A humidade anda a pintar Lisboa de problemas. Em 2023, Portugal era o segundo país da União Europeia com mais pessoas a viver em habitações com infiltrações e humidade, segundo dados do Eurostat. E sabe-se também que mais de metade dos lisboetas sente desconforto térmico dentro das suas casas, tanto no inverno (63,2%) como no verão (56,5%), revelou um inquérito da Lisboa E-Nova – Agência de Energia e Ambiente de Lisboa de 2024. Faz frio dentro das casas lisboetas.

As condições meteorológicas excecionais deste inverno têm contribuído para agravar o problema. Os dias seguidos de chuva causaram “a saturação de materiais de fachada e mantiveram níveis elevados de humidade relativa no exterior”, explica Ricardo Mateus, Diretor do eco.lab do Departamento de Engenharia Civil da Universidade do Minho.

Aliás, entre janeiro e fevereiro, a humidade relativa (a percentagem de vapor de água contida no ar, em comparação com o máximo que poderia ter à mesma temperatura) em Lisboa registou valores máximos, entre os 90% e os 100%, diz-nos o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Mas será que isso explica tudo sobre por que razão as nossas casas andam tão húmidas?

A precipitação não é, por si só, a principal causa dos problemas de humidade nas casas lisboetas. Os períodos de chuva intensa apenas tornam visíveis as fragilidades já existentes na construção e no isolamento dos edifícios.

Janelas e portas mal isoladas, humidade e bolores são os problemas mais comuns relatados pelos lisboetas. Foto: Inês Leote

Como a humidade se instala

A humidade ocorre quando o ar interior – enriquecido com vapor de água gerado por atividades quotidianas como cozinhar, tomar banho ou simplesmente respirar – entra em contacto com superfícies frias (como janelas ou paredes mal isoladas). Ao atingir a temperatura de ponto de orvalho, o vapor condensa. E as manchas aparecem.

A condensação está frequentemente relacionada com o isolamento térmico insuficiente – seja do telhado, de paredes ou janelas. Materiais que são bons condutores de temperatura, como as pedras do peitoril das janelas, funcionam como “pontes térmicas”, ligando diretamente a temperatura exterior ao interior da casa.

E quando as temperaturas descem, o problema tende a intensificar-se. Como explica Ricardo Mateus: “Invernos mais frios e húmidos amplificam este fenómeno, uma vez que o ar frio retém menos vapor de água e as superfícies interiores permanecem a temperaturas mais baixas”.

A acumulação de água, aliada à falta de ventilação, cria o ambiente ideal para que os fungos (também chamado “mofo”) se fixem e espalhem pelas nossas casas.

Secar roupa, tomar banho ou cozinhar sem abrir janelas contribui para condensações dentro de casa. Foto: Inês Leote

Portugal é húmido?

Pela sua “proximidade ao mar, pela elevada pluviosidade em determinados períodos e pelos níveis frequentes de humidade relativa”, o clima de Portugal cria condições propícias ao aparecimento de condensações e infiltrações. Este é, por isso, um problema bem português.

Para compreender por que se vive com tanta humidade, é preciso olhar não só para clima e para a geografia, mas também para a forma como as casas são construídas.

Segundo a Associação ZERO, grande parte do problema deve-se a um parque edificado obsoleto: a maioria dos edifícios do país (cerca de 70%) foi construída antes de 1990. Foi exatamente neste ano que entrou em vigor o primeiro regulamento térmico em Portugal (Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos edifícios). Até essa data, os projetos habitacionais não eram obrigados a cumprir requisitos de desempenho térmico, o que ainda hoje se traduz em casas com pouca capacidade de reter calor no inverno ou de se manter frescas no verão.

O problema não se limita, porém, aos edifícios antigos. Falhas em construções mais recentes, falta de manutenção e a pobreza energética também contribuem para a presença de humidade.

Islene Façanha, Responsável por Projetos e Política da ZERO, reforça que a situação resulta de uma combinação de fatores históricos e construtivos:

“Muitas habitações foram construídas com materiais e técnicas pouco resistentes à água e a manutenção de telhados, fachadas e canalizações nem sempre é feita de forma adequada. A estes fatores junta-se a incapacidade financeira de muitas famílias para realizar obras de reabilitação, o que dificulta a melhoria das condições das habitações.”

Algumas zonas de Lisboa parecem estar mais expostas do que outras. Problemas de humidade, bolor e infiltrações nas habitações são mais prováveis de acontecer junto a “zonas ribeirinhas mais baixas, em edifícios antigos próximos do Tejo ou em vales fechados com pouca ventilação”, afirma.

O custo da humidade

O resultado é uma cidade com muitos edifícios que, apesar de carregados de história e identidade, sofrem com a humidade e os seus efeitos silenciosos – nas paredes, nas janelas e na saúde de quem lá vive. 

De acordo com a DECO, o nível ideal de humidade relativa do ar no interior das casas deve situar-se entre os 40% e os 60%. A exposição prolongada a níveis elevados favorece o aparecimento de ácaros, fungos e bactérias, responsáveis por provocar doenças e alergias.

