Foto: montagem com fotografias retiradas do blogue "Restos de Coleção"

José Leite entrou na Livraria Sá da Costa, a poucos metros d’A Brasileira, no Chiado e postou-se frente às estantes de olisipografia. Retirou uma obra editada pela Expo 98 sobre o “pavilhão dos oceanos” (o Oceanário), folheou brevemente e voltou a arrumá-la; na mesma prateleira estavam alguns volumes da incontornável Lisboa Desaparecida, de Marina Tavares Dias, que lhe suscitaram um comentário: “Gosto mais destes: têm mais imagens e pouco texto.”

Era uma afirmação surpreendente para o autor do blogue “Restos de Colecção”, que tem vindo a biografar Lisboa desde 2009, respigando histórias e iconografia, escrevendo e documentando com rigor as vidas de lugares e cidadãos.

“Não gosto de ler, não tenho paciência”, explica, lembrando, entre risos, que já na escola secundária “lia apenas os resumos das obras” e que desde os anos em que frequentava o colégio católico Manuel Bernardes nunca mais entrou numa biblioteca. Da Sá da Costa, portanto, saiu sem qualquer livro.

José Leite é o autor do blogue “Restos de Coleção”. Foto: Inês Leote

Esta visita ao Chiado a convite da Mensagem de Lisboa foi a primeira em cinco anos – a primeira em que voltou a caminhar literalmente naquela zona. Nada impede José de passear na cidade, mas recusa fazê-lo, preferindo os passeios virtuais feitos através do Google Maps, fechado no seu escritório doméstico, frente ao computador.

“O que me interessa é o antigamente, não o presente”, afirma.

No entanto, a Baixa que “detesta” e onde só vê (virtualmente) “turistas e hotéis” parece tê-lo surpreendido neste regresso ao centro da cidade ao fim de cinco anos. José passeou no Largo do Chiado e na Rua Garrett, observou os prédios, as igrejas e os antigos e elegantes estabelecimentos comerciais (Paris em Lisboa, Bénard, Sá da Costa, A Brasileira), contou histórias sobre alguns deles. Parecia confortável nesse papel de cicerone da capital.

Tinha, então, a história do Chiado bem presente na sua memória, pois estava a ultimar mais uma série de e-books, concretamente uma trilogia dedicada à história daquela área e das ruas circundantes nos séculos XIX e XX – entretanto, os três volumes estão já disponíveis gratuitamente no blogue, coligindo 123 artigos, devidamente ilustrados, em 552 páginas. Nunca pensou em editá-los em livro ou encontrar uma forma de rentabilizar o blogue? “Gosto de ser livre”, diz, “fazer o que me apetece, sair quando quiser.” O “Restos de Colecção” não é “um trabalho”, mas é um passatempo solitário que se distende por muitas horas diárias defronte do seu computador.

José Leite é um enciclopedista do século XXI – escreve sobre Lisboa sem sair de casa, usando as fontes de conhecimento e informação disponíveis na biblioteca infindável da Internet. Conheçamos melhor este “auto-reformado” de 66 anos que desde 2009 publica um dos melhores e mais duradouros blogues portugueses.

Um blogue nascido do “saudosismo”

Para o segundo encontro, com gravação de sons e imagem, José Leite escolheu A Brasileira, sobre a qual escreveu um longo artigo que publicou em Agosto de 2016, mas a primeira conversa com a Mensagem de Lisboa foi marcada para um pequeno e discreto café em Campo de Ourique, sugestivamente chamado “Serenatas & Sorrisos”. O bairro, ou melhor, a rua Ferreira Borges era-lhe familiar, sendo uma das poucas artérias lisboetas que José não conhecia apenas de fotos antigas: trabalhara ali cerca de quatro anos numa loja de alcatifas.

Mas respeitemos a cronologia.

José nasceu em Lisboa, em 1958, e viveu com os pais numa casa na zona ocidental da cidade, no Rego, até aos 23 anos, idade em que casou. Fez todo o ensino secundário no Colégio Manuel Bernardes, no Lumiar, e era “um belíssimo aluno”, pelo menos até chegar ao Instituto Superior Técnico e ao curso de Engenharia Electrónica: no primeiro ano completou com sucesso apenas uma disciplina (História das Ciências); e no segundo enamorou-se de uma das duas únicas raparigas da turma, abandonou os estudos, começou a trabalhar com o pai no negócio familiar do fabrico de torneiras e casou com a namorada. Volvidos cerca de cinco anos, o pai deu-lhe sociedade.

Muitos anos mais tarde, quando ainda morava em Benfica e já depois do nascimento de duas filhas, José viu-se obrigado a fechar a firma por “acumulação de crédito” e decidiu visitar um tio materno que se exilara no Brasil três dias depois da revolução de Abril. “Dei-me bem por lá e fiquei três anos”, diz, contando que quando ele e a mulher regressaram a Portugal optaram por comprar casa em Odivelas.

Foi precisamente durante a sua estadia no Brasil, numa fase mais “saudosista” da terra-natal, que germinou a ideia de criar um blogue no qual pudesse dar uso às centenas de fotografias e anúncios publicitários que, nas horas livres, escolhia de fundos digitalizados e guardava em pastas no computador. “Tinha tempo livre e fazia muitas buscas e por isso fui tendo contacto nessa altura com arquivos e colecções que estavam on line.”

