Esta reportagem fala da saúde física e mental de pessoas em condição de sem-abrigo, sem teto e sem casa. Resulta da Bolsa de Jornalismo Jorge Costa, promovida pela Mensagem, ganha por um coletivo de professores e estudantes da NOVA FCSH: António Granado, Carolina Arnedo, Catarina Santos, Dora Santos Silva, Gabriela Ferreira, Leonor Goes Ferrão, Maria Inês Mendes, Marta Abreu e Rita Lourenço. O júri considerou que esta proposta correspondia à vontade de Jorge Costa em transformar a cidade dele através da informação.

O principal sintoma é a falta de ar. “São umas aflições, é horrível.” Mas o quadro clínico de José, de 60 anos, poderia ser diferente se não tivesse vivido cinco anos na rua.

O diagnóstico de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) foi anunciado pela médica de família aos 48 anos, quando já vivia ao relento. A notícia não o apanhou de surpresa – o pai, também diagnosticado com DPOC, morreu com cancro do pulmão, e a mãe convive, igualmente, com a doença. Agora com outro diagnóstico, o de sem-abrigo, às costas, José sentiu-se mais perto de ver repetida a sina do pai e da mãe, desta vez com ele.

“Vinha numa lástima quando cheguei às residências da Comunidade Vida e Paz”, conta. Um dos seus poucos aliados na rua era a bomba SOS – um inalador pressurizado com medicamento broncodilatador, normalmente usado para tratar a asma. Os episódios de falta de ar eram recorrentes e as idas ao hospital também.

Perdeu o número às vezes que pensou que a sua vida iria “acabar de repente”.

José sofre de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, que lhe tira o ar e parte da qualidade de vida.  Foto: Rita Ansone

A história de como foi parar à rua é comum a tantas outras. É da Reboleira, Amadora, onde vivem os irmãos e a mãe, com quem “não se dá muito bem”. Foi casado durante 14 anos, teve três filhos, mas, de um dia para o outro, tanto José como a ex-mulher ficaram desempregados e “as coisas correram mal”. Em 2004, o casal separou-se e José ficou sozinho. “Piorei, piorei”, diz.

Passou a receber o rendimento social de inserção (RSI), mas não era suficiente: “Ia alugando quartos, mas nunca chegava”, conta. “Eu era um bocado engenhoso, fazia os meus biscates e sobrevivia assim.” Mas, como era um trabalho tão incerto, mais uma vez, “nunca chegava”. Sabe apenas que foi num abrir e fechar de olhos até começar a dormir em carros velhos, no chão, “onde dava”.

A relação com a Comunidade Vida e Paz (CVP) remonta a 2019, quando entrou no Centro de Fátima para fazer “a cura do álcool”. Dois anos depois, foi para o Centro Quinta do Espírito Santo, em Sobral de Monte Agraço, onde esteve 22 meses. De lá, a história termina na Unidade Integrativa para Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (UIPSSA) da CVP. É lá que está há um ano.

A perspetiva da morte anunciada não o levou a fumar menos nem na rua nem agora, na Comunidade Vida e Paz: “Às vezes dá-me uns ataques de ansiedade e ainda fumo mais”, confessa. Fuma mais de um maço de tabaco por dia.

A diferença é que agora é seguido “ao limite”, explica, pelo serviço de pneumologia e por outros médicos. Tem aquilo a que chamam de “bicos de papagaio”, umas lesões que surgiram na coluna vertebral e que provocam muitas dores. Por isso anda acompanhado de um concentrador de oxigénio fixo, que usa durante a noite, e outro portátil, para as crises de falta de ar quando está acordado.

Agora é assim. Mas como foi ser doente e viver na rua?

José não sai muito, mas gostava de reencontrar os filhos. Quando pensa neles, vai-se abaixo. Foto: Rita Ansone

Durante o tempo em que esteve na rua, José foi seguido por vários médicos e não foram poucas as vezes em que teve que ir ao hospital receber oxigénio. Para ter acesso ao SNS, usava as credenciais que a médica de família lhe deu. Era a ela a quem recorria quando se sentia mal. Apesar de receber RSI, o dinheiro ia para pagar quartos, por isso, pouco ou nada sobrava para a medicação.

