Os sintomas são conhecidos: ansiedade diante do quiosque de revistas, o calafrio ao virar da página, o tremor nas mãos ao colar a figurinha no respetivo quadradinho, a vertigem de receber na troca com o amigo a tão esperada fotografia do craque da equipa.

De quatro em quatro anos, a tradição repete-se. Mudam alguns rostos, alguns nomes – outros resistem, parecem eternos -, mas o que não muda mesmo é a expetativa ao abrir a saqueta e perceber se lá está ele, o esperado cromo do seu ídolo preferido. Em ano de Mundial de futebol, o vírus de colecionar as cadernetas de cromos volta a contagiar os adeptos do planeta.

Basta olhara para o lado e ver: a epidemia dos cromos já está nas ruas e a única terapia possível parece ser mesmo a…

Cromoterapia.

Uma boa alternativa para completar o álbum já é conhecida dos colecionadores lisboetas, situando-se no estreito enclave do Rossio, onde reis e rainhas dos cromos disputam a atenção do súbditos em busca das últimas figurinhas que faltam para completar a caderneta.

Foto: Inês Leote

Neste ano, a terapia promete ser intensiva. Com o aumento de seleções a disputar o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México, de 32 para 48 seleções, o número de cromos a serem colados na caderneta também subiu, de 670 para 980.

O novo recorde de cromos mistura-se ao fim de uma era: a FIFA já anunciou a parceria com a italiana Panini, que desde 1970 tem sido responsável por imprimir a paixão em papel autocolante, de Pelé a Cristiano Ronaldo, de Maradona a Messi. Após o Mundial em Portugal, a parceria acaba.

A corrida ao quiosques fez com que os primeiros lotes de cadernetas e saquetas se esgotassem em Lisboa. Diariamente, uma legião de miúdos e miúdas param em frente ao vendedor do Rossio para repetir a mesma pergunta: “há cromos do Mundial?” E receber uma resposta negativa de partir o coração.

Um negócio que não para, que nunca está em baixa, uma vez que há sempre uma caderneta de qualquer temática a ser preenchida. Mas que tem os seus momentos altos durante as grandes competições de futebol, quando os miúdos retomam em força as trocas de cromos, as disputas de “bafo” e os apelos a pais, tios e avós pelo ansiado cromo que lhes falta.

Ansiedade que começa antes de a bola rolar na América do Norte e continuará mesmo depois de a seleção vitoriosa erguer o troféu. Como atestam os cromos do Mundial Qatar 2022 e da Euro 2024 ainda a trocarem de mãos, uma caderneta não desaparece com o apito final.

O Rei dos Cromos e a esperança em Portugal

“Se Portugal for campeão, é Natal o ano inteiro”, torce Albino Rodrigues, o “Rei dos Cromos”, encastelado no quiosque diante da agência dos CTT dos Restauradores. A menção ao possível título é um dos raros momentos em que o sorriso lhe surge no rosto, já que uma recente constipação fez uma mossa no humor do comerciante.

“Há quatro dias que não venho trabalhar e ainda tenho que parar o trabalho para uma entrevista?”, contesta o Rei dos Cromos, observado de perto por um atento ajudante, a guarda-real do monarca das saquetas, que antes de permitir o primeiro contacto com o senhor Albino, exigiu a apresentação da identificação profissional.

O vendedor teima na carpidura, assim como as estrelas da bola, impaciente com a fama.

Apontando para o quiosque vizinho: “Vá à Rainha dos Cromos, ela gosta de falar, precisa de publicidade. Eu não, já sou famoso”, insiste, com o ajudante colado ao seu lado, uma espécie de “cromo do Rei dos Cromos”, a concordar com a cabeça.

Num quarto de hora, o Rei dos Cromos fez jus ao reinado e despachou meia dúzia de listas de cromos em falta. O ritual repete-se: de tempos a tempos, alguém se aproxima com uma série de nomes e números anotados num papel ou no telemóvel e inicia a contagem das figurinhas para tentar, finalmente, preencher a caderneta.

O senhor Albino recupera o fôlego num raro momento de paz. “Esta constipação foi tramada”, queixa-se, “”estava em casa a tentar descansar e o telemóvel não parava, atendia e do outro lado perguntavam: Sr. Albino, o que é feito de si?”, conta, enquanto o ajudante, inexorável e solidário, sugere que a entrevista já está a demorar.

A marcação dos clientes é o ónus da coroa invisível que o comerciante de 65 anos leva sobre a cabeça. Já lá vão mais de três décadas de reinado, anos a fio de cromos a deslizarem entre os dedos, como as cartas na mão de um experiente crupier, ciente de que independentemente de quem vença a competição, a casa vai sempre ganhar.

