Como era de esperar, depois do aparecimento da internet e das plataformas digitais, os jornais, tal como os conhecíamos – escritos em colunas a uma única cor e impressos com uma tinta que manchava os dedos –, ou sucumbiram ou têm os dias contados; mesmo os que, com mais de um século, nos acompanharam ainda na casa dos nossos pais (em papel, bem entendido), acabaram por ter de se render ao virtual e, até assim, passaram pelas ameaças de fecho, insolvência e despedimento coletivo, enquanto alguns dos seus colegas mais novos vão sobrevivendo quase por milagre, mas com sérias dificuldades em pagar ordenados a tempo e horas.

Ora, há cem anos, ainda a quilómetros das novas tecnologias, havia muitíssimos jornais – e o que é curioso é que uma boa parte deles se dedicava exclusivamente ao fado, mostrando a importância que a canção de Lisboa tinha então para o país.

Inicialmente reduzidos a uma espécie de folhetos que, desde o fim do século XIX, continham umas quadras para serem cantadas, no ano da implantação da República foram fundados nada menos do que três jornais (O Fado, A Alma do Fado e O Fadinho) que correspondiam já a uma ideia moderna de imprensa.

Com cabeçalhos, capitulares, texto em colunas e outras preocupações gráficas, incluíam notícias, artigos, perfis, pequenos anúncios, caricaturas, fotografias e entrevistas.

O primeiro número do semanário O Fado, por exemplo, oferece-nos, a abrir, o obituário de Augusto Hilário da Costa Alves (o autor do famoso Fado Hilário, cantado em Coimbra pelos estudantes) feito pela pena de Luiz d’Athayde que, numa linguagem floreada própria da época, descreve a vida do falecido como “cheia de revolução orgíaca” e a sua guitarra como “sangrada em lágrimas”.

Geralmente dirigidas por quem conhece e pratica a arte do fado – como  Henrique Rego, Carlos Conde, Pedro Rodrigues ou João da Mata –, estas publicações multiplicam-se ao longo da década seguinte, em que veremos surgir uma série incalculável de títulos (O Faduncho, A Canção de Portugal, A Trova Popular, A Canção do Povo…), nunca, porém, com o êxito de A Guitarra de Portugal, que começou com Linhares Barbosa ao leme, foi das 8 às 40 páginas e teve 45 anos de existência; ou A Canção do Sul, que, apesar de pausas e atribulações várias, registou actividade entre 1923 e 1942, alimentando polémicas com a sua maior concorrente, embora (segundo os especialistas) nunca lhe chegando aos calcanhares.

De qualquer modo, não há fadista que se preze que não tenha sido capa deste conhecido quinzenário que com o tempo se foi tornando uma feira de celebridades (à maneira das revistas sociais de agora), mas que nunca deixou de prestar atenção aos novos talentos do fado, como o prova a edição de Março de 1938, em que somos imediatamente cativados pela fotografia de uma belíssima e jovem Lucília do Carmo – de xaile, chinela e perna traçada – sobre a qual uma discreta frase diz tudo: “Estrelas que despontam.”

Se hoje um jovem fadista tem de suar as estopinhas para conseguir meia página num qualquer suplemento cultural – e quantas vezes sem espaço sequer para o retrato –, deixemo-lo pensar, com toda a justiça, que bem podia ter nascido um século mais cedo…


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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4 Comments

  1. Maria do Rosário Pedreira utiliza, nesta sua crónica, três versões da novilíngua que, inexplicavelmente, circula em Portugal: o Português (aCtividade), o “acordês/brasilês” (coletivo) e o “mixordês” (a mistura do Português com o “acordês/brasilês” (aCtividade, coletivo).
    Lamento que assim seja, pois além de não contribuir para a BOA escrita, decidiu ser cúmplice da ilegalidade ortográfica, quando não é obrigada a tal, porque não existe Lei alguma que a obrigue.

  2. É uma pena que tenha cedido, ainda que parcialmente, ao Aborto Ortográfico.
    Quando leio “coletivo”, só penso em coletes ou no verbo cultivar. Coisas minhas…

  3. Boa noite
    Tenho uma centena de jornais de fado desde 1924 ate 1938 ha 40 anos adquiri de um grande fadista antigo uma colecção unica.
    Uma colecção posso enviar fotos da mesma

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