Fernando Pessoa Chiado
Foto: Ana Carvalho

Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma.” É desta forma que Fernando Pessoa define, em Nota Biográfica de 1935, a sua “posição religiosa”.

Não é de estranhar, pois, que todas as abordagens literárias de Fernando Pessoa ao Natal estejam longe ser convencionais. Ao longo da vida literária adulta, o escritor serviu-se do tema e da imagem, sim, mas sempre de forma muito pessoal, afastada dos cânones e muitas vezes reflectindo sobre temas universais da Humanidade como o renascer e o questionar, em permanência, o sentido da vida e da morte.

Ricardo Belo de Morais é escritor, investigador literário, poeta e dramaturgo. Tem publicados vários livros, prefácios, capítulos de obras colaborativas, ensaios e artigos académicos sobre vida e obra de Fernando Pessoa. É membro da equipa da Casa Fernando Pessoa. Foto: Orlando Almeida

Na actualidade; e tendo em conta que estão descobertos, identificados e decifrados quase todos os testemunhos documentais da obra poética e em prosa do escritor, ortónimo e heterónimo; mais tendo em conta que são conhecidas quase todas as trocas de correspondência pessoanas; e que os seus escritos diarísticos esparsos são conhecidos e estão dissecados, a noção de um Natal festejado por Fernando Pessoa parece inexistente – ou é, pelo menos, desconhecida.

Os próprios testemunhos recolhidos de mulheres católicas praticantes íntimas de Pessoa (como a irmã, a sobrinha, as tias maternas e a namorada) não têm traços de histórias partilhadas com Fernando Pessoa às mesas da Consoada e do Natal ou na abertura de presentes – e acontece o mesmo com as entrevistas e depoimentos recolhidos junto dos seus próximos de trabalho diário de escritório e de aventuras literárias.

Esta “aridez natalícia” pessoana é ajudada pelo facto de o escritor ter vivido sozinho quase 22 dos seus 30 anos adultos em Lisboa, entre 1905 e 1935. Mesmo sendo estimável que não lhe faltassem convites natalícios de amigos ou de parentes afastados para as festividades, muito poucos terão sido aqueles que o solitário homem múltiplo teve vontade de aceitar. Até porque desde cedo se habituou à companhia dos seus mais próximos: o Mestre e poeta da Natureza, o Engenheiro de Tavira e o Médico das Odes Clássicas.

Na esmagadora maioria das vezes que a nossa investigação encontrou textos pessoanos escritos a 25 de Dezembro, eles pertencem ao ortónimo, ou seja, a Fernando Pessoa ele-mesmo. Como veremos, a produção heterónima claramente escrita nesta mesma data reconduz-se a um poema de Ricardo Reis e um texto de Bernardo Soares, ficando Alberto Caeiro e Álvaro de Campos absolutamente “de fora” desta lista.

NATAIS COM ESCRITAS

“Uma melodia”, num manuscrito datável de 25 de Dezembro de 1912 é o primeiro registo, no espólio da arca, de um poema escrito por Fernando Pessoa num Dia de Natal. Sendo um dos mais desconhecidos poemas ortónimos, decidimos transcrevê-lo na versão fixada.

Vale a pena dizer que quando, nos estudos pessoanos, se fala em “versão fixada”, estamos na presença de um texto com “variantes”; ou seja, um poema ou prosa no qual Fernando Pessoa deixou escritas, nas entrelinhas ou nas margens do papel, segundas ou mais hipóteses de versos, frases ou palavras para uma hipotética versão final ainda a decidir.

Ao longo deste nosso artigo, reproduziremos as “versões fixadas” nos livros dos/as investigadores/as apontados na nossa bibliografia.

“Uma melodia…”, poema escrito por Fernando Pessoa no dia 25 de dezembro de 1912. Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Uma melodia
No meu ser nasceu…
Senti-a, perdia-a;
Nascendo morreu…

Relâmpago breve,
Vendo-a, não a vi;
Mas minha alma a teve,
Nova, e sua, e em si.

Com que horror de mágoa
Busco-a, em vão, em vão…
Fugiu-me da mão, água…
Nem abri a mão!

Que importa, olhos meus?
Passou por meu ser
De Deus para Deus…
Torná-la-ei a ter.

Escrito à máquina com data de 25 de Dezembro, em 1918 (mais um ano em que Fernando Pessoa continua a sua triste sina de solidão e penúria, acabado de mudar-se para um quarto na Rua de Santo António dos Capuchos), numa folha de estacionário da sua malograda firma F. A. Pessoa, surge-nos o poema “No ouro sem fim da tarde morta”.

No ouro sem fim da tarde morta,
Na poeira de ouro sem lugar
Da tarde que me passa à porta
Para não parar,

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

No silêncio dourado ainda
Dos arvoredos verde fim,
Recordo. Eras antiga e linda
E estás em mim…

Tua memória há sem que houvesses,
Teu gesto, sem que fosses alguém,
Como uma brisa me estremeces
E eu choro um bem…

Perdi-te. Não te tive. A hora
É suave para a minha dor.
Deixa meu ser que rememora
Sentir o amor,

Ainda que amar seja um receio,
Uma lembrança falsa e vã,
E a noite deste vago anseio
Não tenha manhã.