Na cotação das cadernetas, os valores dos cromos não obedecem ao desempenho do seu titular durante a competição.

No quiosque, a saqueta com sete cromos sai por 1,5 euro. Embora seja impossível prever precisamente, a estimativa entre os “especialistas” é que completar a nova caderneta de cromos com quase mil figurinhas ronda os 600 euros.

Na atual cotação na bolsa de valores dos cromos no Rossio, o cromo comum é vendido a 30 cêntimos. Os mais valiosos, dourados, chegam a 1 euro. Os preços, porém, tendem a subir com a proximidade do início do Mundial. Em 2022, os mais procurados, como o de Ronaldo, Messi ou Mbappé, chegaram a custar 5 euros.

Uma Rainha dos Cromos sem herdeiros

A poucos metros está Marina Clara Antunes, a “Rainha dos Cromos”, sentada à frente do seu quiosque, a cadeira de praia o seu trono. Diante dela, uma cliente indica o número dos cromos que busca, enquanto a monarca lisboeta vasculha os bolsos.

Marina Clara Antunes, a “Rainha dos Cromos”, herdeira de um negócio iniciado pela matriarca, a “Espanhola” dos Restauradores. Foto: Inês Leote

Não há um centímetro livre no quiosque. Marina guarda os cromos no bolso do casaco, espécie de cofre. Um a um, os cromos solicitados são repassados para a cliente, que, num esgar de alívio, anuncia que a caderneta do filho está perto de ser completada e a missão da mãe cumprida.

Pelo menos, até ao próximo Mundial.

A Rainha dos Cromos, solidária com o triunfo materno, também sorri. Aos 64 anos, 40 deles no mesmo quiosque, Marina Antunes já perdeu a conta de quantas vezes pais e avós respiraram de alívio após preencherem as cadernetas e as expetativas de filhos e netos, o último cromo celebrado como o golo do título.

Marina aprendeu o ofício com a mãe, também Marina, Marina Glória, a “Espanhola”, como era conhecida a portuguesa filha de espanhóis, desde muito antes de o primeiro quiosque surgir no passeio dos Restauradores, nos anos 1950.

“A minha mãe já andava a vender na Baixa, o tabuleiro pendurado no ombro, os pés descalços”, lembra a Rainha dos Cromos.

O quiosque foi erguido à revelia das autoridades, nos anos 1980. Marina lembra a mãe, a discutir com os fiscais, a dizer que nem ela nem o vizinho, o senhor Albino, levantariam nada dali. Tinham direito.

Pagariam pelo chão onde estavam. E assim foi feito, a “Espanhola” vencera a contenda, uma lutadora até ao último suspiro de vida.

Marina herdou o reinado. Uma dinastia sem sucessores, pois Marina não teve filhos. “São muitos anos a bater”, testemunha a rainha sem herdeiros. “Tia”, sim, dos miúdos levados pelos pais e avós para trocarem os cromos, muitos desses pais, avós de hoje, miúdos de outrora, gerações a reverenciarem a monarca dos Restauradores.

Um rapaz substitui a mãe na busca pelos cromos. Dona Marina vasculha os bolsos, como o mágico numa cartola, e retira o sonhado cromo da Seleção do Brasil, com o sorriso de Vinícius Júnior na fotografia a acompanhar o do novo dono da figurinha.

A Rainha dos Cromos também tem os seus truques.

O abarrotado quiosque de dona Marina. As trocas ocorrem no passeio por pura falta de espaço. Foto: Inês Leote

Um bom negócio parece resumir a “febre” dos cromos durante o Mundial, uma atividade paralela aos temas do futebol.

Em nenhum dos três principais sítios de venda em Lisboa se ouviu um único comentário referente à bola, o elogio a um golo marcado, a polémica de um lance, a aposta sobre quem será o campeão. Um pouco como acontece nas principais competições internacionais, no mundo dos reis, rainhas e príncipes dos cromos, o futebol parece ser o de menos, um relvado invadido pelo negócio, a alegria e o sorriso das crianças apenas uma boa desculpa para se garantir a renda enquanto a bola está a rolar.

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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt

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2 Comments

  1. Em Santo António da Caparica,existe alguém que se sente feliz a ajudar a miudagem e não só a acabar as coleções.
    Para mais informações,Papelarias Jardim da Falésia e papelaria Grão de Areia.

  2. Pode ser mais específico? Ou mandar uma Mensagem de email?

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