.
O senhorio perdeu essa, mas nada que empane a meteórica trajetória da categoria rumo ao topo da cadeia alimentar, social e financeira em Lisboa.
Eu por aqui tive minha vingança servida a frio.
Um dia, o menor andou dando uns saltos-triplos dentro de casa e o vizinho de baixo foi se queixar do barulho ao senhorio. Daí, recebi um telefonema dele me alertando para ter cuidado com o comportamento do meu filho pequeno.
Limpei a garganta e respondi com o tom mais sarcástico deste e de outro mundo:
Filho? Que filho? Tem menino aqui não.
E passe bem.

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