Está lá o corpo estendido no chão, Alvalade. Em vez do rosto, não se vê a foto de um gol num jornal como na música do João Bosco. Um cobertor vermelho lhe cobre toda extensão, dos pés à cabeça, de modo que não se sabe se o corpo é de um homem, uma mulher, um ou uma jovem. 

É, portanto, apenas um corpo, sem gênero, sem fisionomia, sem idade, somente um corpo dobrado em “L”, abraçado a si mesmo, em posição fetal, como gostam de dizer os entendidos.

Está lá hoje, esteve lá ontem, mas nem sempre esteve. Ontem mesmo, quando o vi pela primeira vez, foi só na volta do ginásio. Na ida para a minha rotineira atividade pequeno-burguesa, talvez imerso na mesquinha contabilidade calórica, não o tenha reparado. Só dei conta na volta, do corpo estendido no chão, coberto pelo lençol vermelho.

E a visão do corpo me causou estranheza.

Corpos estendidos no chão há por toda Lisboa, são um novo retrato de Lisboa, uma imagem inseparável da cidade, como a sardinha e o pastel de nata. Mas nunca se viu um corpo estendido no chão ali, em Alvalade, sempre tão protegida, tão distante das mazelas urbanas, como se fosse um bairro suíço ou luxemburguês, não lisboeta.

O corpo estendido no chão demorou a chegar em Alvalade, mas chegou. Por isso me provocou estranheza. Pensei logo que aquele corpo não deveria estar ali, estendido naquele chão, que o lençol vermelho não combinava com a paisagem, com a beleza dos jovens universitários, com as crianças felizes nas trotinetas e bicicletas. 

E fui imediatamente consumido pelo remorso por pensar assim, do ponto de vista de um privilegiado, sempre um privilegiado, no Brasil e aqui em Portugal. Mas como acontece com meus deslizes, fui generoso comigo, aquele pensamento não me pertence, disse para mim mesmo, eu não sou essa pessoa, me consolei.

E segui em frente, deixando o corpo estendido no chão para trás. 

Só que o corpo estendido no chão não desistiu nem queria ser deixado para trás. Estava lá hoje, novamente, na mesma posição, coberto pelo mesmo tecido vermelho. Dessa vez o vi na ida e na volta ao ginásio. Reduzi o passo, tentando reparar melhor naquele estranho, encontrar pistas da sua identidade. 

Vi apenas um par de bananas que uma alma generosa lhe pousou aos pés. Na volta, já havia uma garrafinha de iogurte e um saco pardo de padaria com pães aos pés do corpo. 

Afinal, há amor em Alvalade, pensei. 

E foi só aí que entendi o que o corpo estendido no chão quer dizer com a sua presença incômoda. 

A começar por onde decidiu estrategicamente se instalar, entre tantas esquinas, na passagem subterrânea entre a Avenida da Igreja e o Campo Grande, recentemente rebatizado de Jardim Mário Soares, o grande nome da democracia portuguesa, e a poucos metros da sede da Câmara Municipal de Lisboa.

Não sei se a avenida que cruza por cima a passagem subterrânea ainda é a República, mas para o bem dessa crônica e os propósitos do corpo estendido no chão, será desde sempre a avenida da República, mesmo que o código postal e toponímia digam o contrário, pois não são alguns metros que vão estragar uma importante metáfora. 

Pois é isso que o corpo estendido no chão é, uma metáfora que pulsa, um aviso que respira. O cobertor não é vermelho por acaso, é também um sinal, um sinal para que se pare e pense.

Que se pense que no lado diametralmente oposto à igreja que batiza a avenida, apesar da fé que muitos dizem ter – incluindo os políticos que se vangloriam diante dos microfones de viver em missas – há corpos estendidos no chão, vários deles, em Lisboa e outras cidades do país, contrariando a palavra, o pedido feito pela mesma pessoa por quem tantas igrejas se ergueram em nome.

Que a república, assim como a avenida, tem passado sobre os corpos estendidos no chão e que o poder ali vizinho, apesar dos poucos metros de distância, não se dará ao trabalho de ir até lá, avistar o corpo estendido no chão. Não há nada para se ver ali de novidade, concluirá o poder, e muito menos uma boa selfie ou contrato para ser assinado.

Que se pense ainda que a maioria de nós em Lisboa, a imensa maioria, costuma chamar os corpos estendidos no chão de sem-abrigo, de sem-teto, quando nós mesmos não temos um teto nosso. Que vivemos à mercê dos humores de um senhorio, obrigados a juntar o dinheiro suficiente para honrar a renda no fim do mês.

Que é verdade, ainda assim temos um teto, mas sempre em risco, como assalariados na corda bamba de leis laborais em risco de subitamente mudar, em um mundo cada vez mais instável, perigoso e imprevisível.

O corpo estendido no chão é didático e caridoso de nós, sempre cheios de certeza, e nos sussurra um conselho: ninguém está livre de um dia estender o seu próprio corpo no chão.

E por isso, por via das dúvidas é sempre bom manter um cobertor vermelho por perto. 

Dos mais quentinhos.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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