Confiamos nas passadeiras como lugares seguros de moderação entre o atravessamento de peões e carros, mas nem todas cumprem os requisitos para o ser. E 30% dos atropelamentos fatais em Portugal ainda ocorrem nas próprias passadeiras, diz-nos a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR). Ora porque as marcações brancas estão desvanecidas, quase não se veem, têm buracos no betuminoso e estão mal iluminadas, ora porque a velocidade permitida para os carros é elevada e o tempo dos semáforos insuficiente para atravessar, são muitas as ruas e avenidas já consideradas perigosas para atravessar. Mas como está o estado das passadeiras… em Lisboa?
Só entre 2014 e 2023, a Avenida Infante Dom Henrique registou 8 mortes (6 deles peões), 658 feridos e 64 atropelamentos em passadeiras. Também a Avenida da República registou 111 atropelamentos e o Campo Grande outros 76. Na Avenida EUA, em Alvalade, ainda lá jazem as flores dedicadas a Afonso Gonçalves, o estudante que morreu atropelado em setembro de 2024.
Dados oficiais da PSP, avançou o Jornal de Notícias, mostram que só em 2025 morreram sete pessoas atropeladas no concelho. Mais do que a soma das vítimas mortais registadas nos três anos anteriores juntos (onde se registaram cinco vítimas no total).



Em 2022, as auditorias feitas pelo Observatório da Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa identificou que 22% das passadeiras estavam com marcações desgastadas. A Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACA-M) concluiu também que uma em cada cinco passadeiras em Lisboa não oferece condições de segurança adequadas, muitas vezes devido à falta de pintura visível. E são muitas as queixas sobre semáforos com tempo insuficiente para um peão atravessar – sobretudo se tem mobilidade reduzida.
Benfica será a freguesia com mais atropelamentos em passadeiras sem semáforo, entre 2004‑2011, segundo o Plano de Acessibilidade Pedonal. Entre os locais com maior incidência estão a Estrada de Benfica, a Rua da Venezuela e a Estrada dos Arneiros. Mas quando falamos em números absolutos (passadeiras com e sem semáforo), as freguesias de Avenidas Novas, Alvalade, Santa Maria Maior e Estrela são aquelas que registaram os maiores números de atropelamentos em passadeiras nesse mesmo período.
Os dados estão a ser recolhidos pelos Vizinhos em Lisboa – Associação de Moradores, que tem agora aberto um inquérito às “passadeiras críticas da cidade”, onde qualquer um pode participar, através deste link. A ideia é mapear os riscos e fazer “pressão cívica informada” e contínua, junto das freguesias e da autarquia.
O perigo junto a creches e escolas
Serão frequentes as queixas de acidentes em zonas circundantes às escolas e creches, usadas por muitas crianças e famílias. A Avenida Manuel da Maia (junto à Praça de Londres/Instituto Superior Técnico protagoniza já algumas tragédias, apesar de ter semáforos. Também junto ao Terminal Colégio Militar (Largo da Revista Militar), quatro passadeiras quase apagadas sem sinalização, pavimento irregular e falta de iluminação fomentam queixas desde 2025.
O Observatório da Mobilidade da CML chegou mesmo a concluir que a reabilitação de passadeiras em zonas escolares resultou numa redução de 35% nos acidentes envolvendo crianças em horário de entrada e saída das aulas.
Crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida são os mais afetados por passadeiras mal conservadas. Aliás, segundo dados de 2023 da ANSR, cerca de 40% das vítimas mortais em passadeiras têm mais de 65 anos.
Um estudo da European Transport Safety Council (ETSC) concluiu que a visibilidade deficiente da passadeira pode aumentar em até 60% o risco de um condutor não parar a tempo para dar prioridade ao peão. A má iluminação e pintura desbotada contribuem para “passadeiras fantasma”, que praticamente se tornam invisíveis à noite ou em dias de chuva embora estejam marginalmente visíveis de dia.
O semáforo que duplicou de tempo
Serão muitos os semáforos de Lisboa que não cumprem o tempo de atravessamento definido por lei. Há três anos, em 2023, isso motivou a ação de um grupo de cidadãos da plataforma Lisboa Possível.

