Do lado de fora, o ruído das escavadeiras e martelos de pressão nas obras na avenida D. Carlos I contrasta com a batida ritmada de um pandeiro. “Passou no teste!”, avalia Fabrício Buriti, contorcendo uma pequena chave para esticar o revestimento em pele de carneiro e dar os ajustes finais na afinação do instrumento para o carnaval de Lisboa.

No trabalho de Fabrício, além das mãos, o ouvido é ferramenta fundamental.

“O instrumento musical não fica pronto antes de uma sessão de ajustes, de uma sessão de audição, digamos assim”, explica o artesão. 

Há dez anos, o brasileiro de 45 anos trocou a secretária e o computador no escritório de uma empresa de desenho mecânico industrial pela bancada de uma oficina. A experiência de mais de duas décadas no ramo da metalurgia, exercida no Brasil e em Portugal, estava agora ao serviço dos músicos lisboetas. 

Como nasce um instrumento? O artesão Fabrício leva-nos para um passeio em sua oficina, com direito a “teste de audição”.

Nascia a Buriti Percussão, especializada na construção e reparos em tambores, pandeiros, tarois, berimbaus, entre outros instrumentos percussivos à base de madeiras ou ferro, a única oficina em Lisboa especializada em devolver a alegria a uma percussão silenciada por uma pele furada, um revestimento rachado ou uma haste partida.

Também naquela época, o carnaval de rua brasileiro em Lisboa começava a dar os primeiros passos, o início de um movimento cultural que espelhava uma forte quarta vaga migratória do Brasil e culminaria com a atual proliferação de blocos que durante os quatro dias de folia transformam a capital portuguesa numa filial de Salvador, Olinda ou Rio de Janeiro.

Um movimento que Fabrício foi precursor ao fundar em 2015 o Baque do Tejo, um dos primeiros blocos lisboetas com ADN brasileiro, ao lado do Colombina Clandestina. Precursor e também “percussor”, municiando desde o início a batucada das agremiações com os instrumentos produzidos na sua oficina em Santos. 

A fábrica de som do carnaval brasileiro de Lisboa.

Fabrício testa o pandeiro recém-fabricado em frente à oficina em Santos. “É preciso fazer uma audição”. Foto: Álvaro Filho.

Capturado pela batida do maracatu

A relação de Fabrício com o carnaval, porém, é bem mais antiga do que a abertura da sua oficina em 2015 em Lisboa: vem desde os tempos de criança, no Brasil.

“Como nasci em fevereiro, quando criança achava que o carnaval fazia parte da festa do meu aniversário”, diverte-se o artesão, oriundo de Várzea Paulista, no interior de São Paulo. Mais precisamente no bairro do Buriti, o qual acabou por substituir o “Soares” no apelido oficial dele e do negócio.

Fabrício trocou São Paulo por Lisboa em 2004, mas a memória afetiva não ficou para trás. Restou latente na cabeça do Fabrício desenhista de projetos mecânicos até  ser resgatada pela potente batida de um tambor. 

Mais precisamente de uma alfaia, a percussão característica do maracatu, um dos ritmos musicais de Pernambuco, no nordeste brasileiro.

Foi amor à primeira batida.

“Eu gostava muito de uma banda pernambucana chamada Chico Science e Nação Zumbi, que misturava o rock e o maracatu, e fiquei louco com a potência daquela batida, daquele ritmo”, conta Fabrício.

A potência de Chico Science e companhia, que nos anos 1990 deu início ao manguebeat, movimento cultural que revelou novos músicos e bandas vindas do nordeste brasileiro.

O Maracatu Atômico de Chico Science e Nação Zumbi alterou os rumos de Fabrício.

Ainda como desenhista mecânico, em 2011 Fabrício construiu o primeiro tambor, seguindo os passos de um manual em PDF resgatado na internet. “Levei três meses para fazer a minha primeira alfaia”, recorda-se. Hoje, com a experiência, o mesmo instrumento é feito em quatro dias.

Experiência que tem dado segurança aos músicos em Lisboa, não só portugueses e brasileiros. “Já tive de fazer reparos num legüero argentino e numa marimba cubana”, conta.

Artesão e batuqueiro

A profissão de fabricante e reparador de instrumentos de percussão andou sempre em paralelo com a musical. Se em 2015 Fabrício abria as portas da Buriti Percussão, primeiro no Bairro Alto, hoje em Santos, também começava a reunir outros amantes do maracatu para criar o Baque do Tejo

As madeiras em pinho na linha de produção de tambores e alfaias: “Levei três meses no primeiro. Hoje, levo quatro dias.” Foto: Álvaro Filho.

“A Buriti Percussão é o meu ganha-pão, mas o que ganho com o Baque do Tejo é muito mais rico, é a possibilidade de encontrar, conviver e tocar com outras pessoas”, diz o artesão sobre seu lado “batuqueiro”. 

O Baque do Tejo começou a desfilar nas ruas de Lisboa no carnaval em 2017, à época com apenas cinco integrantes. Para a folia deste ano, serão 40 percussionistas, além do corpo de baile, com direito a uma rainha do maracatu, personagem marcante nos cortejos das “nações” originais em Pernambuco. O desfile será no domingo (dia 2 de março), a partir das 18 horas, com saída do Largo do Chafariz de Dentro, para percorrer as ruas de Alfama.

Mas não foi só o Baque do Tejo que cresceu. 

Atualmente, além dos precursores Baque do Tejo e Colombina Clandestina, saem às ruas de Lisboa nos quatro dias de carnaval o Baque Mulher Lisboa, Bloco Oxalá, Blocu, Bué Tolo, Secretinho, Cuiqueiros de Lisboa, Lisbloco, Palhinha Maluca, Pandeiro LX, Qui Nem Jiló, Sardinhas Nômades e o mais recente, o Boi Tabaco, que desfila pela primeira vez em 2025.

São 14 blocos, muitos com base percussiva, a maior parte deles com alfaias, gonguês, xequerês, agbês, caixas, triângulos, pífanos, pandeiros, zabumbas e tarois fabricados pelas mãos de Fabrício.

Após um período de mobilização e luta dos blocos através da União dos Blocos de Carnaval de Rua de Lisboa, esta semana a Câmara de Lisboa rendeu-se à folia e passou a integrar o carnaval brasileiro no calendário cultural oficial da cidade.

Ou seja, pelo andar da carruagem do crescimento do carnaval brasileiro, agora oficialíssimo em Lisboa, as mãos e os ouvidos Fabrício terão ainda muito mais trabalho pela frente.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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