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Fotografia: Beatriz Vicente.

O café sai quentinho da máquina do bar da Nova FCSH, porém mais aquecido ainda é o sorriso que o acompanha. Lina pousa a chávena no balcão de vidro e dirige-se ao rapaz à sua frente: “Olha o café, amore”, anuncia. Nas últimas quatro décadas, quase cinco, a cena repetiu-se com pequenas variações, “filho” ou “filha” em vez do amore, mas sempre a mesma atenção, o mesmo afeto.

Aos 63 anos, Lina é a funcionária mais antiga da cantina no bloco B da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, na avenida de Berna. Há 45 anos todos a chamam “Tia Lininha”. Poucos, aliás, saberão que se chama Adelina Braga. “Prefiro Lina. Adelina é para os inimigos”, ressalta, entre sorrisos, como se fosse possível um sorriso amplo e acolhedor como aquele colecionar inimigos.

Com esse sorriso, Lina tem servido cafés, bebidas, lanches e refeições aos alunos, professores, diretores e reitores.

Mais do que isso, tem servido calor humano.

Com a já anunciada transferência no final do ano dos serviços de ação social da Nova (SASNOVA) para o campus do Colégios Almada Negreiros em Campolide, a cantina vai mudar de gestão, e ser entregue a uma empresa privada. E o corpo docente, discente e administrativo da universidade vai ficar órfão da simpatia da funcionária que trata a todos por filho ou filha, independente do estatuto de quem está do outro lado do balcão, seja estudante, seja doutor, seja o magnífico reitor.

Um privilégio reservado a quem conhece a universidade como poucos. Lina viu-a cescer, das cavalariças para os blocos definitivos, desde a sua fundação em 1973. Na teoria, a mudança para Campolide representa para a Tia Lina o mesmo trabalho de sempre, num novo código postal.

Na prática, partiu-lhe o coração.

A cantina no térreo do Bloco B da Nova na avenida de Berna deixará de ser a “casa” de Lina. Fotografia: Beatriz Vicente.

Um dia deste ano, a direção reuniu os funcionários da cantina para anunciar a mudança e Lina sentiu o peito apertar.

“Foi com tristeza que recebi a notícia da partida. Amo esta universidade, tenho muito carinho pelos alunos, pelos professores e diretores. Mas tem de ser assim, é a vida a acontecer”, diz, os olhos umedecidos na antecipação da partida.

A partida deve acontecer apenas em 2027. A cantina fechou as portas para as férias em agosto e quando as atividades retornarem em setembro, grande parte dos funcionários já estará no campus da Nova em Campolide. Lina permanecerá, ao lado de outra antiga funcionária, a Dolores – ou Lola – para ajudar na transição ao novo concessionário.

“Os diretores pediram-me para ficar até o fim do ano, pois sou o rosto da universidade”, admite, quase ufana, Lina. Ela está acostumada a treinar os novos funcionários da cantina nas operações típicas da restauração, mas também em qualidades que não se aprendem em sítio algum, a simpatia, a atenção, o calor humano.

Calor humano que se sentiu abrasivo no último dia antes das férias, quando os poucos alunos e professores a transitarem nos corredores já vazios e silenciosos da universidade dedicaram um minuto para uma palavra de conforto e um forte abraço de solidariedade – e saudade – diante da partida que se avizinha.

A Tia Lina acolheu cada um dos abraços com os mesmos olhos úmidos e um obrigado filho, filha, um obrigado amore, tão quente como o café na chávena sobre o balcão.

Fotografia: Beatriz Vicente.

A mulher que desde criança cuidou de toda gente

O sentimento maternal irrestrito de Lina não é novo e a acompanha desde os 11 quando trocou a brincadeira de bonecas para cuidar de quatro irmãos mais novos e do avô, enquanto a mãe saía para trabalhar. “Era uma criança cuidando de outras crianças e de um adulto”, resume a lisboeta, nascida no Casal Ventoso. 

A rotina de cuidadora dos irmãos e do avô, a comida, a cozinha, as roupas sujas, o tanque de lavar, afastaram Lina da escola. “Fiz apenas até a quarta classe e fiz à martelo”, diz a mulher que frequentou diariamente uma universidade por 45 anos sem direito a tirar um diploma. 

A cantina vai mudar de gestão e passar a ser privada. Foto: Beatriz Vicente

Uma doutora honoris causa da dura realidade comum a tantos portugueses, mas que mirou no retrovisor da vida e em vez de tristeza, prefere enxergar o copo meio cheio. “Quando pensava na minha infância, às vezes ficava triste. Hoje, não, olho para o meu passado de outra forma, pois fez-me a mulher que sou”, reflete, sabiamente.

Uma mulher que dedicou tempo e energia a alimentar o futuro de Lisboa que sai das salas de aula da universidade, servindo cafés, croissants e tostas mistas no frenético balcão, apelidado por ela de “Mercado do Bolhão”. A joia da coroa, porém, eram as baguetes feitas por ela, de todos os tipos, para todos os gostos.

“Baguetes de pasta de atum, de delícias do mar, de frango e também de tofu e seitan para os vegs”, enumera. O sabor e a proteína podem até variar, mas o que não pode faltar tanto para os onívoros quanto para os veganos é a cereja do bolo, ou melhor dizendo, a batata palha, uma febre.

A Tia Lininha conhece bem os filhos e filhas e sabe, entretanto, que as estações do ano podem influenciar na receita. ”No verão, as filhas pedem para pôr menos batata palha para não sair de forma”, diverte-se.

É essa intimidade familiar, “esse mimo”, como define, que se ressentirá após a mudança de campus. Terá saudades de ser convidada para os jantares de calouros e de fins de curso, do “bom dia, Tia Lininha!” logo cedo, quando começar a trabalhar, já às sete da manhã. “É disto que vou sentir falta, desse calor humano”, repete, os olhos novamente umedecidos.

Mas Lina não é do tipo de se deixar entristecer por muito tempo. Para ela, a partida para Campolide é mais um capítulo de uma vida plena e rica. “Se calhar, lá em cima também vai ser bom”, consola-se, mirando a nova morada laboral a menos de 1km de onde agora está.

Uma coisa é certa, sorte de quem a terá por perto a partir de 2027, do outro lado balcão, servindo o café, o baguete, o sorriso, a simpatia e, claro, o famoso coração desenhado cuidadosamente no leite da espuma do galão. “Pois é, confio na minha simpatia, na minha espontaneidade para fazer novas amizades”, reforça, virando a chave do humor.

O tempo agora é de férias, ao lado da família. Da filha Ana Rita, que há pouco mais de um ano começou a trabalhar com a mãe na cantina. “Quem sabe, será a continuidade do meu trabalho aqui”, diz, lembrando que a reforma se aproxima. A filha já “andou na net” a fazer a contagem decrescente e a data precisa surgiu: 2 de maio de 2028.

A partir daí, a Lina que durante quase cinco décadas cuidou dos irmãos, do avô, das centenas de filhos e filhas dos outros, quer dedicar toda a sua atenção, todo o seu imenso coração, ao neto Rodrigo, hoje com nove anos, portador de autismo. “Quero estar junto dele cada segundo”, revela, a emoção novamente a tomar conta dos seus olhos.

É a vida de Lina novamente a acontecer. E o carinho de sempre.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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