Foto: Pedro Pina/Divulgação.

Praça dos Três Poderes em Brasília, um dos cartões postais do Brasil, as duas torres paralelas, o par de meia-luas em concreto, uma virada para baixo, outra para cima, uma esfera cindida ao meio, a representação simétrica da assimetria democrática, a democracia que abraça as diferenças, respeita os pensamentos dissonantes à direita e à esquerda.

Inaugurada em 21 de abril de 1960, a praça no coração da capital federal foi a tentativa brasileira de encarnar em cimento o abstrato ideal helênico da ágora, do espaço público da república, da res publica, de onde ecoa a voz dos cidadão e emana o poder do povo. 

Porém, a imagem em exibição na exposição Complexo Brasil, onde se vê um imenso muro a dividir esse espaço emblemático concebido para ser indivisível, não deixa dúvidas: a tentativa brasileira falhou.

O falhanço brasileiro em reproduzir a ágora ateniense, um modelo arquitetónico hegemónico no ocidente, presente na Europa, em Portugal cristalizado em Lisboa no Rossio, nos Restauradores e no Terreiro do Paço, é um dos pontos altos da exposição que reflete a formação do Brasil e do brasileiro, em cartaz na Fundação Calouste Gulbenkian

Um espaço expositivo concebido pelo arquiteto Guilherme Wisnik, um dos três curadores da exposição, e que pretende apresentar aos portugueses e europeus – e também aos brasileiros – as alternativas encontradas pelo Brasil na busca de um espaço público que faças as vezes da praça, após o fracasso em adotar o modelo da ágora clássica. 

Guilherme Wisnik foi o responsável pela parte da exposição que pensa o modelo urbanístico das cidades brasileiras. Foto: Rita Ansone.

“A praça como símbolo do espaço público no Brasil é um conceito fora do lugar”, afirma Guilherme Wisnik,

Para ilustrar o seu pensamento, o arquiteto busca na literatura, especificamente em Machado de Assis, um exemplo didático de uma certa “tradição” brasileira em copiar valores europeus que quase sempre não funcionam como deveriam na peculiar realidade latino-americana. 

“A matéria-prima da literatura de Machado de Assis era mostrar de forma dissimulada e irónica como os valores burgueses e liberais da sociedade carioca copiados da Europa eram conceitos fora do lugar num país ainda colonial e escravocrata como o Brasil dos fins do século XIX”, continua o curador. 

Nesse Brasil que ainda insiste em se mirar nos reflexos dos espelhos trazidos nas caravelas portuguesas, a ágora verde-amarela vira as costas para as praças aprovadas em projetos por políticos e traçadas com réguas e esquadros por arquitetos, manifestando-se de forma orgânica e não-cartesiana.

Surge uma ágora made in Brazil – para não fugir ao exemplo literário – de espírito Macunaíma, o heroi de Mário de Andrade, a imagem estereotipada de um brasileiro preguiçoso, malandro e erotizado, mas também sensível e adaptável às influências do mundo.

Uma ágora manifestada nos campos de futebol de terra batida numa labiríntica favela, no galpão de uma escola de samba, no exíguo espaço de uma coletividade.

E na imensidão da praia. 

Da praça à praia: o sol ainda é para todos

O espaço dedicado à reflexão do espaço urbano brasileiro ocupa um lugar de destaque na Complexo Brasil, representante de um dos três núcleos da exposição, batizado de Branco Ocidental Construtivista, que segundo Guilherme Wisnik, contextualiza o presente e especula o futuro do movimento concreto e neo-concreto brasileiro. 

Um movimento que tem como ex-libris Brasília, construída nos anos 1960 para ocupar o lugar do Rio de Janeiro como capital do Brasil. Uma cidade planeada, simétrica, sem esquinas, pontuada por solitárias avenidas e amplos vazios, diferente do caótico liquidificador arquitetônico carioca, fruto de multi-inspirações urbanísticas, quando não fruto de inspiração alguma. 

“Enquanto o resto do mundo mergulhava numa irracionalidade artística em meados do século passado, no surrealismo de Dalí ou no expressionismo abstrato de Pollock, por exemplo, o Brasil surgia como bastião do iluminismo cartesiano”, pontua Wisnik. 

Com séculos de atraso, o Brasil tentava através de Brasília emular o modelo de espaço público ocidental europeu, onde a praça surge como lugar das ações políticas. O urbanista e arquiteto brasileiro nascido em França, Lúcio Costa, “pai” do Plano Piloto da capital federal, não contava porém com uma variável que acabaria por determinar o fracasso da empreitada. 

A variável do patrimonialismo.

“O patrimonialismo é uma característica ainda forte ou, melhor, cada vez mais forte da cultura brasileira, no movimento de contaminar a esfera pública pela lógica da iniciativa privada”, resume Wisnik. 

