Olhei para o Joy, o Joy olhou para mim. Para cima e para baixo, a Patrice Lumumba estava deserta. Como eu não tinha visto outra forma de Maputo ser Maputo, não sabia bem o que esperar. Por esta altura, Moçambique inteira suava, e partiam-se as janelas da sede da Frelimo em Mecuburi, província de Nampula. O povo em fúria levava tudo a eito, destruindo computadores, propaganda e, pasme-se, comida. A polícia disparou, matou um tipo. Os manifestantes foram à casa do gajo que disparou a bala, que em pouco tempo se transformou em chamas: posto aquilo a arder, o fogo engoliu tudo. Pagou-se chumbo com lume.
Em Intaka, no município da Matola, a polícia impedia uma manifestação que se dizia pacífica, mas sei lá. Ia-se de Mukhatine (bairro) à rotunda de Tsivene (bairro Cumbeza), distrito de Marracuene, e lá chegou a polícia a mandar balas à toa. Os manifestantes paralisaram o trânsito, ordenaram o encerramento de estabelecimentos comerciais, desembarcaram passageiros. Por toda a Área Metropolitana de Maputo, havia blindados e militares com armas de guerra, espelhados pelas Forças de Defesa e Segurança. Maputo a respirar guerra.
Nas redes sociais, circulavam ameaças: se algum carro circulasse, seria incendiado; se alguma loja abrisse, seria vandalizada. As empresas abertas “com teimosia” seriam queimadas. Nalguns pontos da capital, queimavam-se pneus. À porta do Hospital Central, havia quem atacasse as ambulâncias. A páginas tantas, já era violentar só porque sim, sem rumo nenhum, e isso inclui o gajo que andava pelas ruas a dar catanadas aos carros. Do outro lado, quase com o mesmo tom de chantagem, o apelo à ordem pública implicava a tomada de posição que era manter tudo aberto. O governo tanto insistia em que estava tudo bem como não insistia em nada. As ruas em polvorosa, o povo entre o medo e a revolta, o país com um leve sabor de colapso, e o presidente a fazer papel de mudo. Tudo isto dava a Moçambique um ar de diz-que-disse, todo o medo sabia a boato, ainda que as notícias lá fossem dizendo qualquer coisa e que se notasse que as ruas sabiam a vida sem rumo. O problema era que qualquer coisa não era a coisa toda, e os jornais depressa soaram mais vagos e lentos. Com os dados móveis cortados, havia muita informação oficiosa, e mesmo a oficial, jornalística, pecava por falta de pormenores e contextualização. Sempre que lia os jornais, dava-me ideia de que, para perceber m esmo qualquer coisa, teria de ler as publicações diárias dos últimos três anos.

Enfim, não interessa agora. Íamos no Joy. O Joy tinha olhos de quem viveu décadas diferentes das minhas: um certo ar de estado de sítio em permanência, e estupefacientes baratos, impuros, a atrofiarem-lhe a cabeça. Olhando para ele, eu via naufrágio – ele talvez se visse tábua. Sobretudo, eu queria pouco com um homem que já tinha esfrangalhado e cortado um corpo de mulher. Mas que fazer? Se fosse rude, sabia lá o que podia provocar. Se fosse simpática, sabia lá o que viria. Ele repetiu a frase: “Tamujuntu, prima?” E eu respondi-lhe, de repente iluminada pela saída possível: “Sorry, me no speaka.” O inglês esfarrapado dele lá chegou: “Hey, cousin. What’s up? How are you?” E eu fingi que falava ainda menos: “Sorry, sorry, no speaka.” Sorri o sorriso mais fingido, seria melhor que ele não me visse o asco, que a sombra de medo não sabia disfarçar. Disse de novo: “No speaka, no speaka”. E comecei a andar, nem depressa nem devagar, com a precisão de quem sabe para onde vai, só para não parecer que fugia. Eu sei bem que a vontade de fugir pode criar a vontade de ir atrás. Passei pelo Jardim dos Professores, não vi lá ninguém. Algures cheirou me a queimado, embora o cheiro de borracha a arder tenha sido substituído depressa pelo do carrinho da fruta. Na rotunda junto à Engen Sagres, um rapaz novo vendia laranjas, jacas e maçãs. Continuei pela Mateus Sansão Muthemba, arvorada, também quase deserta. Aqui e ali, via-se um ou dois ao redor dos contentores. E, do lado esquerdo, o restaurante Lumma: este cheio, e de gente bem vestida, tal qual gala. Preços caros. Tudo em contraste permanente, ali estava um lugar onde o Joy nunca meteria os pés. Acho que em nenhum lugar, como em Maputo (talvez a Bahia, não sei), vi um bisturi social a afastar gente tão às claras, ainda que as ruas sejam as mesmas e a paisagem também. Cheguei à Armando Tivane, virei para a esquerda, descobri dois supermercados mais perto de casa do que aqueles a que costumava ir. É sempre bom poupar uns metros quando não se tem água potável. Cheguei, finalmente, ao cruzamento antes do prédio. Era só contorná-lo e podia entrar em casa.
Em vez disso, pasmei. Sorrindo, apoiado num contentor, mas com pose de engatatão, o Joy, que suava, e que decerto tinha vindo a correr pela José Mateus para me emboscar ali, disse-me assim: “Tamujuntu, prima? Já te lembras de como se fala português?” Olhei à volta a ver se via grupos, a ver se via gente, a ver se via escape. Não vi ninguém.
Esta crónica resulta de uma residência literária feita em Moçambique, organizada e financiada por uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Centro Camões de Maputo.

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