Lisboa é um destino popular para estudantes estrangeiros a fazer Erasmus. Segundo contas da Câmara Municipal de Lisboa e da União Europeia, serão cerca de dez mil – e Lisboa é mesmo um dos destinos internacionais favoritos para o efeito. E eu sou um deles.
Deixe que me apresente: o meu nome é Silong Zhao e sou um estudante chinês de 23 anos, da cidade de Wengdou, no centro do país, agora a estudar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Novas de Lisboa. Estou animado com a experiência nesta cidade incrível, com o seu deslumbrante Castelo de São Jorge, o icónico pastel de nata e o Cabo da Roca – como me indicaram os guias turísticos. Mas, quando o empolgamento inicial de fazer turismo se torna rotina, muitos estudantes internacionais vão atrás de conexões mais intensas. Afinal, como estudantes internacionais, estamos sozinhos aqui. E fazer amigos em Lisboa torna-se uma prioridade.
Aí fui eu, então, em busca deles – amigos. Felizmente, Lisboa é uma cidade onde se pode encontrá-los literalmente em cada esquina. Especialmente numa esquina do Bairro Alto, onde há o chamado “Erasmus Corner”, ali na Rua do Teixeira.
“Este é o melhor lugar, claro, o Bairro Alto”, responde-me Vinícius, estudante brasileiro de Belo Horizonte que estuda direito na Universidade Nova.
Ali, há uma infinidade de bares, casas antigas e ruas estreitas que formam uma espécie de “fronteira” da área histórica de Lisboa. É fácil encontrar cervejas baratas aqui, a dois euros uma caneca. E são vários os bares que também oferecem planos premium de shots, cocktails e rum. Com preços que tornam este lugar um íman para estudantes com pouco dinheiro. Quando a noite cai, a vida no Bairro Alto começa – e, às vezes, os vizinhos da zona, e do Cais do Sodré, mais abaixo, não gostam disso.

“Para mim, que prefiro fazer amizade com outros estudantes internacionais, já que estamos na mesma situação”, diz-me Vinícius. Muitos estudantes internacionais partilham esta opinião de que é muito mais fácil fazer amigos em Lisboa do que nas suas cidades natais – especialmente se a sua cidade natal não for uma grande cidade.
Para escrever esse artigo, fui ao Bairro Alto numa quinta-feira à noite e conversei aleatoriamente com algumas pessoas deste Erasmus Corner. Pode ser assustador no início e fazer amigos não é tão simples como falamos, claro. “E se eu não entender a língua? E se eles não gostarem do meu país ou da minha raça? E se eu não for bonito?”
Como estudante asiático, e uma pessoa muito cautelosa, preocupo-me demais quando tento fazer amizades. Lisboa é uma cidade interessante, sobretudo para quem vem da China, como eu. As diferenças culturais são celebradas aqui, tornando fácil conectar-se com pessoas de qualquer origem. Basta pegar numa bebida e conversar – não recebi nenhuma rejeição e até fui convidado para a festa de um estudante luxemburguês, o Mica.
“Todos nós somos estrangeiros aqui, todos nós somos novos aqui, ninguém vai achar estranho se começares a conversar com eles”, sugeriu um amigo italiano, que fez estágio em Lisboa por seis meses. Uma estudante polaca, Marcelina, diz o mesmo.
Quando der esse primeiro passo, vai encontrar pessoas com rostos diferentes vindo na sua direção com simpatia. Lisboa mostrou-me este seu lado inclusivo: e aqui podemos encontrar pessoas de quase todos os países do mundo, algumas delas até formam as suas próprias comunidades.
E amigos lisboetas?
Perguntei a algumas pessoas: e se quisermos fazer amigos locais? Felizmente, os portugueses são mais abertos do que podia pensar antes de cá chegar. Embora exista o estereótipo de que os espanhóis são sempre alegres e acolhedores enquanto os portugueses são mais reservados, a maioria dos portugueses está disposta a fazer amizade com um estrangeiro. Foi o que Mica e Marcelina disseram. Para eles, não há muita diferença em relação a conhecer estudantes internacionais, exceto pelo lugar. Dizem que “é melhor conhecer locais no Cais do Sodré.”
Outra coisa incrível em Lisboa é que quase não existem barreira linguísticas. O ideal é falar português, claro, mas se ainda não souber, isso não será um problema. Os portugueses são conhecidos pela sua habilidade com o inglês e por estarem dispostos a falar em inglês com estrangeiros. Vivendo num ambiente internacional, os locais de Lisboa vão falar inglês se perceberem que tem dificuldades com o português. Isso é algo que também me surpreendeu.
Não se esqueça de que há muitos estrangeiros em uma situação semelhante à sua. Basta dar o primeiro passo. Ou clique.
Online ou pessoalmente?
Além do Erasmus Corner, há uma nova tendência para usar as aplicações que habitualmente são para namoros para fazer amizade. Basta pôr no modo BFF do Bumble e no modo “procurando novos amigos” do Tinder, e deslizar a tela…
O único problema para um estudante que vive de bolsas é que tanto o Tinder quanto o Bumble têm planos premium, com mais de dez euros por semana, e só com a versão premium é possível ver quem nos “curtiu”. Caso contrário, ficamos apenas a deslizar e esperar por um match por acaso. Além disso, mesmo que sejamos combinados com alguém, existe uma grande possibilidade de que essa amizade acabe rapidamente com um ghosting.
Aplicações como Timeleft e Tribe também podem ajudar. O Timeleft organiza um jantar todas as quartas-feiras à noite, onde se podem conhecer novas pessoas, e o Tribe organiza jogos de voleibol de praia e sessões de arte. Basicamente, ajudam-nos a escolher futuros amigos online com base em características e hobbies semelhantes.

No final de contas, para mim, a opção mais confortável são os colegas de casa e os colegas de turma. E serão eles que provavelmente te acompanharão a maior parte do tempo durante a estadia em Lisboa, tornando-se os amigos com maior potencial.
A chave é o campus da faculdade, como explica Tom, estudante alemão que estudou em Lisboa por um semestre. Raramente ia a lugares como o Bairro Alto – tem uma personalidade introvertida – mas ainda assim diz que fez muitos amigos durante a sua estadia. A maioria dos amigos que fez em Lisboa eram colegas de turma.
Isso faz-me algum sentido.
Estudamos juntos, o que significa que não há barreira linguística, temos os mesmos interesses, formações profissionais e tópicos de conversa. Nesse contexto, a amizade surge facilmente, basta um “olá” ao seu colega de lado, e começar a conversar. Pode ser uma queixa sobre os trabalhos de casa ou sobre os professores.
Os colegas de casa são semelhantes. Moramos com eles – ou seja, podemos simplesmente encontrá-los na cozinha, no terraço ou na lavandaria. Na minha casa moramos cinco. E o mais provável é que seja assim com muitos estudantes, porque em Lisboa, devido aos preços altos dos imóveis, muitos estudantes alugam um quarto, o que faz com que tenham vários colegas de casa.
Na nossa casa, temos um grupo do WhatsApp, que mais uma vez tanto pode servir para reclamar sobre o apartamento desorganizado, o proprietário ganancioso, ou para convidar para uma cerveja e partilhar curiosidades sobre os países e línguas dos outros. São tópicos clássicos com seus colegas de casa. Além disso, uma única habilidade é necessária: querer conversar!
*Este texto foi editado por Álvaro Filho

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