Este artigo faz parte de uma série de jornalismo ambiental com foco no concelho de Setúbal.

É o resultado de uma parceria com a Câmara Municipal de Setúbal e integra as Jornadas de Ambiente do município.

O projeto começa com um telefonema: um amigo, alertado por pescadores locais, conta que encontrou vários cavalos-marinhos na Trafaria. Gonçalo Silva, investigador do MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente), intrigado, e motivado pelo seu envolvimento de longa data com peixes marinhos e monitorização de áreas marinhas protegidas, quis ver os animais com os próprios olhos.

“Fiquei impactado por aquilo que vi”, relembra a memória do primeiro mergulho orientado para os cavalos-marinhos: “Quer pela quantidade de cavalos-marinhos, quer pelo seu tamanho, quer pelo ambiente onde viviam”, descreve Gonçalo Silva.

O investigador refere o projeto CavALMar, levado a cabo na zona ribeirinha, e conta que, num mergulho de apenas uma hora, num espaço pequeno, puderam ver-se cerca de 10 a 12 cavalos marinhos, acrescentando que “a maior parte das pessoas nunca chega a ver 10 em toda a vida”.

Para mais, estes cavalos-marinhos eram grandes, maiores que o normal, e viviam entre o  lixo, rodeados de diversas ameaças. Este projeto analisou o número de cavalos-marinhos da zona e as ameaças que lhes eram inerentes, tendo concluído que os animais se encontram na “lista vermelha” das espécies ameaçadas. 

A destruição do habitat devido à pesca de arrasto, a poluição – nomeadamente o lixo marinho e a poluição sonora – e as alterações climáticas, são as principais ameaças para a sobrevivência dos cavalos-marinhos.

Gonçalo Silva afirma que “esta é uma espécie bandeira. Ao protegermos esta espécie estamos a proteger o seu habitat e toda a biodiversidade à sua volta”.

A surpresa que teve debaixo de água revelou a necessidade de estudar, e consecutivamente proteger, esta espécie. Em Portugal, só havia trabalho feito sobre a população de cavalos-marinhos da Ria Formosa, no Algarve. No resto do país, a realidade destas espécies era desconhecida.

Gonçalo Silva. Foto: Frederico Raposo

Formou-se então uma equipa de cerca de 10 pessoas constituída por membros da MARDIVE – uma associação sem fins lucrativos dedicada à inovação científica, à conservação da biodiversidade marinha e à educação – por investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade NOVA de Lisboa e por membros do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente.

Após o estudo realizado na zona ribeirinha – projeto CavalmAr – foi levado a cabo um importante estudo que permitiu estimar a distribuição do habitat favorável às duas espécies de cavalos-marinhos e qual o grau de proteção que estas áreas têm em termos de legislação. 

O estudo apresentou o Sado, o Tejo, as rias de Vigo, a ria Formosa e em geral a costa do Algarve como “hotspots de biodiversidade”, ou seja, identificou estes lugares como de alta probabilidade de ocorrência de cavalos-marinhos.

O segundo passo da recolha de dados, requereu que a equipa, antes de partir para o mar, angariasse financiamento.

Uma primeira vertente do projeto, denominada CavalSado, angariou como parceiros o programa Mares Circulares, financiado pela Coca-Cola Europacific Partners e gerido pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN), a Câmara Municipal de Setúbal e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). 

Depois, o grupo de investigadores juntou ao CavalSado um segundo projeto: o Cavalos de Tróia, que, com o apoio do ICNF e do Tróia Natura, permitiu à equipa levar a cabo o estudo de todo o estuário do Sado. 

O objetivo, nesta fase do projeto, é fazer um levantamento da informação, visitando os locais que foram identificados como potenciais para a existência de cavalos-marinhos, como é o caso de locais onde se encontrem ervas marinhas, estruturas portuárias, campos de cultivo de ostra, entre outros. 

