Gimba dedilha um acorde na guitarra. “Fui buscar esse ritmo ao blues”, explica o músico enquanto canta o refrão de A Alma de Lisboa, a canção vencedora das Marchas de Lisboa deste ano. “Daí eu pensei, é, pá, isso é uma escala de blues e o júri não vai comprar isto.”
Mas comprou.
A marcha com escala de blues caiu no gosto do júri, uma ousadia que não é nova: já foi assim em 2005, na primeira vez que Gimba venceu a Grande Marcha, e também nas outras vitórias, em 2013, 2015. Agora, mais uma vez a batida do rock, blues e salsa descerá a Avenida da Liberdade no desfile das marchas populares.
A ousadia de meter a colher de outros ritmos no caldo da tradicional marcha lisboeta é mais um capítulo na trajetória do músico com espírito punk-rock que fez da criatividade e picardia uma filosofia de vida, desde os primeiros acordes na efervescente noite de Lisboa nos fins dos anos 1970, no duo Tiroliro & Vladimir, e nas décadas seguintes, com os famosos e saudosos Afonsinhos do Condado, Ena Pá 2000, e os Irmãos Catita.
Uma irreverência que os pais do músico já anteviam nos olhos do pequeno Eugénio Lopes, 65 anos atrás, ao decidirem pelo apelido que o seguiria pela vida inteira.
“Gimba é a peça a que eles assistiram, do dramaturgo brasileiro Gianfrancesco Guarnieri, cujo título é o nome de uma personagem com um espírito de malandro carioca”, conta o Gimba de alma lisboeta.
Alma lisboeta que, segundo ele, está por trás das quatro conquistas na Grande Marcha. “Sinceramente, para um alfacinha é fácil fazer uma marcha. Aliás, é fácil fazer uma marcha vencedora”, diz, imodesto, voltando a dedilhar a “viola folk”, companheira de quatro décadas de carreira, desde os tempos das apresentações nos bares na Graça, no Bairro Alto e Misericórdia.
A amiga de longa data, porém, não impediu o músico de cobiçar um modelo novo em folha, uma guitarra Martin D-35, instrumento de culto usado por lendas da música mundial, o que explica o valor a rondar os 3,5 mil euros. Cobrir o preço da guitarra foi a motivação para Gimba participar no concurso de mais uma Grande Marcha, cujo prémio é 5,5 mil euros.
“Estava naquele momento de não querer participar mais, de abrir espaço para os mais novos, mas daí surgiu o desejo de comprar uma outra guitarra nova e valiosa, e alinhei mais uma vez”, confessa.
Hoje o músico é sócio da mulher, Tita, na Club Royale, uma loja de roupas e acessórios vintage na rua do Poço dos Negros, na Misericórdia.
Emboa a mente irrequieta de Gimba e uma certa resistência em lidar com os “conformes” das partituras em papel quase tenha atrapalhado os planos do músico em ir novamente à disputa. A proposta da A Alma de Lisboa foi entregue apenas no último dia e a poucas horas de encerrarem as inscrições. No melhor estilo alfacinha de deixar tudo para o último minuto.

Marchar contra os cânones
A resistência de Gimba em seguir os cânones da música é mais um capítulo na invulgar relação dele com as marchas de Lisboa. Na primeira vez que venceu a Grande Marcha, em 2005, Gimba protagonizou uma verdadeira revolução no tradicional mundo dos desfiles dos Santos Populares, com a canção A Marcha Mais Alegre da Avenida.
Composta a quatro mãos junto com o amigo Miguel Viterbo, a marcha pode até ter sido a mais alegre da avenida, mas de início os integrantes das marchas obrigadas a executá-la não acharam muito piada.
“Eu e o Miguel não sabíamos nada disso das marchas e, como é óbvio, a canção não estava nos conformes, o que gerou protestos”, recorda.