Ao ver que os transeuntes da Avenida Columbano Bordalo Pinheiro (entre São Domingos de Benfica e Campolide) estavam em risco ao atravessar a passadeira: uma travessia de 14 metros sem separador central, em frente ao número 80, que a passo normal demoraria sempre pelo menos 22 segundos a ser feita – como viemos a experimentar – estava com 15 segundos apenas de sinal verde.
Apresentaram uma queixa à Câmara Municipal de Lisboa e ao Instituto Nacional para a Reabilitação e, passados oito meses, viram o sinal verde passar para 37 segundos (o tempo médio que, segundo a lei, se demoraria a atravessar).
Outro caso é o das passadeiras entre o Hospital Curry Cabral e os transportes públicos locais, que foi alvo de um estudo publicado pela Acta Médica Portuguesa em 2020. Depois de analisadas 26 passadeiras, com 100 pacientes com idade média de 75 anos, chegaram à conclusão que apenas 17 cumpriam os requisitos de segurança necessária. Destaca-se o caso da passadeira da Avenida dos Combatentes, na qual a velocidade de marcha mínima para atravessar é de 2,17 m/s (mais de cinco vezes superior à velocidade definida pela lei – os 0,4 m/s).
Leia mais sobre estas histórias aqui, relatadas pela jornalista Ana da Cunha:
Um manual de boas práticas para Juntas e CML
Por:
Em Lisboa, as competências da Juntas de Freguesia estão definidas no Artigo 16º da Lei 75/2013 de 12 de setembro, que estabelece o regime jurídico das autarquias locais e no Artigo 12º da Lei 56/2012 de 8 de novembro, que procede à reorganização administrativa de Lisboa. Entre estas, para o que aqui é relevante, encontra-se a manutenção das passadeiras (ou “Conservação da sinalização horizontal (…) não iluminada”).
É indiscutível que a boa manutenção e visibilidade das passadeiras é crucial para a segurança pedonal. A ausência de marcações claras ou o desgaste da tinta aumenta significativamente o risco de atropelamentos, especialmente em áreas urbanas com tráfego intenso ou de grande circulação pedonal (p. ex. junto a espaços comerciais ou hubs de transportes). E é possível associar algumas das mortes por atropelamento em Lisboa à falta de segurança de alguns destes atravessamentos pedonais com marcações insuficientes ou em retas especialmente perigosas pelas velocidade que os veículos alcançam (o caso mais conhecido – mas não único – é a Av. dos EUA em Alvalade).
Aqui seguem propostas para a melhoria da segurança nas passadeiras de Lisboa:
1. Plano Anual de Requalificação de Passadeiras:
a) Implementar um programa de inspeção semestral de todas as passadeiras de cada freguesia de Lisboa.
b) Dar prioridade a intervenções em zonas com maior tráfego pedonal (escolas, lares, transportes públicos, centros de saúde, bairros e zonas mais comerciais).
c) Garantir a repintura de todas as passadeiras com desgaste superior a 30% (grau 2 numa escala máxima de 5).
2. Instalação de Iluminação LED em Passadeiras:
a) Garantir que a iluminação pública existente está a funcionar junto a todas as passadeiras e usa luz LED branca e está focada nas passagens de peões.
b) Estender o projeto “passadeiras iluminadas” a todas as freguesias. Este projecto consiste na implementação de um reforço de segurança nas passadeiras semaforizadas por meio da instalação de iluminação LED no pavimento. Esta iluminação é aplicada em locais de maior afluência de peões para aumentar a visibilidade e a segurança durante a travessia, especialmente em condições de pouca luz ou à noite.
3. Sistema Inteligente de Detecção de Peões:
a) Instalar sensores de movimento e sinalização intermitente em passadeiras críticas, para alertar os condutores sempre que um peão se aproxima.
b) Articular com programas de mobilidade inteligente da CML e aceder a fundos europeus para financiamento.
4. Sinalização Vertical Complementar:
a) Percorrer todas as passadeiras e atualizar ou reforçar sinalização vertical onde estiver ausente ou mal posicionada.
b) Utilizar sinais refletores em zonas de menor iluminação.
5. Mapeamento e Transparência dos Riscos
Todas as Juntas de Freguesia devem publicar um mapa online interativo, por freguesia, com o estado de conservação das passadeiras e o calendário de intervenções.