“O pior na rua era chegar aos medicamentos. Às vezes tinha pessoas amigas que me davam dinheiro. Sabiam da minha situação.”

Na altura, chegava a pagar entre 30 e 50 euros – agora, os 16 comprimidos que toma por dia são todos subsidiados pelo Estado.

“Às vezes, penso nos meus filhos e vou-me abaixo. É um culminar de situações. É triste estar a pensar nisto”, diz. José não sabe onde eles vivem e nunca chegou a conhecer o neto. Mas não perde a esperança: “Um dia destes tenho que me juntar aqui com a doutora Vanessa [técnica da CVP] para ver se fazemos uma pesquisa e os encontramos”. 

A saudade é assunto familiar aqui na residência. Gabriela tinha um filho de sete meses quando chegou a Portugal. Natural de Moçambique, onde se apercebeu dos primeiros sintomas de esquizofrenia, veio para Portugal em 1975, uma história comum a tantas pessoas oriundas das antigas colónias. Tinha “20 e poucos anos”, veio com o marido e o filho.

Morou na Amora, no distrito de Setúbal, e na Póvoa de Santo Adrião, em Odivelas. Foi datilógrafa, doméstica e telefonista. Entretanto, divorciou-se com “30 e poucos”, tinha então já três filhos. Primeiro ficou com eles, depois, os filhos ficaram com o pai. Até que ficou sem trabalho. Procurava, mas não havia.

“Dei tantos trambolhões, que caí na rua.”

Antes do derradeiro trambolhão, tinha ido para o Minho à procura de trabalho. Após três anos, regressou a Lisboa, na esperança de encontrar um emprego estável. “Quando fui para a rua, pela primeira vez, estava nos Anjos, tinha 50 e tal anos. O padre Rocha [da igreja com o mesmo nome do bairro, de onde já saiu] gostava muito de mim, porque eu não bebia e ficava no meu canto”, conta. A igreja arranjou-lhe uma casa na Mouraria, da qual teve de sair pouco tempo depois por “estar a cair”.

Tem hoje 69 anos e a vida é muito diferente de quando cá chegou. Tem um ritmo lento, no andar (por conta de uma artrose no joelho) e nas palavras (por causa da esquizofrenia, que afeta a sua memória). A primeira doença apareceu por ter dormido muitas noites, não sabe quantas, à chuva, com o corpo e a roupa molhados. A segunda foi-lhe diagnosticada ainda jovem. 

Gabriela, que prefere resguardar o rosto, divide os dias entre a sala da Comunidade Vida e Paz, a ver televisão, e um centro de dia nas Olaias. Foto: Rita Ansone

Novamente com a ajuda da igreja, foi colocada num quarto de uma pensão no Intendente, mas a experiência deixou-a desconfortável: “Eram só homens a assediar-me todos os dias. Eu era a única mulher”. Preferiu voltar para a rua. Ficou três meses na zona de Arroios. Ou teria sido um ano? Dois? Gabriela confunde-se nas datas. Só sabe que lhe pareceu demasiado tempo.

Na rua, mesmo estando muito perto do Hospital Dona Estefânia, não procurou apoio médico. A medicação para a esquizofrenia, que tomava desde os tempos de Moçambique, bem como o apoio psiquiátrico, terminaram.

Só voltaria a retomá-la na Comunidade Vida e Paz. Gabriela vive numa Unidade Integrativa para Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (UIPSSA), da Comunidade Vida e Paz. Fica na Quinta do Lavrado, nas Olaias.

Foi numa das noites em que as carrinhas da associação andavam a distribuir refeições que Gabriela deu o primeiro passo. “Elas [as técnicas] perguntaram-me se queria ajuda. Eu disse que sim. Prometeram-me que, quando tivessem uma vaga iriam buscar-me”, explica.

A promessa cumpriu-se. Gabriela está há mais de um ano na UIPSSA, instalada num quarto partilhado, onde é medicada e acompanhada, regularmente, por um médico. Os dias dividem-se entre a sala de convívio, a ver televisão, e um centro de dia a poucos minutos dali.