Ao contrário do que acontece na Europa, onde são atravessadas pelos moradores nas idas e vindas dos seus compromissos ou frequentadas pelas famílias em momentos de lazer, as praças nas grandes metrópoles do Brasil quase sempre estão desertas, esvaziadas seja pela insegurança pública, seja pela opção brasileira em privilegiar o modelo rodoviário de transporte público que obriga o peão a se converter em condutor.

A opção rodoviarista do Brasil empurrou para outras zonas das cidades a vida em comum, na segmentação dos bairros em dormitórios, boémios ou das elites. Assim como aconteceu nos Estados Unidos, onde o downtown acabou esquecido, os centros urbanos das capitais brasileiras foram abandonados, substituídos pela lógica do condomínio, entrando em decadência.

Nesse contexto, as praças brasileiras transformam-se num incómodo, com a vegetação a crescer sem controlo, cobrindo estátuas e monumentos esquecidos, a ferrugem a corroendo brinquedos sem crianças, um quadrilátero estéril abrigo para sem-abrigos, pontos de negócio para o tráfico ou o meretrício, um decadente modelo de ágora onde o debate político é incapaz de ser travado.

Um calo no sapato dos governantes que não tardaram em premir o botão do patrimonialismo. 

“As praças brasileiras acabaram privatizadas, adotadas por empresas, que as limitam por grades e contratam seguranças particulares para afastar a presença indesejada, fechando-as à chave”, lembra Wisnik. 

É neste contexto que outros espaços acabaram por ocupar o lugar da praça como ponto de encontro, de convívio e debate político. 

“Espaços atravessados pela informalidade e pelo lúdico”, pontua Wisnik, como ilustram as imagens expostas em Complexo Brasil, da praia tomada pela população, um rapaz e um menino que banham um cavalo na água salgada, do campinho de terra batida no coração da comunidade.

Embora essas novas configurações também reflitam a lógica patrimonialista brasileira, estabelecendo papeis específicos para as classes sociais distintas, ainda é possível a convivência típica entre a miríade de moradores de uma cidade, com no modelo clássico da ágora.  

“Na praia, por exemplo, a classe média vai para o banho de sol enquanto os mais pobres trabalham. Mesmo assim, as camadas mais populares seguem visíveis, desempenhando uma função, participando de alguma forma deste espaço público”, reforça Guilherme Wisnik, otimista que o sol no Brasil ainda é para todos.

O 8 de janeiro e o fim da ágora brasileira

O muro erguido diante da Esplanada dos Três Poderes em Brasília teve como propósito separar os eleitores de esquerda e de direita no dia em que o Congresso Nacional encenou a votação do impeachement da então presidente Dilma Rousseff, concretizando golpe institucional que dois anos depois mergulharia o Brasil nas sombras do fascismo. 

Era a pá de cal na pretensão de Brasília em protagonizar o papel de ágora sonhado por Lúcio Costa, promovendo o encontro e o diálogo entre as diferentes correntes ideológicas e políticas, agora em sentido tão radicalmente opostos que um muro tosco se intrometeu entre as colunas paralelas e os dois semi-círculos, estragando a paisagem e a simetria arquitetónica da capital. 

“Em 2016, a utopia da arquitetura modernista brasileira investida na construção de Brasília chegava ao colapso, pois os dois lados já não podiam mais conviver”, explica Guilherme Wisnik.

A obra de Bruno Faria remete à força da cultura patrimonialista exercida sobre Brasília. Foto: Pedro Pina/Divulgação.

Complexo Brasil faz várias menções a essa tentativa colapsada de Brasília como modelo da ágora clássica nacional, a mais curiosa dela do artista plástico pernambucano Bruno Faria, uma instalação compacta e eloquente onde duas metades cortadas de uma laranja e um par de garrafas de Crush emulam o skyline do Congresso Nacional, numa provocação sobre a pressão comercial imposta pela regra do patrimonialismo. 

O chamado 8 de janeiro de 2023, quando os apoiantes do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram o mesmo Congresso Nacional e o vandalizaram – movimento mais uma vez de inspiração estrangeira, no caso, a tomada do Capitólio em Washington em 6 de janeiro de 2022 – pegou a produção da exposição a meio e a menção ao violento ataque à democracia brasileira surge apenas no vídeo de abertura da Complexo Brasil. 

Apesar disso, fica claro que a tentativa, mesmo que fracassada, de destruir a democracia brasileira atacando o seu maior símbolo fecha o ciclo iniciado com o muro em 2016, soterrando em definitivo as pretensões de Brasília de representar o modelo da ágora clássica num Brasil onde qualquer diálogo entre as diferentes correntes políticas parece impossível.

Artigo publicado ao abrigo de uma parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian



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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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