Cavalo marinho, captado pelos investigadores da Mardive. Foto: Mardive

Além disso, o grupo de cientistas aponta para a extrema relevância da comunicação, tendo procurado não só estabelecer stakeholders como também interagir com as comunidades: “Fazêmo-lo através das comunidades escolares e da comunicação social”, explica Gonçalo Silva.

Enquanto associação, a MARDIVE atribui uma grande relevância ao ato de transmitir informação científica à comunidade de forma clara: “Antigamente os cientistas eram vistos como aquelas entidades meio esquisitas e meio malucas que viviam lá nos laboratórios e que eram pouco acessíveis: Nós queremos desmistificar isso”, afirma Gonçalo Silva.

A associação fá-lo através de programas nas escolas como é o caso do “Kids Dive – Descobrir o Oceano”.

Conhecer de perto o Oceano 

O Kids Dive é um programa de literacia dos oceanos que acontece durante o ano letivo em escolas de Setúbal, Cascais, Sintra e Alenquer, contando com mais de 700 alunos de idades diversas, desde o 4.º ao 12.º ano de escolaridade.

Atividade de mergulho em piscina no âmbito do Kids Dive. Foto: Mardive

Para a implementação dos projetos nas escolas o papel da Câmara Municipal é importante “porque a Câmara contrata o programa para nós o implementarmos e depois distribui de forma equitativa nas escolas.”, explica Gonçalo Silva. Todos os anos são diferentes escolas que participam na atividade “E, assim, todos os alunos vão tendo oportunidade. Não interessa se têm dinheiro, não interessa de que classe social são. E isso é transformador.”.

O programa consiste num conjunto de quatro atividades que pretendem despertar os alunos para as ameaças ao oceano. “O mergulho é sempre a nossa atividade central”, explica Tassiana Malzone, bióloga marinha e gestora do projeto educativo “Kids Dive”, “Nós usamos o mergulho com garrafa em piscina como uma ferramenta educativa para incentivar a curiosidade dos nossos alunos.”, afirma Tassiana, que acredita que uma exposição educativa para ser completa e eficaz tem de ser dinâmica e prática.

Vídeo sobre as atividades de mergulho realizadas com jovens e crianças no âmbito do Kids Dive. Vídeo: Mardive

“Mas não é só o mergulho que faz com que este projeto seja completo”, acrescenta a bióloga. O projeto divide-se então em quatro etapas: a ida ao Oceanário, uma saída de campo, o mergulho e o summit final. 

O primeiro contacto entre a equipa da MARDIVE e os alunos é nas escolas, um momento que pretende aferir os conhecimentos dos alunos sobre o oceano, as suas ameaças e conservação. 

O segundo momento dá-se no Oceanário de Lisboa, onde as turmas fazem uma visita guiada e conversam sobre as alterações climáticas. 

De seguida acontece a saída de campo, geralmente numa praia local. Este ano, em Setúbal, os jovens visitaram a praia de Alpertuche. Aqui, têm a oportunidade de agarrar, tocar e sentir diversos organismos marinhos. Tassiana Malzone descreve este momento como sendo um dos pontos altos do programa, uma vez que “é aqui que eles estão lado a lado com os biólogos da equipa da MARDIVE no campo a conhecer os organismos”.

Tassiana Malzone. Foto: Frederico Raposo

Depois vem o dia de piscina, o dia em que os alunos do Kids Dive experimentam a atividade de mergulho num cenário que a equipa de biólogos monta debaixo de água: desde serem confrontados com redes de pesca, para que compreendam o seu perigo para os animais marinhos; até um percurso de hula-hoops através dos quais têm de passar, com a agravante de que ao passar o terceiro colidem com uma película de plástico que é invisível debaixo de água. 

Estes são exercícios que permitem aos alunos colocarem-se na pele, ou na escama, dos animais marinhos. Contudo, são também desenvolvidos exercícios para que experimentem o papel de biólogo marinho como escrever debaixo de água, tirar fotografias, andar de scooter aquática e explorar uma floresta de algas.

