Há tempos, arrumando livros numa estante, descobri um volume com pautas do repertório de Carlos de Carmo – um “songbook” publicado com edição bilingue de Rafael Fraga e Augusto Macedo – no qual, além de uma introdução sobre a história do fado e alguns apontamentos sobre a vida do fadista, podemos revisitar os versos e a notação musical de alguns dos seus mais emblemáticos fados e canções, incluindo Gaivota, Canoas do Tejo, Os Putos ou Estrela da Tarde.
Hoje as pessoas fazem música nos computadores e ouvem-na frequentemente em plataformas digitais; mas, desde que o fado saiu das ruas (onde era exclusivamente cantado no princípio) até à época em que se tornou possível a reprodução mecânica e apareceram os discos, os livros de pautas tiveram um papel essencial na preservação de letras e músicas e sobretudo na sua divulgação junto do público.
Do final do século XIX até ao Estado Novo – cujas reformas pedagógicas tiraram importância ao ensino da música –, família burguesa que se prezasse tinha piano em casa; primeiro de cauda, mais tarde vertical, o instrumento servia não só para que as crianças aprendessem a tocar (a par de estudarem francês, bem entendido), mas também ocupava um lugar de destaque nos saraus e festas em que não raro se cantava o fado.
No tempo em que certos temas faziam história nos teatros de Revista, as composições mais apreciadas – regra geral, fados com refrão que entravam no ouvido e tinham letras bem-dispostas, ou então muito críticas da situação (a monarquia, a entrada na Grande Guerra e outros males sociais) – eram vendidas nas lojas de instrumentos musicais em pequenos opúsculos que compreendiam geralmente os versos e a notação musical, inicialmente com uma gravura muito simples a preto e branco como capa, mas ainda sem a fotografia do respectivo intérprete.
Porém, à medida que estes livros de pautas se tornaram francamente populares, as editoras começaram a alterar o seu aspecto gráfico, passando as fotografias dos artistas a figurar nas capas para mais rápida associação dos artistas às composições da moda: seria o princípio do marketing?
Mesmo assim, é só a partir dos anos 20 e 30 do século passado que são notórios os desenvolvimentos gráficos que cruzam, nos livros de pautas, a música com as artes plásticas; editoras como a Valentim de Carvalho ou a Sassetti & C.ª, por exemplo, começam a apostar no convite a artistas plásticos de renome para fazerem capas, tornando alguns exemplares verdadeiramente memoráveis, como os desenhados por Stuart Carvalhais, Raul Lino, Carlos Botelho ou Almada Negreiros.




Entretanto, as estrelas da rádio saem pelos altifalantes das telefonias de todas as casas e o disco lá aparece, diminuindo a importância dos livros de pautas que, apesar de tudo, resistem até ao advento da televisão, embora com os artistas fotografados em pose romântica e sedutora em capas que já não têm o génio criativo e a beleza de outrora, quando o fado e as artes plásticas caminhavam juntos.
Hoje entramos numa livraria e, com honrosas excepções, onde andam os livros de pautas?

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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