Está melhor, mas não voltou a ter liberdade. “Sinto-me presa. Preferia ter um quartinho meu. Ter a minha liberdade”. É a doença que não tem permitido mais, fazendo do estatuto de “sem-abrigo” um estatuto sem fim à vista. Como acontece com tantos outros que vivem assim, sem um teto.

À porta da UIPSSA, Gabriela lembra os últimos anos em que a vida desmoronou. Foto: Rita Ansone

Gabriela é uma das 40 pessoas em condição de sem-abrigo acolhidas pela Comunidade Vida e Paz em regime residencial. Esta resposta, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e dos Médicos do Mundo, integrada na UIPSSA, foi inaugurada em 2021. Para além do acompanhamento médico, o apoio inclui o desenvolvimento de autonomia e competências sociais.

Embora o abrigo seja temporário, durante um ano, há utentes que estão lá há mais tempo.

A esquizofrenia e a depressão são as perturbações psiquiátricas mais comuns entre as pessoas em condição de sem-abrigo, explica Hugo Garcez, psicólogo clínico especializado no consumo de substâncias e álcool. Desde 2010 a trabalhar na Comunidade Vida e Paz, Hugo presta apoio direto a pessoas em condição de sem-abrigo.

Se, por um lado, a depressão e a esquizofrenia podem ser desencadeadas em pessoas que já vivem na rua, muitas vezes, a doença mental é também causa – com a doença, deixam de trabalhar ou conseguir manter uma relação funcional e estável com os seus familiares.

Estima-se que o risco de ficar em situação de sem-abrigo para pessoas diagnosticadas com doença mental é dez vezes maior do que para a população em geral, indica um estudo do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Médio Tejo, em Tomar.

Às questões de saúde mental, junta-se, muitas vezes, o consumo de substâncias, que, segundo a European Union Drugs Agency (EUDA), podem ser a causa ou uma consequência da permanência na rua.

Foto: Unsplash

Em Portugal, é o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), administrado pelo Estado, que monitoriza e combate a dependência entre as pessoas em situação de sem-abrigo, identificadas como “consumidores de alto risco”. 

Em 2021, data dos últimos dados disponibilizados, eram 1765 utentes acompanhados regularmente.

Entre eles, está Eva Lavado, de 47 anos. Durante a pandemia de covid-19, devido à crise sentida na área da restauração, perdeu o emprego. Durante dois anos, Eva passou por um sem-número de quartos em pensões, chegando a viver três meses numa tenda no centro de Lisboa. Foi antes de ter contacto com os médicos do mundo que a levaram até à Comunidade Vida e Paz.

Quando vivia na rua, a saúde ainda não era um problema. “As coisas iam andando, também era mais nova”, relembra. Eva resolvia todos os problemas recorrendo a medicamentos passíveis de serem comprados sem uma ida ao médico ou ao hospital: “Se tinha corrimento, comprava o Gino-Canesten, se tinha dores de costas, o Voltaren 25”. 

Depois, havia as carrinhas de distribuição de metadona, às quais ia diariamente. Eva consumia ativamente álcool e cocaína há vários anos, mesmo antes de viver na rua – o que pensa estar relacionado com o que levou a que deixasse de menstruar antes de fazer 40 anos. Recebeu – na sua tenda – uma equipa dos Médicos do Mundo disposta a ajudá-la, que a convidou a juntar-se à Comunidade Vida e Paz. Fez uma entrevista em fevereiro de 2024 e, desde então, ficou pela Unidade. 

Esta fotografia não retrata a tenda onde Eva vivia. É, antes, um retrato da Avenida Almirante Reis, em Lisboa. Foto: Carlos Menezes

Além de acesso à comida, roupas e banho, Eva tem oportunidade de ser acompanhada por um psiquiatra todas as sextas-feiras, para rever a toma de metadona e antidepressivos.

Desde que está a morar na unidade da CVP diz sofrer de ataques de ansiedade: “Comecei a ter umas crises de ansiedade muito estranhas – não sei se acontecem por estar fechada (porque o portão abre e fecha a determinadas horas) -, nunca tinha sentido nada disto. Já iniciei o tratamento com medicação, mas não me deixa com a energia toda”, alega Eva. Mas a vida na instituição permite-lhe ter um maior acompanhamento. Quando partiu o pé, conseguiu ser hospitalizada no Hospital de São José.

