Ao longo do estuário do Tejo, é possível fazer uma espécie de peregrinação náutica aos mais icónicos fortes históricos. Um itinerário que tem início no limite da Baía de Cascais, onde está demarcada a rota de entrada na barra Norte do rio Tejo (barra pequena), indicada para os veleiros e os navios com calado até 5,5 metros.
A imponente Cidadela de Cascais destaca-se com seu complexo fortificado: o Forte de Nossa Senhora da Luz de Cascais, a Torre de Santo António de Cascais e o Palácio da Cidadela, num conjunto que tinha a função de defesa da costa no acesso à capital.
Foi residência de verão dos reis de Portugal e ainda é uma das residências oficiais do Presidente da República Portuguesa, com as salas de aparato – como a Sala Nobre, a Sala de Jantar, a Sala Árabe ou o antigo quarto do Rei D. Luís –, mas também a capela de Nossa Senhora da Vitória e a bateria, memória da antiga fortaleza de Nossa Senhora da Luz, abertas à visita pública, além de contar com uma Pousada e um conjunto de galerias de arte, Cidadela Art District, integradas no complexo.





Logo adiante, sobranceiro ao mar, está o Forte de Santo António da Barra, também conhecido por Forte de Santo António do Estoril, Forte Velho ou Forte de Salazar. É considerado a principal fortificação marítima entre a Cidadela de Cascais e o Forte de São Julião da Barra.
A estrutura remonta à época da Dinastia Filipina, quando o engenheiro militar e arquiteto napolitano, frei Giovanni Vicenzo Casale (também encarregado das obras de ampliação da Torre de Belém e do Forte do Bugio) recebeu ordem de elaborar uma planta de Cascais e uma carta da costa até São Julião da Barra.
Entre as preocupações da época estava a melhoria do sistema defensivo da barra de Lisboa, ameaçada por corsários ingleses e holandeses e por tentativas de retoma da capital e do trono português por parte do Duque de Alba.

O ‘Escudo do Reino’
O principal foco de atenção na navegação através da barra do Tejo é o Forte de São Julião da Barra (Forte ou Torre de São Gião, padroeiro dos barqueiros, em referência a uma ermida que existiria no local). É a maior estrutura militar de defesa marítima remanescente em Portugal em estilo barroco, desenhado por Vauban, célebre arquiteto militar francês.
Considerado no passado como o Escudo do Reino, tinha a função de controlar o tráfego de embarcações e o acesso ao porto de Lisboa. A obra teve início no século XVI a fim de incrementar a defesa marítima, que passou a ser constituída por um complexo integrado também pelo Forte de São Lourenço do Bugio – situado num banco de areia a meio da foz – com o qual cruzava fogos, fechando a barra do Tejo.



O Farol de S. Julião entrou em funcionamento em 1761 e sempre teve um significado especial para os marinheiros e navegadores pois forma, com o Farol do Bugio, o alinhamento que define a entrada e saída da barra do Tejo, a denominada ‘passagem entre torres’, que marca o início do oceano.
Sofreu danos durante o terramoto de 1755 e serviu de cárcere aos jesuítas a partir de 1759, data da expulsão da Companhia de Jesus. Durante a Guerra Peninsular, foi transformado em quartel-general das tropas francesas enquanto a barra do rio Tejo era bloqueada pela marinha inglesa.
No século XX, o Forte de São Julião da Barra manteve-se como prisão política. Mais tarde foi adaptado para a recepção de membros do governo e de visitantes ilustres como o general norte-americano Dwight David Eisenhower (1951) e o marechal britânico Bernard Law Montgomery (1952) – heróis da Segunda Guerra Mundial – e a chanceler alemã, Angela Merkel, em 2021.
Atualmente pertence ao Estado da Defesa Nacional e é residência oficial do Ministro da Defesa Nacional de Portugal. Só está aberto ao público mediante marcação prévia e disponibilidade do próprio forte (pedidos de visita através do e-mail: dscrp.fsjb@defesa.pt).

Mais adiante, ainda na margem norte do estuário do Tejo, na extremidade leste da enseada da Praia de Santo Amaro, está o Forte de São João das Maias, ou Forte de Oeiras ou Forte das Maias, construído no século XVII por determinação do Conselho de Guerra de D. João IV. Era integrante da 1.ª linha de fortificações marítimas e fluviais da barra do Tejo, no contexto da Guerra da Restauração.
Forte do Bugio – a sentinela no estuário
No século XVI, no reinado de D. Sebastião, já se delineava a construção de uma fortificação na barra do Tejo que, de início, era uma simples plataforma com algumas peças de artilharia, sustentada sobre estacaria de madeira, entulhada com pedras.
Apenas no reinado de Filipe I de Portugal foi desenhada a planta circular de autoria de arquitetos e engenheiros italianos, João Vicente Casale seu sobrinho, Alexandre Massai, com uma estrutura de fortificação renascentista, mais sólida frente dinâmica das águas do estuário e com melhor posicionamento da artilharia.



O traçado do Forte do Bugio foi inspirado no Castel Sant’Angelo em Roma, na Itália, e por sua vez serviu de modelo para o Forte de São Marcelo na baía de Todos os Santos, na cidade de Salvador, Bahia, no Brasil.
Localizado a meio das águas do Tejo, o Forte e o Farol do Bugio foram construídos sobre um banco de areia formado pelo assoreamento da foz do rio, resultado da confluência de suas águas com as do oceano Atlântico, ao ritmo das marés.
É a única fortificação no estuário do Tejo com a superfície acima da linha de marés durante todo o ano, daí a toponímia de cabeço ou cabeça seca. A designação bugio pode ser derivada do francês bougie (vela), devido à semelhança da sua estrutura a uma vela acesa.
Da mesma forma que o Forte de S. Julião da Barra, o Forte do Bugio também foi ocupado pelas tropas napoleónicas e, depois pelas Guerras Liberais.