Inequivocamente batido no mesmo dia e na mesma máquina de escrever, no verso de uma folha de papel de carta da empresa que Pessoa trespassara em Maio desse ano, surge-nos “O Sol às casas, como a montes”. É mais um poema em que a data concreta, não sendo mencionada, serve de pretexto de fé para abordar o tema do nascimento e a dura consciência da passagem do tempo, não faltando o quase-pedido de perdão ao Deus que, não existindo, é um Deus também.

O sol às casas, como a montes,
Vagamente doura.
Na cidade sem horizontes
Uma tristeza loura.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Com a sombra da tarde desce
E um pouco dói
Porque quanto é tarde
Tudo quanto foi.

Nesta hora mais que em outra choro
O que perdi.
Em cinza e ouro o rememoro
E nunca o vi.

Felicidade por nascer,
Mágoa a acabar,
Ânsia de só aquilo ser
Que há-de ficar —

Sussurro sem que se ouça, palma
Da isenção.
Ó tarde, fica noite, e alma
Tenha perdão.

CARTAS FORA DO BARALHO

A versão supostamente definitiva da única Ode Ricardiana (ou, pelo menos, a mais moderna das quatro existentes do espólio de Pessoa) com a data de 25 de Dezembro vem de 1923. Corresponde exactamente à versão que será estreada no nº 1 da revista Athena, em Outubro de 1924; e é a décima terceira das 20 odes com as quais Fernando Pessoa apresenta pela primeira vez aos leitores o seu heterónimo Ricardo Reis: “XIII – Olho os campos, Neera”.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

XIII

Olho os campos, Neera,
Campos, campos, e sofro
Já o frio da sombra
Em que não terei olhos.
A caveira antessinto
Que serei não sentindo,
Ou só quanto o que ignoro
Me incógnito ministre.
E menos ao instante
Choro, que a mim futuro.
Súbdito ausente e nulo
Do universal destino.

O mês de Dezembro de 1924, ano no qual todas as suas energias e prioridades estão com a revista Athena, traz-nos apesar de tudo mais de dez poemas de Fernando Pessoa, sem dia concreto mas todos escritos no período do Advento. No meio deles, destaca-se uma pequena jóia, essa sim manuscrita no concreto dia 25: “Como a folha em móveis águas”.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Como a folha em móveis águas,
De onda em onda, em confusão,
Rola de mágoas em mágoas
Meu inerte coração.

Mas nem as águas o arrastam
Por vontade de arrastar;
Por um destino se afastam
Alheio ao seu afastar.

Assim as mágoas que apertam
Meu coração, é sem qu’rer

O único fragmento do Livro do Desassossego com indicação expressa, no topo da página, de ter sido escrito no dia de Natal (a 25 de Dezembro de 1929) é um dactiloscrito com a maravilhosa descrição de um dia feriado, que encontra Bernardo Soares no seu quarto, de manhã muito cedo, meditando na existência, embalado pelo sol que desponta depois de uma noite de chuva.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

L. do D.

Depois que os últimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos telhados, e pelo centro pedrado da rua o azul do céu começou a espelhar-se lentamente, o som dos veículos tomou outro canto, mais alto e alegre, e ouviu-se o abrir de janelas contra o desesquecimento do sol. Então pela rua estreita, do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro cauteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira reverberaram pelo espaço claro.

Era um feriado incerto, legal e que se não mantinha. Havia sossego e trabalho conjuntos, e eu não tinha que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado ao outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidade — gestos que me esquecera de fazer, ambições impossíveis realizadas sem rumo, conversas irmes e contínuas que, se fossem, teriam sido. E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastavam meus passos a manhã livre, e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam múltiplas no claustro do meu simples isolamento.

A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do ridículo que tudo quanto é humano assume sempre que é íntimo. Vestira, sobre os trajes simples do sono abandonado, um sobretudo velho, que me serve para estas vigílias matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos nos bolsos do casaco póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inútil um sonho igual aos de toda a gente.

Ainda, pela frescura aberta da minha janela única, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porém, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre os lados do Castelo os caminhos legítimos do céu todo.

Era a ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E, quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamente.

1930 A TODO O GÁS

O Dia de Natal de 1930 é absolutamente extraordinário em termos de produção poética pessoana! Nada mais nada menos que oito poemas (um deles por terminar) pertencem a esta data de um ano efervescente, no qual Fernando Pessoa termina a primeira fase do seu namoro com Ofélia, é destacado no catálogo do I Salão dos Independentes, publica extensivamente na revista Presença, escreve os dois últimos poemas datados de Alberto Caeiro, é mencionado na revista Contacts de Paris, tem o seu “encontro Magik” com Aleister Crowley em Lisboa e vê regressar, de Évora, a sua irmã Teca, grávida pela terceira vez.