“Sinto que ao ter, agora, um teto, tenho outro tipo de possibilidades.”

Como ainda não conseguiu recuperar completamente do consumo de substâncias que a trouxe até à Comunidade Vida e Paz, Eva prevê que a próxima fase seja a ida para um centro de reabilitação, destinado a pessoas toxicodependentes, “para que possa recuperar a 100%”. Nos primeiros três meses os utentes não podem, por exemplo, receber visitas ou mexer no telemóvel. E “essa ideia de prisão assusta”, confessa.

Mas Eva ainda não tem saúde para encontrar um teto definitivo.

Hugo Garcez reconhece que há pessoas em situação de sem-abrigo que, por viverem na rua há muito tempo ou terem doença mental, podem enfrentar dificuldades de adaptação aos alojamentos temporários: “Reparamos, de algumas pessoas, que só o facto da porta estar fechada já é demasiado constritivo. Já é qualquer coisa de claustrofóbico”. O psicólogo diz, aliás, que esta é uma das razões pelas quais algumas pessoas em condição de sem-abrigo não aderem a projetos de reintegração.

“Há pessoas que desenvolveram hábitos que acham que não serão respeitados estando numa instituição e, portanto, resistem”.

Hugo conta que, em situações de conflito, os técnicos e psicólogos da Comunidade Vida e Paz tentam fazer algumas concessões, sem que isso ponha em causa o grupo inteiro, para que o ambiente não seja “demasiado impositivo”. Ou as pessoas sentiriam as regras “como uma violência”.

Apesar da UIPSSA da CVP ter um horário de entrada e de saída, Hugo garante que todas as pessoas podem sair quando quiserem. “Se desta vez, as coisas não correrem bem com esta pessoa, muito dificilmente teremos uma outra oportunidade, porque é mais uma experiência negativa que se acumula na sua vida”.


É difícil ignorar o contraste: o saco de plástico branco com antidepressivos, analgésicos e outros medicamentos repousa ao lado de uma garrafa de um litro de cerveja, que Jones, de 37 anos, beberica ao longo do dia.

Está sentado à beira de um parapeito numa praça nas Olaias, rodeado de outras três pessoas. Ao avistarem uma carrinha, colocam-se automaticamente à frente das vagas de estacionamento. É a “arrumar” carros que conseguem algum dinheiro.

Jones chega a beber dez litros de cerveja por dia, que compra com o dinheiro que ganha a arrumar carros. Foto: Líbia Florentino 

A carrinha que estaciona é a da equipa da Assistência Médica Internacional (AMI) que visita pessoas em situação de sem-abrigo, em Lisboa, uma média de três vezes por semana. Saem do veículo Beatriz Ferreira, psicóloga clínica da AMI, e Sérgio Condez, investigador científico da instituição. A chegada é leve e despreocupada. Ali, a relação de confiança está estabelecida e os apertos de mão e sorrisos entre quem vive na rua e os membros da equipa assim o confirmam. 

É através da identificação das necessidades físicas e mentais dessa população que os técnicos da AMI conseguem referenciá-la a tratamentos, exames, abrigos, e o que mais estiver ao seu alcance.

“O nosso trabalho é de muita proximidade. É gradual. Pode levar anos ou meses até conseguirmos alguma evolução na pessoa. Conseguir que a pessoa tome um banho ou vá ao nosso espaço já é um passo na melhoria da qualidade de vida”, explica Sérgio.  

Sérgio conduz a carrinha da AMI aos locais de visita da equipa de rua. Foto: Líbia Florentino

Jones exibe o saco de plástico branco com os medicamentos como se fosse um troféu – diz que o conseguiu na Santa Casa de Misericórdia de Lisboa. Foi a relação de confiança que desenvolveu com Beatriz que o levou a aceitar fazer análises de sangue, ter consultas e, então sim, ser medicado.

Jones tem cirrose, psoríase, bipolaridade e um cancro no fígado. Foi, mais uma vez, Beatriz quem teve de lhe revelar este quadro clínico, após receber os resultados das análises na sua caixa de e-mail. “Temos que ir devagar, passo a passo. E ter esperança”.

