A relação entre Larry Feign e Portugal começou com um livro que escreveu: The Flower Boat Girl narra a vida da líder pirata chinesa Zheng Yi Sao, no início do século XIX, quando Macau ainda era governado por Portugal. O escritor e cartoonista descobriu, entretanto que o Ouvidor de Macau da época, Miguel José de Arriaga, desempenhava um papel importante na vida de Zheng Yi Sao – um facto misterioso que se tornou numa das suas motivações para vir para Portugal e, depois, Lisboa.

Capa de The Flower Boat Girl

Depois de viver mais de 30 anos em Hong Kong, o americano Larry, nascido em Buffalo, Nova Iorque, considera-se um verdadeiro hongkonguês. Por conta do trabalho como escritor, conheceu profundamente a cultura de Hong Kong: por exemplo, como ilustrador de The World of Lily Wong, acompanhou de perto as notícias e o dia a dia da população.

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Capa da obra The World of Lily Wong

Por mero acaso, Larry conheceu uma família que vivia num barco e soube da história de Zheng Yi Sao através deles. Achou-a uma figura fascinante, mas ficou curioso por tão poucas pessoas a conhecerem e por não haver livros sobre ela. A conselho da sua esposa, decidiu escrever um romance sobre Zheng Yi Sao. Abordou o projeto com muita cautela, pois era uma história ainda inexplorada pelos chineses. Por isso, dedicou oito anos à investigação e preparação, entrevistando frequentemente marinheiros e historiadores.

Mas desde 2016 que Larry sentia que Hong Kong estava a mudar, o que o levou a considerar a possibilidade de se realocar.

Quando visitou Portugal pela primeira vez, nesse mesmo ano, ficou completamente impressionado: neste país, as ruas têm nomes de artistas, poetas e escritores famosos, as suas estátuas estão por todo o lado e até o Dia de Portugal presta homenagem ao grande poeta Luís de Camões.

Vídeo: Frederico Raposo

Tudo isto revelou-lhe uma nova perspetiva de nação – nos Estados Unidos, Hong Kong ou Reino Unido, as figuras mais notáveis eram geralmente generais, líderes políticos e heróis. Portugal foi o primeiro país que visitou onde a arte e a literatura recebiam tanto respeito.

Esta primeira impressão positiva levou a visitas frequentes nos anos seguintes, onde viu como a arte, a música e a literatura estavam integradas na vida quotidiana – livrarias que revelam segredos antigos nas ruas, fado nos becos a expressar as saudades do povo e do país. Para Larry Feign, o dia a dia tornou-se um verdadeiro banquete cultural.

Finalmente, em 2022, sob o impacto da pandemia de covid-19 e das mudanças em Hong Kong, muitos dos seus amigos decidiram partir. Larry foi um dos primeiros entre eles a escolher Portugal, um destino que até então não tinha colhido grande interesse no seu círculo.

Foto: Frederico Raposo

Um americano a tentar ser “local”

Não é surpreendente que Larry tenha escolhido outro país para se estabelecer. Sempre esteve interessado no mundo e em ambientes multiculturais – em 1985, embora a sua esposa fosse de Hong Kong, foi ele quem tomou a decisão de deixar os Estados Unidos para viver em Hong Kong.

Mas os Estados Unidos nunca lhe satisfizeram as curiosidades. “Os americanos não conhecem o resto do mundo”, diz Larry Feign. “Só se preocupam com eles próprios”. Com o passar dos anos, a situação política tão dividida nos Estados Unidos só intensificou a sua ansiedade e preocupação pelo seu país natal. “A América mudou muito – está dividida agora, as pessoas estão sempre zangadas. Quando se deparam com alguém de opinião política diferente, pode haver violência. As pessoas apenas recebem informação das redes sociais.”

E estende a preocupação aos imigrantes americanos em Portugal. Quando viveu em Setúbal, viu que muitos americanos ficavam apenas entre a comunidade americana, falavam apenas inglês e discutiam política americana entre si. Este é um retrato comum da maioria dos imigrantes, mas não era isso que Larry procurava. Se decide viver num lugar, quer identificar-se como um “local” – exatamente como fez em Hong Kong.

Foto: Frederico Raposo

Desafios em Portugal

Há cerca de 30 anos, quando Larry Feign chegou a Hong Kong e rapidamente encontrou trabalho numa editora de língua inglesa, percebeu os privilégios de ser americano e ter o inglês como língua materna. Mas, anos depois, ao publicar The Flower Boat Girl, enfrentou desafios devido à sua identidade – apesar do tema interessante, os editores chineses não confiavam que uma história chinesa escrita por um autor americano se tornaria popular, mesmo ele falando cantonês e algum mandarim.

Em Portugal não é diferente. Embora tenha escolhido o país para escrever a segunda parte de The Flower Boat Girl. Já fez amizade com alguns escritores americanos, mas hesita em aproximar-se dos escritores portugueses, pois sente que o domínio da língua ainda não é suficientemente bom.

Larry continua a amar Portugal e a sua atmosfera multicultural, mas ainda não testou realmente se a diversidade cultural do país é capaz de acolher um caso tão especial como o dele – um americano de nascimento, identificado como hongkonguês e agora residente em Portugal.

Além disso, os dois anos de experiência de vida em Portugal já lhe mostraram os grandes desafios burocráticos de quem chega. Até com um simples cartão de biblioteca em Setúbal: depois de entregar todos os documentos necessários, foi-lhe dito que teria de esperar cerca de cinco anos para recebê-lo, o que o surpreendeu. “Não vão fazer nada para resolver isto”, suspirou. “Agora vivo em Cascais, já não preciso do cartão, mas também ainda não o recebi.”

“Portugal é a minha casa agora”. Apesar de todos os desafios enfrentados, Larry Feign continua a dizê-lo sem hesitação. Atualmente, está a aprender português o melhor que pode e, na verdade, tem um plano ambicioso: “no futuro, quero escrever o meu livro em português, por mim próprio”.

Sem intenções de se mudar novamente. Afinal, o fado, as lendas e os segredos escondidos em cada rua continuam a cativá-lo – e ele está pronto para criar mais histórias em Portugal.

*Texto editado por Catarina Reis


Silong Zhao

Nascido e criado na China, sou estudante de línguas, cultura e ciências sociais. O desejo de experimentar um novo estilo de vida e de conhecer um mundo maior me trouxe a Lisboa. Após um ano de estadia, agora procuro descobrir mais coisas interessantes e incomuns sobre esta cidade – daí estar a estagiar na Mensagem de Lisboa.


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