O uso de azulejos nas fachadas dos prédios urbanos foi uma das grandes inovações arquitetónicas do pós-terramoto – inicialmente, com motivos de proteção divina. Surgiu em Lisboa e rapidamente se popularizou enquanto forma de engalanar os edifícios da cidade, em especial os habitados por famílias mais abastadas. Além do estatuto que conferiam a esses imóveis, o adorno das fachadas com “al-zuleycha” (em árabe, pequena pedra polida), nalguns casos verdadeiras obras-primas, tinha inúmeras vantagens, desde o custo limitado e a baixa manutenção até à sua extraordinária capacidade térmica e de resistência ao salitre.

Hoje, com uma palete de cores e padrões mais simples modernos, é uma moda que parece estar a voltar em força. 

Trazido de Espanha, em 1498, por um entusiasta D. Manuel I, para passar a enfeitar jardins, palácios e igrejas, foi “em Lisboa que o azulejo começou a abandonar o intimismo dos palácios e igrejas, para extravasar para o ar livre, como elemento privilegiado de decoração de residências, entrando profusamente, nas habitações de uma cidade reconstruída. Mais tarde, popularizou-se e assumiu o seu papel de revestimento puro na cobertura do casario de Lisboa”, escreve Luís Filipe Carvalho Ribeiro no primeiro volume de ‘Azulejos de Lisboa’. 

A partir de 1755, o uso disseminado de “mosaico cerâmico alicatado” nas fachadas da Lisboa pombalina criou uma indústria pujante na urbe e, como acrescenta Carvalho Ribeiro, uma “arte predominantemente lisboeta”, com a maior parte dos artesãos e das “olarias situadas entre Santa Catarina, o Mocambo [atualmente, Madragoa e de parte da Lapa] e a Rocha Conde de Óbidos, as do Castelo Picão [Alfama] ou das Olarias [Graça]”. 

Quanto às principais fábricas de azulejos existentes no burgo no último quartel do século XIX, como se pode confirmar através de uma visita ao magnífico Museu Nacional do Azulejo, contavam-se, entre outras, as fábricas Calçada do Monte, Roseira, Sant’Anna ou Viúva Lamego, estas duas últimas ainda em operação. 

Ainda que menos relevante para o nosso tema, mas mesmo assim digno de nota, esta criação originária da Mesopotâmia acabou por ser o principal “material decorativo” das estações de comboio que surgiram em finais do século XIX e também das estações do metropolitano a partir dos anos 50 do século XX. Aqui devemos, aliás, destacar o extenso e pioneiro trabalho de Maria Keil, mas também de Vieira da Silva, Júlio Pomar ou Cargaleiro.

Azulejos, em Lisboa. Foto: Inês Leote

Curiosamente, das minhas mais de uma vintena de moradas em Lisboa, o único prédio onde morei e que tinha azulejos na fachada ficava quase defronte do histórico edifício da Viúva Lamego. Essa foi a última casa onde residi com a minha família de criação, numa altura em que Arroios e o Intendente eram tudo menos cool e que antecedeu a minha primeira experiência de vida fora do país.

E qual o meu espanto quando, chegado à estação de metro Universitetet, que servia igualmente a residência onde iria ficar na capital sueca, fui surpreendido com painéis de azulejos que me pareciam familiares. Fui ver e claro: eram Viúva Lamego. Enfim. Coincidências.

Nos tempos que correm, quando olhamos para as fachadas de edifícios mais antigos adornados com esta tecnologia ancestral de revestimento e decoração, nalguns casos em avançado estado de degradação e com falhas graves e suspeitas nos seus painéis azulejares (com a agravante de, apesar da legislação para a sua proteção estar em vigor desde 2017, este ser um dos souvenirs mais procurados pelos turistas que nos visitam), esta parece mais uma relíquia de um tempo que passou do que uma opção decorativa cheia de futuro.

Mas o devir das pessoas e das coisas é sempre imprevisível. E hoje, claramente, podemos falar de um ressurgimento da azulejaria na paisagem urbana lisboeta.

Depois de décadas em que o betão armado substituiu a alvenaria e acabou por arrasar o azulejo enquanto opção decorativa dos nossos prédios, para ainda o substituir pela original pastilha cerâmica nos anos setenta do século passado e pelo espalhafatoso e muitas vezes deslocado mármore nas duas décadas seguintes, eis que, tal como a fénix, a febril reconstrução do património edificado da cidade na última década e meia repescou esta brilhante técnica milenar.

Não sei se é devido à influência dos “nossos” dois galardoados com o Pritzker, os arquitetos Siza Vieira e Souto Moura, mas o certo é que, como se costuma cantar nas marchas, cada dia que passa “Lisboa é [mais] linda!”


Pedro Salazar

Nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.

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