6. Metas públicas e avaliação de impacto
a) Definir metas anuais para redução de acidentes em passadeiras.
b) Avaliar o impacto de cada intervenção com base em dados da PSP, INEM e CML.
c) Divulgar de forma regular e publica (num site) os resultados de todas as ações empreendidas.
7. Educação e sensibilização
a) Realizar campanhas regulares de sensibilização junto de escolas, associações de idosos e comerciantes.
b) Distribuir folhetos e sinalização educativa temporária nos pontos mais críticos da freguesia.
8. Melhorias no piso e acessibilidade
a) Requalificar o piso betuminoso em redor das passadeiras degradadas (sem buracos, sem desníveis).
b) Garantir que todas as passagens de peões têm rampas acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida.
9. Passadeiras Elevadas e Redução de Velocidade
a) Implementar passadeiras elevadas em locais críticos para forçar a redução de velocidade dos veículos.
b) Instalar lombas ou estreitamentos de via junto a passadeiras em zonas residenciais e escolares para acalmar o tráfego.
10. Marcadores Luminosos e Sinalização Inteligente
a) Instalar marcadores de estrada LED embutidos no pavimento das passadeiras, que piscam quando um peão se aproxima, aumentando a atenção dos condutores, especialmente à noite ou em condições de baixa visibilidade.
b) Adoptar sensores térmicos para ativação automática de luzes e sinais quando detectada a presença de peões.
11. Pavimento Táctil e Cor Diferenciada
a) Aplicar pavimento táctil para invisuais em ambos os lados das passadeiras, conforme as normas de acessibilidade.
b) Utilizar pavimento antiderrapante e de cor vermelha ou contrastante nas zonas de atravessamento, para reforçar a visibilidade e prevenir escorregamentos, sobretudo em dias de chuva.

12. Barreiras Físicas e Proteção de Peões
Instalar gradeamentos ou pilaretes nos acessos às passadeiras para impedir o estacionamento ilegal e canalizar o fluxo pedonal, evitando que os peões atravessem fora das zonas seguras.
13. Refúgios e Ilhas de Segurança
Criar ilhas/refúgios centrais nas vias largas, permitindo que os peões atravessem em duas fases e se abriguem no meio da estrada, aumentando a segurança em avenidas de múltiplas faixas.
14. Sinalização Suspensa e Vertical Iluminada
Instalar sinais de passadeira suspensos com iluminação interna ou LED, visíveis a longa distância, em artérias de grande tráfego ou visibilidade reduzida.
15. Fiscalização e Penalização
Reforçar a fiscalização do respeito pela prioridade do peão, com campanhas de controlo pela Polícia Municipal e com aplicação de multas a condutores infratores, especialmente em zonas de maior risco.
16. Intervenções Urbanísticas Integradas
Requalificar o espaço público envolvente às passadeiras: alargar passeios, plantar árvores para criar sombra e conforto, e garantir percursos contínuos e acessíveis para todos os cidadãos.
17. Semáforos Inteligentes com Prolongamento Automático
a) Instalar semáforos com sensores que prolongam automaticamente o tempo de verde para peões quando detectam pessoas com mobilidade reduzida
b) Implementar botões sonoros e visuais para invisuais e surdos em todos os semáforos
18. App Municipal de Segurança Pedonal
a) Desenvolver aplicação móvel que alerte os peões sobre passadeiras próximas e o estado do semáforo
b) Integrar sistema de navegação acessível para pessoas com deficiência visual
19. Passadeiras Inteligentes com Projecção no Pavimento em zonas de especial densidade de atravessamentos
a) Utilizar tecnologia de projeção LED que cria “passadeiras virtuais” luminosas no pavimento
b) Activar automaticamente quando detecta a aproximação de peões
20. Passadeiras Prioritárias em Zonas de Saúde
a) Atravessamentos reforçados que têm tratamento especial, em função da proximidade a equipamentos de saúde, e que incluem:
Sinalização especial e reforçada (com ícones ou pictogramas de hospital/ambulância).
Iluminação LED permanente, com foco dirigido ao atravessamento.
Temporização ajustada dos semáforos com mais tempo de verde para peões (particularmente útil para pessoas mais lentas).
Rampas acessíveis, pavimento antiderrapante e sinalização táctil, seguindo normas de acessibilidade.