E o impacto destas condições sente-se na pele.

Em 2023, a Mensagem contou a história de Victor, um doente oncológico que morava em Benfica, numa casa com problemas persistentes de humidade e bolor. Os relatórios médicos deixavam claro que viver nestas condições colocava a sua saúde ainda mais em risco.

A humidade não é só um problema de paisagem. Victor encontrava-se a tratar um cancro e foi aconselhado pelos médicos a não viver numa casa com tanta humidade. Foto: Inês Leote

A humidade é também um problema social. A pobreza energética é responsável por agravar a situação, uma vez que casas mal aquecidas são mais suscetíveis à condensação. Num país com uma das maiores percentagens da população com dificuldades em manter a sua casa aquecida na União Europeia, as políticas públicas de eficiência energética e de conforto térmico continuam a ser um desafio.

Como combater a humidade

A curto prazo, uma solução eficaz é o uso de desumidificadores que, como o nome indica, reduzem a humidade relativa do ar no interior da habitação, ajudando a prevenir a condensação e o aparecimento de bolor. Ainda assim, é importante manter um nível adequado de humidade no ar, porque se esta for excessivamente baixa, também pode ter consequências para o nosso sistema respiratório.

Nos últimos meses, os desumidificadores têm estado em promoção em várias marcas, registando-se mesmo casos de rutura de stock. A cadeia de supermercados Aldi, uma das contactadas pela Mensagem de Lisboa, indicou que, em 2025, a procura por desumidificadores (sobretudo elétricos) cresceu 72% face ao ano anterior. Também o primeiro trimestre de 2026 já dá sinais de um “aumento muito expressivo” em relação ao período homólogo.

O aquecimento da casa contribui igualmente para diminuir a humidade e reduzir a formação de condensações. Além disso, a utilização de exaustores e o arejamento frequente dos espaços interiores ajudam a dissipar os vapores de água gerados no dia-a-dia.

Apesar de úteis, estas estratégias apenas aliviam os efeitos da humidade e não resolvem os problemas estruturais.

Para o futuro, será importante não só repensar a forma como construímos os edifícios, mas também planear a cidade para se adaptar ao clima. Isso inclui soluções que reduzam a temperatura nos bairros, como aumentar os espaços verdes e sombras, ou criar áreas permeáveis que permitam que a água da chuva seja absorvida, ajudando a evitar inundações.

Adaptar a construção a um clima em mudança

A intervenção na construção e reabilitação dos edifícios deve focar-se na ventilação, no controlo da água e, sobretudo, no isolamento, que ajuda a minimizar as trocas térmicas entre o interior e o exterior. Ao elevar a temperatura superficial interior das paredes, o isolamento reduz também o risco de condensação.

A mudança, contudo, já vem com atraso, diz Ricardo Mateus, Diretor do eco.lab do Departamento de Engenharia Civil da Universidade do Minho: “A reabilitação profunda do parque edificado existente – e a melhoria significativa da envolvente térmica – é particularmente urgente em Lisboa, onde muitos edifícios apresentam défices acumulados”.

A boa notícia é que a Engenharia dispõe de soluções capazes de controlar a humidade e melhorar o conforto térmico e a qualidade do ar dentro das habitações, explica António Carias de Sousa, Presidente da Ordem dos Engenheiros da Região Sul:

“Desde que a construção passou a utilizar soluções de paredes duplas, caixilharias com corte térmico ou sistemas de capoto nas paredes exteriores, as pontes térmicas foram muito reduzidas e passámos a criar condições de resiliência ao nosso clima e à sua alta humidade.”

O grande desafio é tornar os edifícios em que vivemos e trabalhamos mais resilientes face às alterações climáticas. As previsões são claras: elas trazem fenómenos extremos mais frequentes, tempestades mais intensas e ondas de calor mais prolongadas. E, como refere Nuno Ramos, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto: “quando as condições climáticas se agravam, os defeitos dos edifícios tornam-se mais evidentes”.

As alterações climáticas trazem novas exigências à construção, como a adaptação dos materiais e das soluções utilizadas. Além disso, podem também motivar alterações em regulamentos e normas, que orientam fabricantes e projetistas.

Face às previsões climáticas atuais, “deixa de ser adequado pensar o território como tendo um clima moderado e previsível”, aponta António Carias de Sousa, Presidente da Ordem dos Engenheiros da Região Sul. Por essa razão, “as decisões de projeto terão de incorporar critérios mais exigentes de resiliência, durabilidade e desempenho técnico”, acrescenta.

*Artigo atualizado a 23 de fevereiro de 2026 às 18 horas, com informação sobre o aumento da procura de desumidificadores em grandes superfícies.


Maria Maia

Nasceu em Lisboa, em 2002, e cresceu entre a cidade e a periferia. Na universidade, ganhou o gosto e o ofício do jornalismo. Apaixonada por ouvir, interessada em conhecer e destinada a escrever sobre isso. É jornalista e produtora na Mensagem de Lisboa.

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