Lisboa cheira a verniz e a nervos disfarçados de charme. É 24 de novembro de 1959 e eu, que não devia estar aqui, estou. Entrei com um nome emprestado com peso de duques lombardos e que transpira intriga palaciana: “de Lancastre e Melo Visconti”. “Lancastre” e não “Lencastre”, que lhe dá logo um tom mais pomposo. “Melo”, só um com “l”, que eu não sou presunçosa. E “Visconti”, para me dotar de uma linhagem nobre com raízes europeias e não apenas portuguesas – afinal sou.

Fiz-me acompanhar de um convite falsificado por um tipógrafo amigo e um vestido de veludo verde-escuro que era da minha avó quando ainda ia aos bailes do Grémio e que casa bem com a mixórdia de apelidos com que me batizei para o evento. Acima da lapela, prendo um sorriso.

O Hotel Ritz abre portas com a solenidade de uma peça de teatro em estreia absoluta. À entrada, os cavalheiros ajustam os punhos das camisas como se fossem argumentos e esgrimem apelidos com tiques aristocráticos. As senhoras, engolidas em plumas, pérolas, sedas e renda francesa da Chantilly, pisam o chão com saltos lentos, firmes e compassados. 

É a mais esperada inauguração da década. A cidade quer mostrar que sabe estar à altura, mesmo que isso custe uma semana de refeições mais leves, em nome de um fecho que corra sem escândalo.

Subo a escadaria de mármore como quem sobe ao palco. A luz é quente e os espelhos estão estrategicamente colocados com a subtileza de um ilusionista, a multiplicar convidados importantes.

E depois, vejo-o: Almada! Não ele, mas o seu gesto, obcecado pela geometria. Almada entrou aqui e fez uso do ímpeto com que buscava a harmonia escondida nas proporções, que traduzia em linhas limpas, retas, precisas, quase matemáticas. Deixou um sarcasmo delicado cravado nas paredes (dizer “sarcasmo delicado” é, já de si, um sarcasmo). Os seus painéis que vestem o salão não são simples ornamento; são crítica embutida em arte pública de luxo. Centauros longilíneos, olhos como bússolas à procura do norte, letras flutuantes, silêncios subtis entalados entre linhas. Quem olha depressa, vê beleza. Quem olha devagar, vê ironia. Quem lhe conhece o traço, sabe que cada linha pensa, afirma, provoca e dissolve fronteiras.

Sento-me no salão de jantar. À volta, o zumbido de conversas cruzadas. Um industrial de Leiria fala de investimentos em Angola. Uma senhora da Foz sussurra que foi recebida por Salazar, que optou por não estar presente hoje, avesso ao modernismo da arte que se exibe nas paredes do hotel, essa afronta ao conservadorismo semeado por Columbano. Um jovem do Ministério da Presidência fala em modernidade como quem reza uma missa. Uma gargalhada feminina rasga o fundo do salão, demasiado calculada para ser espontânea, excessivamente alta para ser ignorada e suficientemente forçada para se perceber que era justamente essa a intenção.

O menu é distinto e bordado a galões dourados: Espargos de São Torcato, Trufas Brancas de Alba e Ovos de Codorniz para entrada, Carabineiro do Algarve, Ananás Macerado e um Brulée de cogumelos boletos e Biancosubia para saída, que se desfazem na boca como o orgulho nacional perante o estrangeiro. O serviço é tão preciso e sincronizado que me sinto a mais. E, no entanto, é aqui que queria estar. Não por querer fazer parte, mas por querer observar um mundo que não é o meu.

Observar os sorrisos que duram segundos a mais. Os olhares que procuram aprovação como se fosse oxigénio. Os gestos pequenos que revelam tudo: a forma como alguém dobra um guardanapo, como toca no pé da taça antes de brindar, como diz “Lisboa” com vogal arrastada e cantos da boca descaídos. E observar, acima de tudo, como esta cidade se vestiu de gala a sonhar com modernidade.

Nessa noite, Lisboa não dormiu. Deitou-se tarde, com o cabelo hirto de laca e os pés doridos de tanto querer parecer Paris. E eu? Eu fiquei até ao fim, atrás da coluna do mestre ceramista Querubim Lapa, a ver os últimos convidados a sair, os copos vazios, desmaiados com défice de champanhe, e a escutar o som abafado do piano que já tocava por inércia, sem dedos nem alma.

E, nesse momento, Almada entrou novamente de rompante a estilhaçar-me o sono nas cores vibrantes e nas formas geométricas das tapeçarias do salão e eu ilustrei-o mentalmente, levando-o de volta à Brasileira do Chiado, onde sempre acho que pertence, com o cabelo desgrenhado, o olhar inflamado e os bolsos vazios. O Almada que gritou contra o culto da mediocridade, que rasgou convenções de Manifesto Anti-Dantas em punho, a cuspir lucidez sobre o conservadorismo adormecido de Columbano, enquanto saltava por cima das mesas sextavadas d’A Brasileira. Aqui, no Ritz, está contido, mas nunca domado.

Hoje, quando entro no Hotel Ritz Four Seasons Lisboa, já sem convites falsos nem veludos herdados, ainda me lembro daquela noite sonhada. Não pelo luxo, mas pela promessa que ficou no ar: que Lisboa podia ser maior do que os seus complexos. Que havia beleza nas coisas feitas para desafiar o tempo. E que, por mais que o tempo passe, há lugares onde a História vive para sempre nos corredores, nas paredes e nas obras de Almada. 

E às vezes, se escutarmos bem, ainda se ouvem as teclas do piano.


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Sónia Santiago

Depois de anos no marketing de duas multinacionais — Navigator Company e Roca — percebi que o que realmente me movia são as marcas com história. Hoje sou Diretora de Marketing do Grupo O Valor do Tempo, onde lidero a comunicação de 13 marcas que têm em comum a mesma missão: contar a História de Portugal de forma autêntica, original e com elevação.

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