Daí, virou-se para mim, os olhos rútilos de cão hidrófobo, e foi logo dizendo, não tens com o que preocupar, és um imigrante altamente qualificado. A afirmação pairou no ar, congelada na atmosfera pelo pause de um metafísico controlo-remoto, a voz rouca ecoando na minha cabeça em loop, és um imigrante altamente qualificado-ado-ado-ado-ado-ado…
Logo eu, que no alto dos meus um e sessenta e cinco nunca me achei alto em nada, que dirá, altamente. E tudo isso só porque escrevo uma coisinha aqui e outra ali, umas gracinhas que, vamos combinar, não fazem diferença na vida de ninguém?
Na real, quem sou eu na fila do pão para ser altamente qualificado?
Fiquei ruminando a conversa quando fui buscar a bicicleta na oficina. O cabo do travão partiu e o mecânico, um conterrâneo sempre untado de graxa dos pés à cabeça, foi logo me acalmando, é coisa simples, coisa simples, bronca safada.
Podia ser bronca safada, mas quando o freio da bike partiu quase dei com nariz no vinte e sete em plena Forças Armadas. Não fosse os dois centímetros da sola do tênis que queimei no asfalto e o meu rosto estaria parecendo a dianteira de uma kombi.
Até tentei consertar a bike, levei uma manhã inteira puxando o cabo pra lá e pra cá, mas os meus diplomas de imigrante altamente qualificado na parede não serviram de nada.
Não vi nenhum diploma pendurado na entulhada parede da oficina – nem poster de mulher pelada, pois os tempos são outros -, mas o mecânico levou humilhantes dois minutos – dois minutos! – para reparar o cabo.
E olhe que ainda deve ter demorado de propósito, para justificar a cobrança.
Um imigrante sem diploma e com graxa até a medula que garante as pedaladas de um bairro inteiro. Taí, eis um imigrante altamente qualificado, pensei.
Foi aí que me lembrei do talhante brasileiro do supermercado da esquina.
Já falei aqui, ir ao talho sempre foi um pesadelo.
Fora o peito de frango, não conseguia acertar em mais nada. Pedia uma costela e o rapaz do outro lado do balcão, com aquela cara de quem ficou até de madrugada vendo o Porto no Mundial de Clubes, ia logo complicando as coisas.
Mas e o senhor quer costelão, começava ele a ladainha, ou quer costeleta, costelita, colstelota, costeluta, sei lá mais o quê. Quando o ouvi falar em sobrecu pensei, eh, pá, no meu não, e pedi dois quilos de peito de frango.
Mas isto foi antes.
Agora, há o talhante brasileiro, uma espécie de tradutor simultâneo da anatomia bovina, Chat GPT das bifanas e entremeadas, Nobel dos enchidos. E de repente, as peças daquele amontoado de carne na montra se encaixaram como num puzzle.
O talhante brasileiro resolveu a minha vida carnívora, traduzindo do português de Portugal para o do Brasil as peças de boi e de porco. Até picanha levei para casa. E na parede do talho também não havia diploma, só a foto do outro, o tal do sobrecu, funcionário do mês.
Um talhante poliglota. Taí, pensei, eis um imigrante altamente qualificado.
Altamente qualificado como o imigrante que botou a torneira da cozinha no lugar depois de um dia a pia lá de casa parecer o chafariz da praça do Rossio ou o outro que pedalou no meio da noite e debaixo de chuva para trazer o remédio para a febre do mais novo.
E eu, coitado, uma coisinha escrita aqui e outra acolá que não enche a barriga de ninguém e lá vem alguém com essa história de imigrante altamente qualificado.
Daí ter andado a pensar cá com os meus botões quais são as altas qualificações do funcionário que vai decidir quem é ou não um imigrante altamente qualificado. Deve ser alguém realmente muito especial, que nunca precisou que lhe reparassem a bicicleta ou a torneira da cozinha, nem recorreu a um estafeta para alguma emergência ou saciar a fome.
Pensei ainda, como será Lisboa quando todos forem lisboetas altamente qualificados?
Lisboa, uma cidade doutorada com pós-doc em alguma coisa, só de médicos, engenheiros, físicos nucleares, químicos quânticos e astronautas com os ralos entupidos, campainhas que não tocam, internet desconectadas, jantares não entregues e onde aquele Uber que tanto se precisa nunca mais vai chegar até a sua porta.
Uma Lisboa triste, sem uma imagemzinha sequer de Santo António na parede.
Apenas diplomas, milhares de diplomas.

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