Quando pensamos nos primórdios da restauração lisboeta, pelo menos naquela mais sofisticada e de conforto, com epicentro na Baixa pombalina e amplamente esmiuçada na generalidade da literatura novecentista, vem-nos logo à cabeça a importante diáspora galega que se começou a instalar na cidade a partir do final do século XVII. O Ramiro ou o Gambrinus, o bitoque ou o bacalhau com grão, são bons exemplos desta influência na cozinha. Ora, por acaso ou tremenda desatenção deste autor, acabo de “descobrir” que a minhota Paredes de Coura, eterna vizinha da Galiza, conquistou a restauração do meu bairro há muito. Um veni, vidi, vici dos tempos modernos.
Os sinais estavam todos lá, é verdade. Mas uma tabuleta onde se lê Os Courenses não faz a floresta, certo? Pois bem. Há uns quantos fins de semana, estava eu num animado almoço convívio na Casa Courense, ali para os lados de Campolide, para o qual fui convidado por um amigo de infância e pelo seu simpático grupo de amigos do futebol, quando vejo entrar e cumprimento o dono do antigo Veleiro Azul, um restaurante que frequentei amiúde quando cheguei a Alvalade em 2010 e que servia umas soberbas mãozinhas de vaca com grão.

Pelo que me contou o senhor Salvador Sousa, hoje reformado e totalmente comprometido com a universidade sénior, antes de gerir o Veleiro Azul, foi durante muitos anos sócio do Novo Dia, casa de pasto cuja cave foi frequentada por ilustres nomes da cultura, do jornalismo e da política aqui do burgo. Carlos do Carmo, Manuela Moura Guedes e José Eduardo Moniz, Simone de Oliveira ou Varela Silva foram alguns dos nomeados pelo meu bem-disposto conviva. Escusado será dizer que, após o aumento das rendas, das matérias primas, de isto e mais aquilo, os clientes começaram a rarear e as duas icónicas cozinhas courenses acabaram mesmo por fechar.
Felizmente, além do já nomeado Os Courenses, e do seu vizinho O Luís, casas sempre à cunha ao almoço e ao jantar, quem ainda resiste, e de que maneira, é o também courense Tico-Tico (ligado ao Novo Dia). A massada de cherne com gambas, a lampreia com arroz ou as codornizes são iguarias que continuam a atrair os fregueses do bairro, atuais e antigos, e uma série de anónimos e colunáveis de uma cidade diversa até na quantidade de colinas. Obviamente, todos sabemos, a localização, a qualidade e a simpatia fazem a casa.
Será?

Temos ainda os resistentes Flôr do Minho II (o primeiro fica nos Olivais), Sem Palavras, Solar Minhoto, Pomar de Alvalade, que já foi dos pais do antigo jogador e atual treinador Paulo Bento, ou os também courenses Sem Nome ou Dom Feijão. Sem dúvida, tudo faz crer que, desde meados do século passado, muito antes do boom turístico que viria ser iniciado a meio da última década, os minhotos deixaram a baixa e o centro da urbe aos galegos e assentaram arraiais em Alvalade e imediações – porventura, a meias com os transmontanos.
Enquanto freguês do bairro e lisboeta que gosta mais de comer do que cozinhar, agradeço a movida. Só lamento que, com o passar dos anos, algumas destas pérolas da gastronomia minhota estejam a morrer em lume brando, para darem lugar a uma concorrência franchisada e sensaborona, que vai apurando o terreno com ingredientes alheios à comida: escala, preço e estética – em especial, pela ausência do habitual branco- gelo nos encastres luminosos e nos azulejos. Nem as favas com chouriço escapam a este perverso progresso.

Bacalhau com grão às segundas, iscas com batatas e grelos às terças, cozido às quartas. Até agora, este tem sido o meu mantra sempre que almoço pelo bairro. É verdade que esta é uma dieta previsível e pouco amiga das tendências, do cool, mas é também particularmente reconfortante e gostosa.
Nem percebo como é que o meu adorado avô paterno, um minhoto de Barcelos que se apaixonou por uma lisboeta com raízes em Braga e Penafiel mais de dez anos antes de finalmente casar com ela (spoiler alert: ela, a minha avó!), arengava vezes sem conta: “vivo desterrado em Lisboa”. Talvez se Alvalade já existisse quando deu o nó, quem sabe ter-se-ia sentido em casa por estas bandas. Uma coisa é certa: no meu caso, apesar de não ser do bairro, gosto desta mão minhota na cozinha de Alvalade… e também da transmontana, da alentejana, da italiana, indiana, chinesa e de tantas, tantas outras. Fazem-me sentir ainda mais em casa.


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Salvador Sousa; Pelo que a mim me diz respeito sobre os Restaurantes dos quais fui sócio gerente em Alvalade, venho por este meio agradecer-lhe a sua verídica descrição sobre os Restantes onde fui sócio gerente e onde gostei muito de trabalhar, pois para além dum bom staf que tinha, quer na cozinha, quer na Sala, quer no balcão, tinha também um leque de clientes de excelência como o Senhor já fez o favor de mencionar alguns. Era muito feliz na Restauração, pois penso que nasci para as relações públicas.
Senhor Pedro Salazar, através destas novas tecnologias, quero aqui enviar-lhe um abraço e os meus parabéns pela tão bela e verídica descrição dos Restaurantes de Alvalade, alguns já transformados em algu que nada têm a ver com a gastronomia portuguesa. Um abraço.