Quando Ute, 75, e Werner Mahler, 74, um casal de fotógrafos, chegaram a Lisboa no final dos anos 1980, vindos de uma pequena região rural da antiga Alemanha de Leste, traziam consigo mais do que câmeras fotográficas: com eles, veio a experiência de viver na então República Democrática Alemã (RDA) e a rara oportunidade de, finalmente, atravessar a fronteira para um país ocidental. Levantaram as câmeras e o que captaram foi uma Lisboa em mudança, revelada ao público décadas depois, na exposição Lisboa ’87/88, que pode ser vista na Praça dos Restauradores entre 4 e 29 de maio.

A exposição reúne imagens inéditas de Ute e Werner Mahler que documentam um momento decisivo da história (ainda) recente da cidade – entre a abertura à Europa e o fim de um mundo dividido. Lisboa ’87/88 tem a curadoria da NARRATIVA, do fotojornalista Mário Cruz. E o apoio do Goethe-Institut Portugal, do Arquivo Municipal de Lisboa, da Câmara Municipal de Lisboa e da da Associação de São Bartolomeu dos Alemães em Lisboa.

A exposição Lisboa ’87/88 pode ser vista na Praça dos Restauradores, até ao final de maio. Foto: Rodrigo Vargas

Um olhar vindo de fora (1987-1988)

A viagem nasceu de um impulso pessoal e através de um amigo que já conhecia a cidade. O maior desafio foi “conseguir um visto e autorização para sair”, recordam. Ainda assim, fizeram duas viagens, em 1987 e 1988, movidos pela responsabilidade de mostrar um retrato fiel de um país desconhecido para o público de onde vinham.

O projeto concretizou-se através da editora Brockhaus, que pretendia publicar livros sobre capitais europeias para leitores da RDA.

“A fotografia documental tem que sobreviver” Ute Mahler

A cidade que encontraram estava, também ela, num momento de viragem. Entre os ecos da revolução e a recente adesão à Comunidade Europeia, Lisboa revelava-se como um espaço em transformação – simultaneamente familiar e “exótico” para quem vinha do outro lado da Cortina de Ferro. Curiosamente, o que mais os apaixonou pela cidade foi “haver uma grande facilidade em fotografar pessoas”.

Essa abertura permitiu-lhes construir imagens marcadas pela espontaneidade do quotidiano. Uma das fotografias que destacam foi captada no Bairro Alto, com vários grupos em conversa à porta de um café, completamente absorvidos nas suas interações, ignorando a presença dos fotógrafos.

A exposição Lisboa ’87/88 pode ser vista na Praça dos Restauradores, até ao final de maio. Foto: Rodrigo Vargas

Um projeto interrompido pela história (1989-2021)

O livro nunca chegou a ser publicado. Pouco depois das viagens, “não podíamos realizar o trabalho que tínhamos feito, porque a editora foi à falência” recordam, e com a queda do Muro de Berlim e o colapso da RDA, o projeto ficou suspenso. As fotografias foram guardadas em caixas e permaneceram esquecidas durante décadas. “Nunca mais voltámos a olhar para elas”, admitem os Mahler.

Até hoje.

A redescoberta aconteceu quase por acaso, já em 2021, durante uma visita ao próprio arquivo. O reencontro com as imagens revelou um corpo de trabalho coeso, surpreendentemente sólido. “Sentimos orgulho”, dizem. “Fotografámos a cidade com uma intensidade que só agora conseguimos reconhecer.”

“Acho isso muito bonito, foi para nós uma descoberta muito feliz, e a coerência do trabalho também se traduz no facto de nós muitas vezes já não sabermos quem é que tirou qual das fotografias, é uma prova da qualidade do trabalho” Ute e Werner Mahler

O regresso das imagens ao espaço público (2026)

Quase quatro décadas depois, estas fotografias regressam à cidade onde nasceram, através da exposição Lisboa ’87/88, na Praça dos Restauradores.

O contraste entre a Lisboa de então e a de hoje é inevitável. Para os fotógrafos, a cidade aproximou-se de muitas outras capitais europeias – mais turismo, mais restauração, menos singularidade no comércio. Após décadas, repararam que poucas lojas ainda existem, por vezes, já não sabemos onde estamos”.

Ainda assim, persistem elementos que resistem ao tempo, como a calçada portuguesa ou a arquitetura.

“Isso foi um grande fascínio para nós, porque não havia lugares com essa longa história no país de onde vínhamos.” Ute e Werner Mahler

A exposição nasceu da descoberta, em Berlim, do livro homónimo realizado pelos Mahler, encontrado pela NARRATIVA. Para Mário Cruz, diretor da plataforma e curador da mostra, tornou-se imediatamente evidente que aquele arquivo representava “um contributo absolutamente assinalável para a cidade de Lisboa” e para a memória coletiva portuguesa. “Era um trabalho que ainda hoje é do desconhecimento da maior parte dos portugueses”, explica Mário. Daí trazer as imagens para o espaço público, permitindo um contacto direto entre a cidade contemporânea e a fotografada nos anos 80.

A escolha da Praça dos Restauradores não foi casual. “É um dos locais que foi muito fotografado pelos Mahler na altura”, refere o curador, sublinhando o confronto imediato entre passado e presente que o espaço proporciona. A exposição explora essa tensão e para Mário Cruz, o valor destas fotografias ultrapassam a dimensão documental do 25 de Abril. “Esta visão externa dá uma visão diferente”, afirma.

“Os Mahler olharam para Portugal como um exemplo de futuro europeu pós-revolução e prestaram atenção a coisas que, para os portugueses, eram mais comuns.” Mário Cruz

Segundo o curador, a exposição procura também mostrar “a observação distinta dos autores” e a forma como essa liberdade se manifesta nas imagens. “Havia essa sede de liberdade, e isso nota-se nas fotografias dos Mahler”, explica, referindo-se aos retratos íntimos, às cenas interações espontâneas captadas pelos fotógrafos durante as suas viagens por Lisboa.

Essa dimensão social e política atravessa igualmente o percurso expositivo. “Vamos à mensagem política, à transformação social, à luta por direitos”, diz Mário Cruz, lembrando uma das imagens expostas, onde surge uma manifestação de mulheres com cartazes do filme Rambo III. Para o curador, estas fotografias oferecem um olhar renovado sobre um período amplamente documentado em Portugal, mas raramente observado através de uma perspetiva estrangeira.

Mais do que nostalgia, o projeto propõe reflexão. Para Ute Mahler, estas imagens são sobretudo documentos históricos – registros de um tempo que já não existe. “Se não tivéssemos fotografado, já não saberíamos como era a cidade”, sublinha, lembrando, por exemplo, os murais revolucionários que desapareceram quase por completo. Já Werner Mahler insiste na dimensão universal do trabalho, a ambição de que o público veja, antes de tudo, “boa fotografia”.

Entre documento e criação, Lisboa ’87/88 devolve à cidade um espelho feito de ruas, gestos e memórias, colocado lado a lado com quem hoje atravessa os Restauradores. No olhar estrangeiro de Ute e Werner Mahler permanece uma Lisboa que, décadas depois, continua a revelar algo essencial sobre aquilo que foi e que ainda se está a tornar.


Katherine Fonseca

Tem 26 anos e é natural de Londres. Está a tirar o mestrado de jornalismo na Universidade Católica de Lisboa, movida pela paixão de criar e comunicar de forma autêntica. Amante de cinema, de viajar e de escrever por onde passo, inspira-se no ritmo dinâmico de Lisboa e nas narrativas que têm o poder de cativar. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

*Texto editado por Catarina Reis

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