Foram anos de portas fechadas, depois de tantas partidas e chegadas históricas. Pelas Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, as guardiãs dos painéis de Almada Negreiros, passaram os refugiados da Segunda Guerra, os soldados rumo à Guerra Colonial, os retornados depois do 25 de Abril. Tanta história encerrada nessas oito paredes que, finalmente, se abre ao mundo, com a inauguração do Centro Interpretativo “Os Murais de Almada nas Gares Marítimas”.
O Centro Interpretativo inaugurou neste dia 7 de abril, em celebração do 132º aniversário de Almada Negreiros. Nove salas, na Gare Marítima de Alcântara, onde se empreende uma viagem no tempo pela história da construção das gares, o processo criativo de Almada Negreiros e os momentos históricos vividos neste lugar emblemático da cidade.
Com a inauguração deste centro, assinalou-se a abertura, ao público, das Gares, que abriram pela primeira vez em 1943 e 1949 com desenho de Porfírio Pardal Monteiro. Agora já todos poderão ver os painéis de Almada Negreiros que ilustram os Descobrimentos e lendas como a Nau Catrineta, na Gare de Alcântara, ou as varinas, os emigrantes, a vida em ebulição no cais, na Rocha do Conde de Óbidos.




Na sessão inauguração, marcaram presença as netas de Almada Negreiros, Rita e Catarina Almada Negreiros, bem como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, a Ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, e o Secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo.
Carlos Moedas recordou aliás as fotografias de Roger Kahan, o fotógrafo descoberto pelo jornalista e fundador da Mensagem Ferreira Fernandes:
“Relembro a fotografia de Roger Kahan, de uma judia refugiada, com toda a dureza e dificuldade do momento. Momentos duros, em que Lisboa foi porto de abrigo.”
A fotografia a que Carlos Moedas se refere foi transformada num mural, pelo artista Vhils. Kahan, que documentou a vida do Porto de Lisboa nos anos 40, relatando o drama dos refugiados que procuravam esperança no Porto de Lisboa, é uma das personagens do Centro Interpretativo agora inaugurado.
As histórias nunca antes contadas
O projeto de criação de um Centro Interpretativo nasceu com a seleção, em 2022, das gares enquanto lugares de importância cultural a preservar, pela World Monuments Fund, que levou a Associação do Porto de Lisboa (APL) a associar-se à Associação do Turismo de Lisboa (ATL).
Assim se lutou pela restauração dos painéis de Almada, a criação do Centro Interpretativo e a abertura das gares. Neste momento, a Gare Marítima da Rocha de Conde de Óbidos encontra-se já restaurada, enquanto a restauração da Gare de Alcântara começará ainda este ano.
Mariana Pinto Santos, historiadora de arte responsável pela conceção e coordenação dos conteúdos do centro, crê que a abertura das gares e a criação do centro representam um novo olhar sobre a História de Lisboa e do país: “Há aqui muita história que estava perdida, e que agora pode ser ensinada. História que não tem só que ver com as pinturas murais mas com toda a vivência deste lugar: quem passou por aqui, quem viu as pinturas, quem partiu, quem chegou.”

Para Rita e Catarina Almada Negreiros, este é um momento importante. “A nossa satisfação é total: temos as gares, uma delas já restaurada, abertas ao público, e o Centro Interpretativo, que conta não só a história dos murais, como também a do edifício, do local, de tudo o que aqui aconteceu”, diz Rita.

E Catarina acrescenta: “O nosso acesso aos painéis era muito restrito, mas agora as gares ficarão abertas e restauradas, o que, no fundo, corresponde a um momento muito importante que é o do reconhecimento do património.”
As arquitetas Rita e Catarina, que cresceram com um pai também arquiteto e uma mãe escritora, habituaram-se desde pequenas a ouvir as histórias que eram contadas sobre o avô e a avó, a artista Sarah Affonso, que ajudou Almada com o trabalho na Gare da Rocha do Conde de Óbidos.
Agora, Rita espera que as gares e os seus painéis se tornem de passagem obrigatória para quem visita Lisboa, tal como os painéis de Diego Rivera, que foi casado com Frida Kahlo, se tornaram obrigatórios para quem visita a Cidade do México: “Devia acontecer o mesmo aqui, sabendo que a Sarah Affonso o ajudou.”
O Centro Interpretativo poderá ser visitado todos os dias, entre as 10h e as 19h, com bilhetes a 5 euros, que incluem o transporte gratuito entre as gares, um “shuttle” inspirado no projeto original do carrinho de bagagens desenhado por Pardal Monteiro.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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gostei muito do artigo sobre as gares marítimas parabéns!!!
Excelente artigo e excelentes fotografias! Parabéns.
Finalmente!
Estava curiosa com a data da abertura, pois é um dos locais que gostaria de visitar.
Acho estes Murais Históricos/marvilhosos. Tenho imensa pena de não os poder ver e dou graças à WEB e aos amigos que me proporcionam estes momentos de beleza e admiração.
Oxalá os saibam preservar para os meus netos.
Felicidades para Rita e Catarina!