Outro forte localizado também na margem norte do Tejo – o Forte de Nossa Senhora de Porto Salvo, conhecido como Forte da Giribita ou Forte da Ponta do Guincho – sobressai-se sobre uma ponta rochosa, próximo a Paço d’Arcos e Caxias.
Fazia parte da então chamada Bateria do Guincho, mais tarde denominada Bateria de Nossa Senhora de Porto Salvo e serviu como baluarte militar na Guerra da Restauração e nas Guerras Liberais. Já no século XX passou pelas mãos do Ministério das Finanças, da Junta Autónoma das Estradas, da Legião Portuguesa e finalmente da Direção das Infraestruturas Navais da Marinha Portuguesa após a Revolução dos Cravos.

Ainda no âmbito da Guerra da Restauração foi erguido mais um forte em Caxias, na confluência da ribeira de Barcarena com o estuário do Tejo – o Forte de São Bruno. Também fazia parte da linha de fortificações da barra do Tejo e cruzava fogos com o Forte da Giribita.
Na mesma região encontra-se o Forte de D. Luís (Forte-prisão de Caxias) que no século XX fez parte do Campo Entrincheirado de Lisboa, formado por uma série de modernas fortificações e adaptação de algumas das já existentes. Obsoleto após a I Guerra Mundial foi transformado em prisão política pelo Estado Novo Português.
Adentro no estuário do Tejo

O Forte do Bom Sucesso fica na atual Praça do Império, junto à Torre de Belém. A sua construção teve início em 1780, como complemento da linha defensiva de Belém. Como os seus pares na margem norte do rio Tejo também integrou o cenário das Guerras Peninsulares.
Desde meados dos anos 1990 passou a integrar o Monumento aos Combatentes do Ultramar, requalificado como espaço museológico, administrado pela Liga dos Combatentes, e conta com uma exposição permanente “O Combatente Português“. Ao ar livre há três espaços com equipamento relativo aos diversos ramos das Forças Armadas.
A Torre de Belém – Monumento Nacional desde 1907 e Património Mundial da UNESCO desde 1983 – era designada antigamente Torre de São Vicente a Par de Belém, oficialmente Torre de São Vicente. Localizada na margem norte do Tejo, originalmente era cercada pelas águas em todo o seu perímetro.
Ícone do reinado de D. Manuel I, no século XVI, a Torre de Belém ganhou forma com o desenho do arquiteto Francisco de Arruda. As obras ficaram a cargo de Diogo Boitaca que, à época, também dirigia as já adiantadas obras do Mosteiro dos Jerónimos.
Um dos ex-libris da cidade de Lisboa, a Torre de Belém é um excelente exemplo de transição entre a arquitetura da Idade Média e o Renascimento, com influências islâmicas e orientais que caracterizam tão bem o estilo Manuelino.

Nos quatro pisos mantêm-se a Sala do Governador, a Sala dos Reis, a Sala de Audiências e a Capela, com as suas características abóbadas quinhentistas. Numa das mísulas sob a guarita do terraço há no cunhal noroeste uma escultura de um rinoceronte, primeira representação conhecida em pedra realizada na Europa deste animal exótico, oferta do sultão de Cambaia ao rei D. Manuel I.
Entretanto, na margem sul do estuário do Tejo, em oposição à Torre de Belém, ainda são visíveis as ruínas da Fortaleza da Torre Velha, também chamada Torre de S. Sebastião, tida como a mais antiga fortificação de defesa marítima portuguesa, precursora de uma série de fortificações que foram erguidas nas duas margens do Tejo desde o século XV. Está posicionada numa elevação entre as enseadas do Porto Brandão e da Paulina e cruzava fogo com a Torre de Belém.



Ainda na margem sul, destaca-se mais uma fortificação marítima da capital – o Forte de Almada – que também fez parte do sistema defensivo de Lisboa desde o século XIX, como base de coordenação da linha de defesa da margem sul. Hoje é ocupado pela Brigada nº 2 – Grupo Territorial de Almada, da Guarda Nacional Republicana.
*Nysse Arruda é jornalista especializada em náutica, autora de diversos livros sobre regatas oceânicas internacionais, fundadora e curadora do Centro de Comunicação dos Oceanos – CCOceanos – a série de palestras a abordar os mais diversos temas relacionados com os oceanos, conectando os países de Língua Portuguesa e tornando Portugal um polo de partilha de informação atualizada sobre os oceanos.
Este trabalho teve o apoio de Sidónio Paes – SeaEO Tours.

*Nysse Arruda é jornalista especializada em náutica, fundadora e curadora do Centro de Comunicação dos Oceanos- CCOceanos – série de palestras a abordar temas relacionados com os oceanos, conectando os países de Língua Portuguesa e tornando Portugal um polo de partilha de informação atualizada sobre os oceanos.

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Muito bom, mas lamento que falte o Forte de Santa Apolónia, provavelmente o forte mais mal-tratado e abandonado do conjunto da margem norte do Estuário.
“O Forte do Bom Sucesso fica na atual Praça do Império, junto à Torre de Belém. ” – diz o texto. De facto, não é verdade: o Forte e a Praça do Império distam, pelo menos, de um quilómetro. Trata-se de um erro da Wikipédia, e basta ver o Google Maps, para confirmar a falta. O Forte localiza-se, sim, na Avenida de Brasília. Com cumprimentos.
Falta um forte muito importante o Forte de santo António da barra que para além de ter mais de 400 anos foi aonde o ditador Salazar caiu da cadeira!