Instalação de sensores ou botões inteligentes que prolongam automaticamente o tempo de verde se detetarem a travessia de alguém com mobilidade reduzida.
Prioridade de gestão e manutenção (intervenções mais frequentes e prioritárias quando há desgaste).
b) Sinalização luminosa ou sonora diferenciada que avise os condutores da presença de ambulâncias perto da passadeira.
Em cruzamentos ou zonas críticas: sistemas V2X (veículo para infraestrutura) que abrem prioridade automaticamente ao veículo de emergência, como já se faz em algumas cidades com semáforos inteligentes.
c) Possível uso de corredores pedonais dedicados ou segregados, entre estações de transportes públicos e a entrada da unidade de saúde (por exemplo, entre uma paragem da Carris e a entrada do Hospital de Santa Maria).
21. Programa Escolar de Embaixadores da Segurança
a) Formar alunos como “embaixadores da segurança pedonal” que monitorizem passadeiras junto às escolas
b) Criar brigadas escolares de segurança com uniformes e responsabilidades específicas
22. Monitorização por Vídeo com Inteligência Artificial
a) Instalar câmaras com IA que analisam padrões de comportamento e identificam situações de risco
b) Gerar relatórios automáticos sobre infrações e near-misses
23. Passadeiras Fosforescentes
a) Aplicar tinta fosforescente nas marcações das passadeiras que absorve luz durante o dia
b) Garantir visibilidade durante a noite mesmo em caso de falha da iluminação pública
24. Separação de Fluxos Pedonais e Ciclistas
a) Criar passagens diferenciadas para peões e ciclistas nas zonas de maior tráfego misto
b) Implementar sinalização específica para cada tipo de utilizador

25. Passadeiras Artísticas e Educativas
a) Desenvolver projetos artísticos comunitários que tornem as passadeiras mais visíveis e apelativas
b) Incluir mensagens educativas sobre segurança rodoviária
26. Sistemas de Backup Energético
Instalar painéis solares e baterias de backup para garantir funcionamento da iluminação LED autónoma da rede eléctrica nacional
27. Drenagem Específica para Passadeiras
a) Melhorar sistemas de drenagem para evitar acumulação de água nas passadeiras
b) Instalar pavimento permeável que evite poças e reduz o risco de hidroplanagem
28. Zonas de Espera Protegidas
a) Criar zonas de espera cobertas junto a passadeiras em locais de grande movimento
b) Instalar pequenos bancos e abrigos para pessoas idosas ou com mobilidade reduzida
29. Conectividade IoT entre Passadeiras
a) Implementar rede de comunicação entre passadeiras próximas para coordenar semáforos
b) Criar “ondas verdes” para peões em percursos frequentes
30. Passadeiras Modulares e Adaptáveis
a) Desenvolver sistema de passadeiras modulares que podem ser reconfiguradas conforme necessidades temporárias
b) Adaptar facilmente a obras, eventos ou alterações no trânsito
A segurança pedonal em Lisboa começa – literalmente – no chão que pisamos. As passadeiras são pontos críticos de atravessamento e, quando mal mantidas ou mal iluminadas, tornam-se armadilhas que colocam em risco a vida de milhares de cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis. Os dados são claros e os exemplos abundam: a negligência na conservação das passadeiras tem consequências reais e evitáveis.
Com base na legislação em vigor e nos indicadores preocupantes de sinistralidade, torna-se evidente que é urgente dotar as freguesias de meios, planos e critérios claros para garantir a manutenção eficaz e atempada das passagens de peões. A modernização da infraestrutura pedonal, aliada à inovação tecnológica e à mobilização das comunidades escolares e locais, permitirá transformar Lisboa numa cidade verdadeiramente segura, inclusiva e acessível para todos os que nela circulam a pé.
Investir na visibilidade, acessibilidade e inteligência das passadeiras não é apenas uma medida de gestão urbana: é um compromisso com a vida.

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A grande maioria das passadeiras em Telheiras apesar da sinalização horizontal ,à noite tornam se perigosas pois a iluminação é péssima , e mal se vem os peões a iniciar a travessia .
Os vossos artigos sāo sempre importantes para a segurança e bem estar dos Lisboetas. Obrigada.