Durante o dia de piscina decorrem dois workshops, um dinamizado pela Associação Portuguesa de Lixo Marinho sobre os perigos do plástico nos oceanos e outro com o Jardim Zoológico sobre a biodiversidade e conservação. 

O projeto culmina num summit de partilha de conhecimento entre cientistas e jovens para fechar todas as atividades: “convidamos cientistas para falar com os miúdos sobre o trabalho deles e damos oportunidade às escolas de comunicarem o que aprenderam durante o Kids Dive”, explica Tassiana Malzone. 

O ambiente que se sente no auditório Bocage, em Setúbal, durante o summit, é de muito entusiasmo. Este momento marca o culminar de um ano de atividades ligadas ao mar. Jovens de diversas faixas etárias partilham orgulhosamente a sua experiência no projeto: cantam canções, declamam poemas de sua autoria, e mostram vídeos feitos por si alusivos à atividade.

A importância da informação na preservação da biodiversidade

“Programas como o Kids Dive são fundamentais para que as pessoas percebam que primeiro devem conhecer a biodiversidade que existe, e depois pensar o que podem fazer para minimizar o seu impacto na degradação da biodiversidade”, aponta Gonçalo Silva, defendendo que só é possível preservar o que se conhece.

Por este motivo, a fase de levantamento e monitorização dos cavalos-marinhos no Sado é de extrema relevância para os investigadores envolvidos: “é com base nisso que conseguiremos aconselhar melhor as entidades de gestão a tomar boas decisões”, conta Gonçalo.

Apesar disto, o investigador é bastante crítico quanto à falta de apoio e financiamento que sente no seu setor: “Estamos a falar de uma zona muito impactada pelo homem, que é o estuário do Sado, tem um porto de pesca, um porto comercial, muito turismo, transportes fluviais, etc. Estas empresas, como têm um impacto muito grande, deveriam ser obrigadas a mitigar e a cuidar das populações locais na sua área de atuação”.

Gonçalo Silva confessa a dificuldade em encontrar financiamento para projetos de preservação da biodiversidade marinha, considerando que tanto entidades privadas como públicas se despreocupam com aquilo que os olhos não vêm, recorrendo até ao ditado popular: “Olhos que não veem, coração que não sente”.

O desinteresse e a falta de informação, embora desanimadores, são uma das alavancas do grupo de investigadores: estudar, informar, educar. 

“Só podemos proteger aquilo que conhecemos, esse é o primeiro passo.”

O próximo passo no projeto de identificação e preservação dos cavalos-marinhos e dos seus ecossistemas é obter uma fotografia daquilo que é o estado das populações na área. Depois, é preciso estudar as suas tendências: compreender se as populações estão a aumentar ou diminuir e as razões por detrás disso.

Em adição, Gonçalo acrescenta que “se encontrarmos alguma população que necessite de uma intervenção mais urgente, iremos propor medidas às entidades com responsabilidade na gestão das espécies e dos habitats”.

*Texto editado por Catarina Carvalho e Frederico Raposo


Mariana Riscado

Nasceu, cresceu, estuda e vive em Lisboa há 20 anos. Encontra sempre, ainda assim, mais um canto da cidade para conhecer, mais uma história para contar. É estudante de Jornalismo na NOVA FCSH e estagiária na Mensagem de Lisboa.

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1 Comment

  1. Grata pelo artigo sobre um projecto tão relevante e pedagógico para proteger um dos animais marinhos mais fascinantes da Natureza. Parabéns à autora, pela forma como conta o que descobriu, à equipa de investigação que promove o conhecimento científico e o envolvimento dos mais novos para estimular a responsabilidade das próximas gerações, tudo com uma componente lúdica e vivencial, que é inspiradora! Bravo, Mensagem!!

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