A psicóloga da AMI, Beatriz Ferreira, faz rondas nas ruas de Lisboa três vezes por semana. Foto: Líbia Florentino 

Ao fazer contas mentalmente, Jones soma 10 anos a dormir nas ruas de Lisboa, com “um cobertor no chão, outro por cima e mais nada, além de ratos e baratas”, explica. Nasceu no Brasil e veio para Portugal ainda adolescente, aos 16 anos, já com a bebida como companhia.

A vida era bem diferente há 10 anos. Com formação em alpinismo, trabalhou numa plataforma petrolífera, tinha uma mulher e dois filhos, cenário de uma vida normal que a bebida fez ruir: “A bebida levou-me à separação e a um problema de saúde. Fui preso, não vejo a minha família há anos, tenho uma depressão profunda porque não vejo os meus filhos, não falo com um dos meus irmãos. Os amigos que eu achava que tinha já não me acompanham. Tudo por causa do álcool”, desabafa. 

Jones esteve também em alguns abrigos e clínicas de reabilitação. No Centro de Acolhimento Casa do Lago, em Benfica, destinado a pessoas toxicodependentes e sem apoio familiar, foi expulso depois de ter sido apanhado com haxixe e uma garrafa de cerveja. Noutra unidade, conta que a convivência era difícil e preferiu sair. 

Já foi, muitas vezes, socorrido na rua. Numa única semana, o INEM foi chamado três vezes por outras pessoas em situação de sem-abrigo para o salvar. “Água eu tomo a cada quatro dias e mal como. Se calhar, janto alguma coisa ou como uma sandes em 24 horas. O meu estômago não aceita comida”. Além de “algum destilado”, calcula consumir cerca de dez litros de cerveja por dia: “Só não tomei álcool gel, mas álcool puro já tomei”.

“A dependência do álcool é o problema mais recorrente, e fica ainda pior com as recaídas”, revela Beatriz, psicóloga da AMI.

Mesmo diante do grave quadro de saúde e da recomendação expressa de não misturar a medicação com bebida, uma certa dormência domina a conversa com Jones: “Volta sempre tudo ao mesmo, às vezes, a gente faz um desabafo, cai a lágrima, a gente seca e volta tudo ao mesmo. Eu já nem choro mais”.

De volta à carrinha, os técnicos da equipa da AMI seguem para a região do Beato, onde vão visitar outro grupo de pessoas em situação de sem-abrigo. Estas rondas pelas ruas de Lisboa acontecem três vezes por semana, e têm como objetivo perceber como esta população pode ser apoiada, criando um caminho para o acompanhamento médico regular. A equipa técnica de visita inclui geralmente uma psicóloga ou assistente social e também um investigador científico, que recolhe dados para os relatórios da associação. 

Só em 2023, segundo os dados recolhidos, mais de 480 pessoas em situação de sem-abrigo procuraram, pela primeira vez, ajuda na AMI, das quais 239 na área metropolitana de Lisboa, um aumento de 35% face a 2022.

A maioria das pessoas é do sexo masculino (79%) e tem entre 40 e 49 anos (22%) e 50 e 59 anos (25%). Em relação ao estado civil, a grande maioria da população em situação de sem-abrigo está solteira, divorciada ou viúva (68%). E apenas um em cada dez é casado ou vive em união de facto.

No trajeto para Xabregas, Beatriz conta a história das pessoas que vão visitar: como trabalham ou trabalharam na construção civil, reabilitaram o piso térreo de um prédio devoluto e passaram a viver ali.

Há, claro, o risco de voltarem para uma tenda, o que agrava ainda mais as condições de saúde mental e física.

“Esta volta para as ruas após a passagem por abrigos deixa a situação ainda mais dramática por causa das recaídas”, explica a psicóloga.

O caso que os técnicos acompanham mais de perto é o de Mateus. Em Portugal desde 2015, o angolano de 46 anos mudou de país à procura de melhores condições de vida. Já desde há uns anos que tem a locomoção drasticamente comprometida por uma série de complicações que se sucederam após duas cirurgias ao fémur que o deixaram sem trabalho, como porteiro e segurança.

Por não conseguir pagar a renda, ficou sem casa. 

