A propósito da peça Um assobio no escuro, de Tom Murphy, com encenação de Rodrigo Francisco, a Companhia de Teatro de Almada promove um ciclo de cinco conversas sob o tema “Os imigrantes que temos – Os emigrantes que fomos”, no Teatro Municipal Joaquim Benite. Ferreira Fernandes é o terceiro convidado desta série, que procura olhar o passado e o presente das migrações a partir do território íntimo onde o teatro e a vida se tocam.
Escrita em 1961, a peça de Tom Murphy acompanha um irlandês emigrado em Inglaterra, casado com uma inglesa, que tenta encontrar o seu lugar no país onde chegou. A visita do pai e o reencontro com os irmãos fazem emergir as tensões e os desenraizamentos de quem vive entre dois mundos – entre o que se deixou para trás e o que ainda não se conquistou. É a partir deste retrato que o ciclo convida a pensar Portugal enquanto país que foi, durante décadas, de partida, e que é hoje também um país de chegada.
O título da conversa com Ferreira Fernandes, “Paris não era uma festa”, evoca a grande vaga migratória portuguesa dos anos 1960 rumo a França – a partida “a salto”, as bidonvilles, o trabalho duro e a saudade, que ficaram inscritos na memória de gerações. Longe do mito da cidade-luz, Paris foi, para muitos portugueses, tudo menos uma festa.
Nascido em Luanda em 1948, tão luandino como lisboeta ferrenho, Ferreira Fernandes, jornalista há mais de cinco décadas e cofundador da Mensagem de Lisboa, tem-se debruçado sobre temas que cruzam migrações, memória e identidade: esteve no exílio em França, escreveu sobre o 25 de Abril, sobre os portugueses na América, sobre a saga dos Madeirenses Errantes, sobre o Martim Moniz. Publicou crónicas de Lisboa em banda desenhada e trouxe à luz a história de Roger Kahan, fotógrafo judeu refugiado em Lisboa, que deu origem a um mural na cidade. O seu trabalho foi reconhecido com diversos prémios de reportagem, entre os quais o Prémio Bordalo — Jornalista do Ano, atribuído pela Casa da Imprensa, e o prémio Jornalista do Ano do Clube de Jornalistas do Porto.
O ciclo “Conversas com o Público” é moderado pela jornalista Catarina Pires e prossegue com mais dois encontros: a 2 de Maio, “A migração e a crise da habitação”, com o geógrafo Luís Mendes; e a encerrar, “Ei-los que chegam”, com os músicos Luís Cília e Francisco Fanhais, a 9 de Maio. O ciclo abriu a 11 de Abril com o sociólogo António Barreto, em “Ainda e sempre a imigração”, e a 18 de Abril juntou a psicóloga brasileira Cyntia de Paula, vice-presidente da Casa do Brasil, Rana Taslim Uddin, líder da Comunidade do Bangladesh e o arquiteto italiano Stefanos Antoniadis, em torno da conversa “Nós viemos de longe, de muito longe”.
Todas as conversas são de entrada livre e decorrem aos sábados, às 18h, no foyer do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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