O carnaval dá o ar da sua graça e no peito do brasileiro no exílio uma imensa nostalgia bate forte como um tambor, bum! bum! bum! Ai meu pai, valei-me nossa senhora, que saudade do trinar de um trompete, do sol quente ardendo na moleira, dos confetes colados no corpo pelo suor. Saudade da orquestra a subir a ladeira e a serpente humana atrás, entoando o Trombone de Prata:
Ouvi dizer, que o mundo vai se acabar, que tudo vai pra cucuia e o sol não mais brilhará…
Para os luso-camaradas, o queixume do brasileiro apartado do seu carnaval doméstico não faz sentido, soa exagero, drama barato, conversa mole. Mas não é pantim, juro que não, a sofrência é sincera, pode apostar que sim, pois cada um sabe onde o calo aperta e só sente o vazio existencial de um carnaval com um oceano no meio quem lá no gigante dos trópicos nasceu.
Afinal, tem coisas que só quem é do lugar conhece bem.
Veja o diletante português, que não precisa recorrer ao Google para saber que a solha é um peixe, enquanto para o ouvido destreinado do brasileiro parece uma das partes da torneira:
— Troca essa solha gasta aí, menino, para essa torneira parar de pingar!
Com o brasileiro, é o mesmo, carnaval se aprende no berço.
Quem foi puxado pelo braço atrás de um bloco pela mãe e sambou nos ombros do pai fantasiado de pirata ou bailarina, não esquece nem vai esquecer o carnaval, pois a folia fica registada na genética do sujeito por mil gerações.
Qualquer outra data festiva do ano pode ser relativizada para um brasileiro, o próprio aniversário, o dia da mãe, do pai, o enterro do avô, até o Natal no seio da sagrada família com neve de algodão, peru recheado e farofa e aquele tio bêbado que todo ano conta a mesma piada, tudo pode ser negociado com a saudade e o coração.
Mas não o carnaval, nunca, jamais, não é assim que a banda toca.
Cada carnaval à distância é um ano a menos de vida para um brasileiro, a imperial meio-vazia na mesa, enquanto na cabeça desfila os cem abraços não dados, os mil beijos perdidos e o milhão de sonhos frustrados.
Vai pelo velho folião aqui, mais de 50 carnavais nas costas, a seguir a orquestra ladeira abaixo a dar o tom:
Pode acabar o petróleo, pode acabar a vergonha, pode acabar tudo enfim, mas deixe o carnaval pra mim…

A boa notícia aos foliões saudosos é que aos poucos o vírus do frevo, do samba, do axé e do maracatu tem contagiado Lisboa, trazido na bagagem dos brasileiros que cruzaram os mares no ventre das caravelas de aço e escolheram a pérola do Tejo para viver e não sabem viver sem um carnaval para chamar de seu.
Até então, o carnaval de Lisboa era um silencioso e triste deserto.
Daí, há dez anos tudo começou a mudar, primeiro com folia apenas num dia, só no sábado, passageira como o calafrio do início de uma gripe, até a temperatura começar a subir com o tempo e o vírus se alastrar pelos quatro dias da folia de Momo.
Nesta semana, o carnaval brasileiro conseguiu furar a Lisbolha e passou a fazer parte do calendário de eventos oficiais de Lisboa, com direito a papel timbrado, assinatura do homem de gravata, carimbo e tudo e tal.
Evoé, Lisboa! Vá então para a rua conferir se não é bom.
Se não é bom ver a Colombina arrastando multidão e o Baque do Tejo a ecoar os tambores de maracatu.
Se não é bom seguir o Que Nem Jiló com a querida amiga francesa Sara e outros queridos colocando o Luiz Gonzaga no samba.
Que covardia Sara, isso não se faz com quem vive saudoso de tudo, ouvir o ai quem me dera voltar, pros braços do meu xodó, saudade assim faz roer e amarga qui nem jiló e ter de manter a compostura.
Se não é bom o baile do Pandeiro LX, no centenário salão da Sociedade Boa União, com vista para Alfama, as ruelas da medina coloridas de gente feliz e Alfama mais Olinda do que nunca? Ainda mais quando o trompete, saxofone e trombone de vara sobe ao palquinho para entoar os acordes de Cabelo de Fogo.
Pa-pa-ra-ra-pa! Pa-pa-ra-rá! Pa-ri-ra-ra-pa! Pa-ri-ra-rá!
É de morrer, meninos e meninas, morrer para ressuscitar refeito, pode crer.
Pois o carnaval é pra isso mesmo, para morrer e nascer de novo, trocar de pele para aguentar o ano todo pela frente, pois ninguém é de ferro e a sanidade mental do cristão desde a pedra lascada depende do carnaval.
Pois o carnaval é terapia, é psicanálise de rosto pintado de palhaço, é Freud de saia, Lacan de peruca e Jung de baiana.
Está certo, ok, o carnaval de Lisboa ainda não é um carnaval à vera, dezoito quilates, é ainda assim meio insosso, como ir na festinha e só dançar com a irmã ou o irmão, pois a temperatura de ar-condicionado de shopping center não ajuda, não aquece a locomotiva do corpo.
Mas, mesmo assim, com casaco e pulôver a compor a fantasia, para o folião desamparado, sem pai nem mãe nem Rei Momo, já é muitíssimo melhor do que nada, pode crer.
E para o luso-leitor que não sabe lá o que é isso, que pensa que o carnaval é só um feriado para descansar, tome tenência, meu filho, minha filha, sai desse sofá e vai frevar, vai sambar, requebra, requebra, sim, Lisboa.
Tira a fantasia de gente séria e vai viver, criatura de deus, como se não houvesse amanhã.
Pois quem é do carnaval carrega na alma a certeza de que lá no fim haverá a eternidade toda para descansar.

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