Traz Algueirão Mem-Martins para a música que produz, enquanto rapper, a solo ou com o coletivo que fundou (Unidigrazz). E já ajudou a Mensagem a contar as histórias da freguesia mais populosa do país, considerada um deserto de notícias. Agora, Tristany Mundu, 29 anos, abraçou o desafio de representar visualmente os espaços que conhece bem e as pessoas que neles habitam, naquela que é a primeira exposição dele, no Centro de Arte Moderna, na Fundação Calouste Gulbenkian.
“Cidade à volta da Cidade” põe a Linha de Sintra e outras periferias como paisagem desta missão: mostrar que a arte pode oferecer “ideias e soluções” para os lugares que habitamos. É uma celebração desses lugares que esquecemos de celebrar, desses centros longe do centro. A exposição pode ser visitada até dia 5 de maio.


Para marcar este novo passo na carreira de Tristany, fomos falar com o artista. Afinal, por que importa tanto debater a ideia de periferias e de centros?
Leia aqui:
Como é que a tua experiência a viver na Linha de Sintra se transforma em arte?
A minha ideia de Linha de Sintra ultrapassa aquilo que é geograficamente. Sintra geograficamente é Sintra. A Amadora geograficamente é a Amadora. Mas a Linha de Sintra, para mim, é o fenómeno que junta duas áreas desses concelhos que partilham cenários, pessoas, vivências em comum.
Vemos este fenómeno que é haver mais pessoas a viver nestes lugares do que no centro de Lisboa. Segundo os últimos censos, Algueirão Mem-Martins é a freguesia mais populosa do país, com quase 69 mil habitantes. Se é aqui que estão as pessoas, que são a maior força, porque é que eu tenho de continuar a ir trabalhar para aquele espaço que é o centro?
Eu não quero levantar uma bandeira bairrista, ou tentar dizer que aquele imaginário de centro não é válido para mim. Sem ele, eu também não conseguiria ter construído o meu imaginário… Mas podem haver outras ideias de centro, que permitam que pessoas como eu consigam ter acesso a cultura, educação e comunidade.
Dentro do meu trabalho, é pensar como posso criar uma necessidade, para que possamos discutir estas questões e trabalhar estas cidades que estão à volta da cidade.
O que te motivou a fazer esta exposição, a primeira que apresentas a título individual?
Comecei a desenvolver esta exposição depois de ter experienciado vários métodos de trabalho de artistas que eu considerava. De pessoas do meu próprio coletivo (Unidigrazz) e do artista Julianknxx, que, curiosamente, está a expôr ao mesmo tempo que eu na Gulbenkian.
Pude trabalhar juntamente com ele e guiá-lo até a estas cidades à volta da cidade, onde estava a força do trabalho dele. Pensei: “Se está a vir alguém de fora trabalhar estes temas, porque é que eu não os posso trabalhar de modo visual também?
E assim nasceu a “Cidade à volta da cidade”.
O maior impedimento era não saber que linguagens é que se têm de falar dentro da arte. Foi uma grande descoberta em mim mesmo e uma grande aprendizagem. Comecei a desenvolver este trabalho e apresentei-o à Gulbenkian.
Desde aí, tem vindo a sofrer positivamente mutações e adaptações que levaram a este formato. Mas a “Cidade à volta da cidade” continua para além desta materialização. Não é uma exposição, mas sim uma ideia que eu defendo.



A periferia é um tema central nas tuas obras.
Eu quero não trabalhar a periferia, mas sim os imaginários destes lugares. Acho que a memória afetiva é a base do meu trabalho. Tenho muitas memórias deste espaço onde estamos sentados. Isso faz-me poder lembrar: “Olha, bora p’ra ali”. E isso faz-me poder trabalhar este espaço.
Por viveres neste espaço, longe do que é considerado o “centro”, já te sentiste à margem?
Toda a gente já se sentiu excluído de alguma maneira, claro que há uns mais que os outros.
A exclusão direta é aquela a que temos mais acesso e perceptividade que é dizerem-nos: “Não pertences aqui! Vai para a tua terra!”. Essa é aquela logo na cara, que nos permite posicionar de um lado ou do outro. A exclusão que eu sinto que é mais impactante é aquela de eu demorar entre 35 a 40 minutos a chegar a uma ideia de centro porque eu realmente preciso dela. Eu sou refém dela.
Isto é aquilo para que eu estou a trabalhar. Depois entram outras questões interseccionais, que neste espaço existem: questões de género, de raça, religiosas… Eu aqui não estou a aprofundar nenhuma delas, mas tenho de ser sincero que elas afetam a condição de um tipo de pessoa comum a este espaço.
A arte pode ter o papel de incluir?
Eu não digo o papel, mas digo que tem muita responsabilidade. Tem o poder de construir narrativas, de trabalhar as memórias, de celebrar a identidade e a diferença.
A grande prova disso está na música. Foi o primeiro grande impulsionador cultural destes espaços e o acesso à internet também.
De repente, vejo o videoclipe de um rapper, de um kudurista ou de uma kizombeira e penso “Ah eu conheço aquele sítio, aquele anda na minha escola”. Começo a ver que é possível eu estar naquele lugar e que aquele espaço ou aquelas pessoas representam uma identidade de onde eu venho. A partir daí, tenho referências para partilhar, pontos e símbolos que me representam.




