Até se tornar uma vedeta, Amália Rodrigues nasceu e viveu entre gente pobre e analfabeta num bairro popular de Lisboa e praticamente não frequentou a escola; diz-se que a avó, com quem então morava, acedeu a custo a comprar-lhe o livro de Geografia e, quando Amália lhe pediu os das outras disciplinas, terá apenas perguntado: “Mas para que queres tu outro livro se aquele que te dei ainda está novo?”
Conta-se também que, mesmo com as limitações impostas, talvez pelo hábito de decorar as canções que ouvia na rádio desde pequena, na escola Amália aprendia a matéria de ouvido com grande facilidade; mas, além disso, quem a conheceu afirma que tinha uma inteligência verdadeiramente rara (Fernando Dacosta chama-lhe “intuitiva”), o que a ajudou decerto a descobrir o que era melhor para si e, em última análise, a chegar aos píncaros quer na carreira, quer nas relações sociais.
Soube, claro, escolher as amizades que favoreceram o seu percurso – e chegou mais depressa aos aristocratas estrangeiros radicados no Estoril (muitos dos quais literalmente a veneravam, como o rei Humberto de Itália) do que aos intelectuais com quem, efectivamente, não começou lá muito bem. E porque seria?
Quando o jornalista e dramaturgo Luís de Oliveira Guimarães a conhece e se torna seu amigo, decide, como ele próprio diz, “desemburrá-la” e apresentá-la aos muitos intelectuais que então se reúnem em tertúlias na Brasileira do Chiado; porém, a jovem Amália não parece apreciar grandemente a experiência: uma vez que não se pode falar mal do regime, que é o que apetece nesses encontros, à volta da mesa opta-se por dizer então mal dos ausentes (pintores, cineastas, escritores, gente do teatro, artistas de todos os quadrantes), e a nossa fadista, ainda bastante tímida, não gosta daquela desatada má-língua e afasta-se, não voltando a aparecer.
Passarão bastantes anos até se curar da sensação e conviver com um número assinalável de cabeças pensantes na sua casa à Rua de São Bento (em serões hoje recriados num programa de televisão cujo cenário é justamente a sala de sua casa). Até lá, fará a sua formação sozinha, lendo sempre muita poesia, ou com a ajuda do compositor francês Alain Oulman, que lhe apresentará uma série de escritores, alguns dos quais mortinhos por versejar para ela.
E, ainda assim, a sua relação com esses intelectuais vai lembrar-lhe o encontro do passado na Brasileira quando, numa noite em sua casa, escritores e artistas convidados se mostram indignados com a pouca atenção que os jornais e as televisões dão às suas obras, concedendo sempre a maior fatia aos livros, peças e exposições de artistas estrangeiros.
Mas, quando Amália lhes pede sugestões, todos caem na esparrela de indicar artistas de fora, nas artes e nas letras, esquecendo sem se dar conta os seus valorosos conterrâneos e comportando-se como aqueles que acabaram de criticar…
Afinal, de quem foi a culpa desta difícil relação?

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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