A viver ao relento de muletas, Mateus recebe ajuda dos técnicos da AMI. Foto: Líbia Florentino

Com muletas e muita dificuldade em mover-se, Mateus recebe a ajuda de Beatriz para se sentar numa cadeira. É, também, com dificuldade que fala, à medida que vai contando esta história: “Eu continuava a trabalhar. Mas só que, depois, quando ia dormir, sentia uma dor imensa. E aquilo dava uma hora… duas, três horas da manhã. Quando ia descansar, era uma dor. Já não dormia”.

Um dia, devido a tantas dores, apanhou um autocarro a meio da madrugada para ir ao hospital, e antes das cinco da manhã estava a tirar radiografias. Os médicos, segundo Mateus, aconselharam-no a pôr gelo. Para aguentar as dores, Mateus começou a beber: “Meti-me no álcool. Quando a gente está no álcool, aparece tudo, né? A gente quer-se governar, a gente quer-se manter firme, mas a gente, muitas das vezes, não consegue”. 

Com a adição ao álcool, Mateus foi parar a esta espécie de “casa”, um imóvel devoluto, onde hoje pernoita, um sítio que era usado por toxicodependentes.

“Toda a gente entrava para aqui. Dormia em cima do lixo. Eu decidi fazer uma limpeza aqui e instalar-me com um amigo”. O amigo em questão também sofria com a dependência de drogas pesadas, e não apareceu para ajudar no dia da limpeza. Mateus, sozinho, resolveu fazer todo o trabalho. E foi durante este esforço que Mateus diz ter sentido um “rebento” na sua perna.

Correu até à farmácia e de lá seguiu para o hospital.

Entrou na fila para ser operado, e fez inúmeros curativos, tanto sozinho como no centro de saúde. E é nesta situação que ainda se encontra à espera. Sem qualquer rendimento ou apoio do Estado, a ansiedade de Mateus escala: “Quero ficar melhor e voltar para o meu emprego. Tenho de procurar alguma coisa para fazer, tenho de estar inserido na sociedade”.

É que, para ter acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), é necessário ter um número de utente, que é emitido juntamente com o Cartão de Cidadão. De forma a dar resposta a pessoas que não têm documentação e precisam de cuidados, como é o caso de algumas pessoas em situação de sem-abrigo, a lei prevê que seja atribuído um número de utente provisório. Assim, quando as pessoas em situação de sem-abrigo se dirigem a uma unidade pública de saúde, como um centro de saúde ou hospital, podem ter acesso aos cuidados que precisam, mesmo que não tenham residência ou documentação. 

A Linha Nacional de Emergência Social (LNES), número 144, é um serviço telefónico público e gratuito, disponível 24 horas por dia, todos os dias do ano. Este apoio destina-se a pessoas vítimas de violência doméstica, crianças e jovens em perigo, pessoas em situação de ausência de autonomia e pessoas em condição de sem-abrigo.
Apesar de ser uma linha de emergência, que tem como objetivo reportar situações que precisem de uma intervenção imediata, a LNES tem sido alvo de críticas por parte de dirigentes políticos, depois de terem sido apontadas falhas no seu funcionamento, na Madeira.

Foto: Líbia Florentino

Para além da depressão e da ansiedade, o alcoolismo, as perturbações afetivas, as psicoses orgânicas (associadas a consumo de substâncias), a ansiedade e os distúrbios da personalidade são as principais patologias psiquiátricas diagnosticadas a pessoas em situação de sem-abrigo. Segundo um relatório elaborado pela Comissão Nacional de Reestruturação para a Saúde Mental, em 2007, sabe-se que, pelo menos, um terço das pessoas em condição de sem-abrigo não recebia, à data, apoio psiquiátrico adequado às suas necessidades. 

Os problemas de saúde, mental e física, mais observados pelas equipas da AMI na população de rua, resultam de dependências, principalmente do álcool.

E o trabalho de acompanhamento nem sempre é fácil. Beatriz diz que é preciso fazer uma grande gestão de expectativas, pois nem sempre os utentes estão prontos para receber ajuda. “As pessoas têm o ritmo delas, e há alturas que não estão disponíveis para fazer algo que gostaríamos. Queríamos que  estivessem mais saudáveis.”