O trabalho do Projeto Narrativas, com a Mensagem, é também esse: dar a conhecer as histórias de quem vive na periferia, permitindo que sejam eles, os protagonistas, a contá-las. Que impacto é que isso teve em Algueirão Mem-Martins e em ti?
Deu-nos a possibilidade de trabalharmos narrativas e transformá-las em notícias que celebrassem estes espaços com questões que são pertinentes, mas não são as usuais. Isso trouxe uma capacidade de olharmos e percebermos o poder que realmente temos.
O facto de eu estar a celebrar contigo e a dizer-te que vivo na freguesia mais populosa de Portugal… Quem me chamou a atenção para isso foi um senhor que trabalha na Mensagem! Eu lembro-me disso e, realmente, poder dizer que sou do sítio onde vivem mais pessoas é uma coisa poderosa. Porque é trazer urgência para o meu espaço.

Defendes como é importante reconhecer os espaços e as pessoas que neles vivem. Sentes que há falta de obras que contemplem essas realidades?
Acho que não há falta de obras, mas falta de estruturas e de espaços. Sobretudo que saiam da lógica de “caridade”. Faltam instituições mais sérias, que trabalhem diretamente com quem está a fazer cultura nestes lugares.
Quem é que da tua zona já está a fazer isso?
Esse imaginário está a ser celebrado. O T-rex, o Julinho KSD e o Ivandro são três nomes que têm um impacto mainstream que nos faz conectar com qualquer tipo de pessoa.
Para além disto, festivais como o Clarão, que conseguiram trazer uma programação atualizada para a Linha de Sintra ou associações como a Jipangue, que estão a fazer um trabalho de terreno cultural e associativo muito impactante, a Unidigrazz, enquanto coletivo artístico… E muitos mais que se têm criado ao redor destes espaços.
Estão a falar diretamente com o seu espaço e eu acho que isso impacta. São necessárias políticas que permitam que estas estruturas ganhem uma dimensão para os locais.
Na exposição “Cidade à volta da cidade”, utilizas formatos artísticos diferentes (música, pintura, vídeo). Como consegues criar a tua própria linguagem dentro da arte?
Espaços como o CAM (Centro de Arte Moderna), permitem que eu possa exteriorizar o meu pensamento artístico de uma maneira mais holística. Daí eu ter trabalhado a música, a pintura, o vídeo, os têxteis. Foi vontade, misturada com desafio e conforto, tudo ao mesmo tempo. Eu venho das artes musicais e envolvo-me desde sempre com artistas plásticos…
Também tem a ver com querer aprender mais skills. Sei lá, se nunca tinha cozinhado com sal e se começo a fazê-lo, se calhar não sei e falho nas quantidades. Mas quando acertar, a partir daí, cozinhar sem sal seria dar um passo atrás.
O “núcleo duro” de trabalho contou com Rita Campeão, Hugo Barros, Lia Cabral e Mavá José. A exposição foi “mudando de forma”, com a ajuda da curadora Rita Fabiana.
Qual foi o conceito que quiseste explorar com a instalação das bandeiras?
São obras suspensas e, ao mesmo tempo, são adornos. De um lado têm a representação das pessoas ou dos elementos que habitam os espaços: fauna e flora. Do outro lado, têm as fachadas dos prédios.
A ideia é serem alusivas às bandeiras. Através desse símbolo que é utilizado para representar uma nação ou um país, torna-se um objeto para celebrar a identidade destes espaços. Mas com a alternativa de poder ser vestido, porque um dos elementos mais representativos que o ser humano tem é a maneira como se veste. Então é sobre celebrar a nossa identidade, vestindo-a.

Como esperas que as pessoas interajam com a tua exposição?
Materializar este trabalho permite que deixe de ser só meu e daqueles que o fizeram e passe a ser de todas as pessoas que o visitarem e se identificarem.
Aquilo que me está a dar mais prazer neste momento é ouvir o feedback das pessoas e ficar tipo: “Uau, nem sequer tinha pensado nisso”. E peço para partilharem comigo porque isso vai acrescentar pontos de vista ao que eu quero continuar a desenvolver.
Em 2024, Tristany experimentava outros trabalhos, como obras ou restauração, mas contava à Mensagem: “Sinto que tenho a opção de continuar a full-time na arte”.
E, para ti, fazer arte a full-time já é uma realidade?
Eu faço a minha arte a full-time. com todas as suas questões, mas é uma escolha minha. Há momentos que têm mais dificuldade, outros que têm mais prosperidade. Sou um trabalhador e gosto de ser. Sinto-me realizado e quero continuar a trabalhar na arte.
De que forma queres continuar este trabalho na arte, no futuro?
Quero realmente dar uso ao meu nome, ser uma pessoa do mundo, trabalhar no mundo e com o mundo. Sobre estas questões, sobre o espaço, sobre o que é o centro e o que não é o centro. Trazer soluções.

*Texto editado por Catarina Reis

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