José Leite é o autor do blogue “Restos de Coleção”. Foto: Inês Leote

O “Restos de Colecção” só nasceu, porém, quando José já estava em Portugal e o seu aparecimento deveu-se em parte a uma zanga sobre o Funchal: quando colaborava pontualmente no blogue colectivo “Rua dos Dias Que Voam”, no qual se estreou na escrita de textos sobre Lisboa, chateou-se com outro autor “por causa de um post sobre o Funchal” e decidiu cessar a sua colaboração. “Saí e pensei assim: vou fazer um blogue só meu. E que nome vou dar a esta porcaria? E se fosse ‘Restos’? ‘Restos de Colecção’?”. E porquê sobre Lisboa? “Porque é o que eu conheço, nasci cá, tenho boa memória fotográfica.”

O primeiro post de José, publicado a 19 de Julho de 2009, titulava-se “Um barbeiro em Lisboa” e compunha-se de uma fotografia a preto e branco de uma barbearia de rua acompanhada de uma pequena legenda. Neste ano inaugural, aliás, o blogue aparentava mais ser um repositório de imagens sobre a cidade, acompanhadas de breves legendas e comentários. No ano seguinte, a ‘produção’ de José aumentou substancialmente, totalizando 260 posts, e esse ritmo continuou em 2011, com 280 posts. Foi precisamente nesses anos que o autor começou, ainda que timidamente, a expandir a mancha de texto e a documentar mais solidamente os seus artigos, recorrendo a fontes primárias que citava no final do artigo.

À data de escrita deste artigo o “Restos de Colecção” contabilizava 2316 entradas e seis e-books (além da trilogia sobre o Chiado, fez também sobre os cinemas de Lisboa (1896-2011), teatros (1591-1976) e cinema português (1896-1980), disponíveis ao leitor através de uma arrumação simples mas irrepreensível por índices alfabéticos, cronológicos e “etiquetas” temáticas. 

Ao longo de 16 anos, José Leite manteve uma produção regular de publicações no blogue, exceptuando-se o primeiro ano da pandemia, 2020, com apenas 18 artigos. Não se julgue, porém, que foram os confinamentos a afectar o autor, habituadíssimo a prolongados momentos de reclusão no seu escritório, passeando virtualmente na cidade através do Google Maps e de colecções fotográficas e publicitárias. O motivo foi um emprego temporário, que o obrigava a sair todos os dias de Odivelas para Campo de Ourique.

O que lhe “aparece” na net

Em 2018, ano em que publicou dois e-books (sobre os cinemas e teatros de Lisboa) e artigos completos e criteriosamente ilustrados sobre o Café Gelo, o Teatro do Salitre ou o fotógrafo Arnaldo Garcez, entre outras dezenas, José tinha 60 anos e precisava de “algo mais” para se “entreter”. “’E agora o que é que eu vou fazer?’, pensei, e foi por isso que comecei a ver anúncios de emprego nos jornais.”

Respondeu a um anúncio que procurava um funcionário para tratar de assuntos administrativos numa loja de alcatifas em Campo de Ourique e o processo foi rápido: dois dias depois da entrevista presencial já estava a trabalhar. Previsivelmente, o “Restos de Colecção” ressentiu-se e a actividade do blogue tornou-se mais intermitente, escasseando tempo para a pesquisa e para a escrita. Mas em 2022, numa altura em que os patrões lhe exigiam trabalhos que “excediam” as suas funções, José demitiu-se e acabaram-se as viagens entre Odivelas e o bairro lisboeta.

José voltou a seu escritório e ao sossego das suas pesquisas virtuais. É essa a fase que mais aprecia, a de navegar por fundos arquivísticos e colecções iconográficas, aplicando sempre antes da publicação dos artigos a metodologia científica da verificação.”Cheguei já a estar um dia inteiro à procura da data de abertura de um hotel”, conta, notando ainda que encontra com mais frequência do que seria expectável muitos erros na descrição e datação de fundos fotográficos pertencentes a arquivos nacionais. É um trabalho moroso, mas José tem a paciência e a perseverança essenciais ao investigador, tendo sempre na gaveta “20 a 30 textos” que vai parcimoniosamente publicando no “Restos de Colecção”. E pelo caminho vai já dando forma a mais três e-books dedicados aos cafés e pastelarias, automóveis e hotéis.

Rejeitando (quase militantemente) as pesquisas empíricas e os passeios pela cidade e não sendo um leitor de jornais e livros, como é que escolhe os temas sobre os quais escreve? “É o que me aparece na net, desde que eu ache interessante.” Isso mesmo explica por que é às vezes atravessa as fronteiras da capital e escreve sobre lugares, jornais, ruas, pessoas e edifícios no Porto, em Abrantes, no Buçaco, em Castelo Branco, Estremoz, Funchal, São João da Madeira ou Santo Tirso. É a curiosidade quem mais ordena: “É sempre o que me aparece como uma coisa engraçada.”

Uma das suas principais fontes documentais são os anuários e os almanaques comerciais, uma vez que os anúncios continham informações (datas, nomes de proprietários, localizações) indispensáveis para historiar os estabelecimentos da cidade. José tem comprado alguns através da Internet – são, aliás, as únicas obras que compra –, mas há um em concreto que não encontra “em lado algum”. Falamos-lhe em alguns alfarrabistas da cidade, que ele diz não conhecer, e na Feira da Ladra. “Nunca fui à Feira da Ladra. Como é que se vai para lá?”

E os bairros populares de Lisboa? Conhece? “Fui uma vez aos santos a Alfama. Era uma grande confusão. E onde é que eu paro o carro?”


Maria José Oliveira 


Jornalista freelancer e doutorada em História Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Colabora regularmente com os jornais PÚBLICO e Expresso e faz investigação para cinema e televisão. O seu primeiro livro foi “Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial” (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Alfama, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios. 


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