A preocupação de Beatriz com Mateus é visível: as equipas já o ajudaram com alimentação, procura de emprego, documentação e, neste momento, tentam acelerar o processo da operação: “É uma operação que vai demorar. Há uma lista de espera que tem de ser cumprida. Mas é diferente aguardar no conforto de uma casa, ainda que com muitas dores. O Mateus não tem qualquer tipo de comodidade: vive num prédio devoluto, sem comer devidamente, sentado numa cadeira, com uma almofada”.

Neste momento, há poucas coisas que Mateus e Beatriz possam fazer além de esperar pela celeridade dos serviços.

Para tentar dar resposta a pessoas vulneráveis, o Governo Português aprovou a Estrutura Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) 2025-2030. Entre várias medidas, foram propostos apoios a idosos, a pessoas com deficiência, a pessoas com dependências – como é o caso de Mateus e Jones -, pessoas com doença mental, pessoas da comunidade LGBTQI+, migrantes e minorias étnicas. Está, também, previsto o reforço das equipas de rua, para que a rede que sustenta o trabalho feito por Sérgio e Beatriz possa ser alargado, a resposta mais eficaz… e a vida destes doentes sem casa possa finalmente ambicionar viver numa.



Conheça a equipa vencedora da Bolsa de Jornalismo Jorge Costa:

Carolina Arnedo

Nasceu irrequieta num dia de chuva, em Lisboa, e desde então não dá descanso a ninguém. Atenta e reivindicadora, vive através das palavras, da música, das revoluções, do cinema e de tudo aquilo que ainda não conhece. Desdobra-se entre o mestrado em jornalismo na NOVA FCSH e duas pós-graduações em direitos humanos e em jornalismo de investigação na Universidade de Coimbra.

Leonor Goes Ferrão

Entre Viseu e Lisboa, foi num filme sobre correspondentes de guerra que reconheceu a sua paixão por jornalismo, ganhando forma, mais tarde, na licenciatura em Ciências da Comunicação, na NOVA FCSH. Com ouvido crítico e olho bem aberto, a aluna de mestrado de jornalismo da Universidade Católica Portuguesa tem no lugar de escuta o seu fiel companheiro.

Maria Inês Mendes

Nasceu em Lisboa, com a cabeça na lua e os pés bem assentes na terra. Passou por Ciências da Comunicação, na NOVA FCSH, onde percebeu que, afinal, não queria ser jornalista. Trouxe consigo uma paixão pelas palavras e pelo cinema. Agora, divide o seu tempo entre a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde frequenta o mestrado em Crítica e Curadoria, a revista onde trabalha, e os cafés onde escreve sobre que vai vendo e lendo.

Rita Lourenço

Nascida em Lisboa mas com uma costela minhota e outra angolana, há anos que se considera híbrida entre a capital e o norte do país. Licenciada em bioquímica por desvio, aos 26 mudou de vida e na NOVA FCSH encontrou a comunicação e o jornalismo. A partir daí, tudo fez mais sentido. Hoje, contar as histórias através dos seus protagonistas e levar os factos a quem nem sempre os tem é o que mais a motiva no dia a dia.

Dora Santos Silva

Dora Santos Silva é professora de Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa-FCSH. É membro do Conselho Editorial da Mensagem.

Gabriela Ferreira

De nacionalidade luso-brasileira, Gabriela Ferreira é jornalista com passagem por vários média no Brasil, entre eles a TV Globo. Agora, vive em Portugal, onde faz o doutoramento em Comunicação na NOVA FCSH.

António Granado

Professor no Departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH. Foi jornalista profissional durante mais de 25 anos, tendo-se especializado na área do jornalismo de ciência. Fez a maior parte da sua carreira no jornal Público e esteve dois anos na RTP.

Um agradecimento ao júri desta edição da bolsa:

Maria Teresa Bispo (técnica da Câmara Municipal de Lisboa e amiga de Jorge), Francisco Sena Santos (jornalista reconhecido e docente de jornalismo), Américo Nave (diretor da CRESCER), Catarina Reis (jornalista e editora na Mensagem de Lisboa) e Pedro Sobral (então diretor-geral do grupo LeYa e presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que partiu no final de 2024).


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