A começar pela estrutura. “Uma marcha é simples, é verso, refrão verso, mas não fazíamos ideia disso e a nossa era verso, verso, refrão, verso, verso, verso e os cantores das marchas diziam que a letra era muito longa para ser memorizada.”
A revolta estendeu-se ao ritmo mais acelerado, muito rock and roll para o gosto dos músicos das marchas.
“A batida por minuto de uma marcha fica entre 125 e 130 BPMs, enquanto a vencedora da Grande Marcha daquele ano tinha 140!”, explica.
Para piorar, a partitura não indicava precisamente a forma de execução da canção, o que deixou em pânico os músicos do cavalinho, como é conhecida a banda filarmónica de uma marcha.
“Deixamos ad libre, para eles decidirem tocar com bem entendessem, mas os gajos das caixas não são muito de improvisar e ficaram enlouquecidos.”
Nem as cantoras tiveram paz. “A nota musical mais alta estava em Si, quando deveria ser em Ré, o que a fazia muito aguda para ser alcançada pelas mulheres”, conta Gimba, até hoje sem perceber muito bem como a marcha deles conseguiu vencer o concurso da Grande Marcha de Lisboa.
A alternativa que selou definitivamente a paz foi a contratação de um maestro “de verdade”, Jorge Machado, para rearranjar a marcha vencedora e finalmente deixá-la dentro dos “conformes”.
Um veterano das noites de rock de Lisboa
O Club Royale, nas mãos de Gimba, conheceu “outras vidas”: já foi bar, restaurante e club noturno de espetáculos burlescos – e ainda mantém um certo espírito boémio – o que explica microfones, holofotes e um piano como parte da decoração do ambiente e o fato da montra se desdobrar em palco para as apresentações.
Um reflexo da personalidade multifacetada e inquieta de Gimba, cuja trajetória profissional conta ainda com incursões pelos Ena Pá 2000, como baixista, Irmãos Catita, e na televisão, em programas como o Cabaret da Coxa (SIC Radical), ao lado de Rui Unas. Foi com o trio os Afonsinhos do Condado, porém, que o músico viveu os anos de maior intensidade na carreira.
Os Afonsinhos do Condado foram um passo adiante em relação ao duo Tiroliro & Vladimir, onde Gimba dividia o palco com Jorge Galvão. A entrada de Nuno Faria forçaria à mudança de nome. “A ideia era fazer algo diferente, mais solar, um pop rock mais sorridente que fosse uma pedrada no charco”, explica Gimba. E foi. Tanto que a geração que viveu a juventude nos anos 80 fez deles um culto.
Em 1987, os Afonsinho do Condado atraíram o olhar e ouvido atentos de Tozé Brito, então o produtor da PolyGram. Com outras três bandas que aqueciam as noites lisboetas, entre elas os Xutos & Pontapés, foram convidados a gravar um maxi-single com três canções, entre elas a provocadora A Salsa das Amoreiras, o hit do ano nas rádios portuguesas.
“A Salsa das Amoreiras era uma crítica às torres do centro comercial das Amoreiras que na época causaram uma grande polémica”, explica Gimba.
Naquele ano, os Afonsinhos do Condado subiram aos palcos praticamente uma vez por semana, em cerca de 50 apresentações. Nos anos seguintes viriam mais um álbum e meia-dúzia de trabalhos, entre singles, EPs e compilações. O ritmo intenso, entretanto, provocou um desgaste natural nos três integrantes, que “entraram de férias” em 1992 e não mais retornaram.
Quem inesperadamente voltou das férias foi o duo Tiroliro & Vladimir e Gimba, novamente ao lado do companheiro de palco de longa data Jorge Galvão, regravou os antigos sucessos no projeto Os Imparáveis. “Muitos dos nossos registos já não existem e iriam morrer connosco. Foi uma forma de eternizá-los”, explica.
A experiência como letrista dos tempos de Tiroliro e Vladimir e dos Afonsinhos do Condado, somada às conquista na Grande Marcha de Lisboa e às contribuições frequentes com a Marcha de São Vicente resultaram no que o músico chama de o “Método Gimba” de composição, disponível aos que desejam a aprender a escrever uma música num concorrido curso.
“A forma como os portugueses falam, engolindo as vogais, interfere na forma de compor uma música”, resume Gimba, sem querer revelar mais detalhes sobre o vitorioso “método” que leva o seu nome.
Os interessados em ser apresentado aos ensinamentos podem se inscrever na próxima turma do músico, em agosto.

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