“Agora parece-me que aquele prédio é todo de alojamentos locais”. Muito parece ter mudado no Rossio desde que Daniele Coltrinari, italiano de 49 anos, chegou a Lisboa. Foi neste prédio que conheceu o amigo Luca Onesti, também italiano, em 2008, acabados de atracar em Lisboa como estudantes Erasmus. Era a primeira festa que os juntava. Longe de imaginarem que a relação que teriam com Lisboa daria um documentário: Lisbon Storie, estreado há 10 anos, volta a ser exibido esta quarta-feira, 6 de maio, no BOTA, em Arroios.

Não por acaso os encontramos sentados na esplanada de um dos polos da comunidade italiana em Lisboa — é assim que Daniele e Luca definem a livraria Piena, em Arroios. Rodeados de livros em italiano, para lá da montra ainda com os cravos vermelhos desenhados para o 25 de Abril – também ele um dia especial para Itália.
Para nenhum dos dois Lisboa era a primeira escolha para o programa de intercâmbio e, no entanto, hoje vivem e trabalham aqui. Contam é histórias bem diferentes. Para um, Lisboa foi um romance à primeira vista e, depois, uma certa desilusão. Para outro… amar é um processo.
Depois do semestre de Erasmus, durante o qual, segundo ele, Daniele não viveu a cidade de forma suficientemente profunda, regressou a Lisboa em março de 2013 com a ideia de ficar uns meses. A estadia duraria muito mais, até setembro de 2017. E, mais tarde, após outro período em Roma, voltou para ficar, em outubro de 2021. Cá, Daniele trabalha como formador numa multinacional.
Já Luca, natural de Cosenza, na Calábria, sul de Itália, depois do Erasmus de 2008, regressou a Lisboa para um doutoramento em filosofia política entre 2012 e 2018. Após anos entre Itália, Turquia e África, em setembro de 2025 fixou-se na capital portuguesa e atualmente é professor de filosofia num liceu em Almada.
Luca, que num primeiro momento se apaixonou pela cidade, vê-a agora com um olhar mais crítico e um espírito mais desencantado, em comparação com aquele entusiasmo de quando era estudante universitário. Daniele, por outro lado, diz que não teve, como muitos, o clássico “amor à primeira vista”, mas aprendeu a gostar da cidade com o tempo, vivendo-a e conhecendo-a, também através dos olhos dos outros.
Dizem que a cidade é uma espécie de “amiga” que amam apesar dos seus defeitos. Um lugar que não é “casa” no sentido tradicional do termo, mas ao qual ambos regressam para se sentirem em casa.
A história de uma “comunidade não comunidade”
A ideia do documentário nasceu por brincadeira, na festa de aniversário de Luca, num momento em que ambos viviam em Roma, em 2011. Na festa, Daniele levou consigo Massimiliano Rossi, outro idealizador e realizador de Lisbon Storie – também ele um dos muitos italianos “adotados” pela capital portuguesa, entretanto já regressado a Itália.

Aquilo que nasceu como uma ideia etérea durante uma noite entre amigos foi, pouco a pouco, ganhando forma. Assim, entre 2012 e 2015, fizeram cerca de 80 entrevistas: músicos, bartenders, pianistas e figuras do mundo do espetáculo. A imagem da comunidade italiana da Lisboa de então, hoje a maior comunidade da União Europeia em Lisboa. Uma relação antiga e que tem a sua sede na Igreja de Nossa Senhora do Loreto dos Italianos, em pleno Chiado – aberta ao culto há 500 anos.
Esta é “uma comunidade não comunidade”, assim definem os italianos Daniele e Luca. E, entre os testemunhos no documentário, as histórias multiplicam-se para o provar. Ouve-se os que ainda vivem aqui, outros que se mudaram e outros que já não estão entre nós. Alguns viveram e contam a Lisboa da Troika; outros viraram verdadeiros lisboetas e discursam sobre os problemas urbanos da cidade. Há quem tenha vindo a Lisboa atraído por oportunidades de trabalho, quem tenha vindo por tédio, ou para fugir do país estagnado que é Itália, à procura de algo novo.
Lisbon Storie é, por isso, um olhar coletivo, do mais romântico ao mais cético, que oscila entre o amor infinito por Lisboa e a nostalgia que qualquer pessoa sente pelo seu país de origem quando está longe.

Após seis meses de montagem, concluíram o projeto que, tendo começado como uma brincadeira, já foi apresentado duas vezes no Festival do Cinema Italiano de Lisboa, em 2016 e novamente em 2024.
Entretanto, foi exibido em várias salas em Lisboa, no Cine-Teatro Turim, no Passo Gaivota e até no Centro Dante Alighieri do Porto, bem como em diversos outros espaços culturais, tendo também passado por várias salas de cinema em Itália.
Um documentário com banda sonora original de Michele “Mick” Mengucci, criadas propositadamente pelo engenheiro mineiro e músico natural de Rimini, falecido em fevereiro de 2025 – a quem é dedicado o encontro de 6 de maio, durante o qual serão também apresentados conteúdos inéditos.
E também com fotografias da protagonista Lisboa, captadas pela câmara de Luca Onesti, apaixonado por fotografia.
O refúgio mais bonito do mundo
O documentário não é, contudo, o único projeto em que Luca e Daniele trabalharam juntos. Uns anos antes, escreveram em conjunto um livro sobre o ciclismo português, depois de terem acompanhado durante anos a mais importante prova por etapas de ciclismo em Portugal. Como autênticos repórteres, percorreram as zonas mais remotas do país entre autocarros, bicicletas e boleias. Em 2016, publicaram C’era una volta in Portogallo, com a Tuga Edições, hoje também transformado em documentário.

Daniele, além disso, escreveu outro livro, Lisbona Assurda Speranza (Calboni Edições, segunda edição, 2024), sobre as mudanças que a cidade sofreu entre 2015 e o período da pandemia, que por vezes fragmentaram as esperanças — e as experiências — dos “refugiados” italianos, como lhes chama Marco Sabatino no documentário:

“Eu sinto-me um refugiado, mas acredito que este [Lisboa] seja o refúgio mais bonito do mundo.”
— Marco Sabatino
que acabou também por se tornar parte da vida de Daniele e Luca que, de forma quase paradoxal, passaram a conhecer melhor Lisboa através dos olhos de outros italianos.
A exibição do documentário, seguida de conversa com realizadores, acontece a 6 de maio, às 20h30, no BOTA (Base Organizada da Toca Das Artes) – Largo de Santa Bárbara, Arroios.
*Texto editado por Catarina Reis

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