Na lista dos poemas de 25 de Dezembro de 1930, encontramos “Na praia baixa a onda morre”, “Por trás daquela janela” e “Chove. É dia de Natal”, “Maria (tu és Maria?)” e “Aquela loura a olhar a rir” (é nosso entender que, apesar de escritos na mesma folha, são poemas diferentes), “Não tenho ninguém que me ame” e ainda “O sino da igreja velha”, manuscrito. Omitimos intencionalmente, desta lista, um poema que Fernando Pessoa deixou incompleto, “Vendi o meu realejo”.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Na praia baixa a onda morre
E se desfaz a chiar.
Olho, mas nada me ocorre
Senão que estou vendo o mar.

Dizem que o mar reza cânticos,
Que a onda é renda e veludo,
Mas os poetas românticos
Já venderam isso tudo.

Por isso ante o mar real
E as ondas como ali há,
Acho tudo natural.
Versos? Um outro os fará…

#

Por trás daquela janela
Cuja cortina não muda
Coloco a visão daquela
Que a alma em si mesma estuda
No desejo que a revela.

Não tenho falta de amor.
Quem me queira não me falta.
Mas teria outro sabor
Se isso fosse interior
Àquela janela alta.

Porquê? Se eu soubesse, tinha
Tudo o que desejo ter.
Amei outrora a Rainha,
E há sempre na alma minha
Um trono por preencher.

Sempre que posso sonhar,
Sempre que não vejo, ponho
O trono nesse lugar;
Além da cortina é o lar,
Além da janela o sonho.

Assim, passando, entreteço
O artifício do caminho
E um pouco de mim me esqueço.
Pois mais nada à vida peço
Do que ser o seu vizinho.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E um frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se vai mais uma quadra
Apanho um Natal nos pés.

Não quero ser dos ingratos
Mas, com este mesmo céu,
Puseram-me nos sapatos
Só o que a chuva me deu.

#

Maria, (tu és Maria?)
Gosto de ti realmente
Mas não como gostaria
Quem gosta só por que sente.

Meu gostar é diferente.
Se, sendo a mesma que és,
Tu fosses outra, e eu,
Sendo o mesmo que aqui vês,
Fosse outro, nem teu nem meu,
Este amor que Deus nos deu
Talvez desse resultado,
E então, alegres a par,
Que par, que casal, que enfado
Devidamente ajustado
Nós seríamos a amar!

E é isso a felicidade.
Por enquanto, Deus não quer
Mais que eu e tu em verdade.
Queres ser minha mulher.
Sei lá o que quero ser…

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

E entre mim e o que escrevo passa
O meneio que não olvido,
O olhar azul rindo com graça
A boca, o lenço descaído,
E já meu coração não tem
A paz que a ele e a mim convém.

#

Aquela loura a olhar a rir
Que tinha o lenço descaído
E cujo andar faz descobrir
O que há por trás do seu vestido,
Aquela loura faz-me mal
E o meu olhar foi casual.

É isto. A gente vive asceta
E acha bastante só pensar
E em plena rua vem a seta
Que um corpo é arco de atirar.
Sim, o ascetismo continua
Mas fica essa visão da rua.

Mas (não desejo exagerar)
Não pesa muito esta visão
Que vem assim arreliar
A minha firme solidão…
O mal que faz consegue conter
Toda a brandura do prazer.

Bem: vamos à filosofia,
A cada qual, inda se o nada
Acata, há sempre uma alegria
Que dá e passa e dói e agrada…
E solidão todos a têm
O caso é que procurem bem.

#

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Não tenho ninguém que me ame.
Spera lá, tenho; mas é
Difícil ter-se a certeza
Daquilo em que não se crê.

Não é não crer por descrença,
Porque sei: gostam de mim.
É um não crer por feitio
E teimar em ser assim.

Não tenho ninguém que me ame.
Para este poema existir
Tenho por força que ter
Esta mágoa que sentir.

Que pena não ser amado!
Meu perdido coração!
Etcetera, e está acabado
O meu poema pensado.
Sentir é outra emoção…

#

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

O sino da igreja velha
Tem um som familiar,
E as casas baixas de telha
Têm telhados a brilhar.
Não sei a que o sino toca
Não sei o que o sino evoca
Meu coração não coloca
As coisas no seu lugar.

Era tão feliz outrora
Que já não sei se era eu.
Aquele que sou agora
Se existe, é porque morreu.
Não tem missa na igreja,
Nem cousa alguma que seja
O que sente ou deseja.
E o sino cessa no céu.

É à missa a que vão crentes
Ou a que vai quem lá vai
Que o sino com sons frequentes
Toca esse som que lhe sai —
Seja ao que for, vai tocando
E no meu coração brando
Como uma clepsidra soando
Cada som lembrado cai.

PODE SER, PODE NÃO SER

No ano seguinte, 1931, o Dia de Natal traz-nos eventualmente dois momentos poéticos de Pessoa ele-mesmo. Pelo seguro, talvez devêssemos falar apenas num.

Explicando: a quadra “Tão linda e fina a memoro”, num fragmento de papel manuscrito a lápis, foi datada de 25 de Dezembro aquando do inventário inicial do espólio da arca pela equipa da Biblioteca Nacional de Portugal. Não foi Fernando Pessoa quem o fez. É especulável que seja uma homenagem de Fernando Pessoa à sua meia-irmã Maria Clara, que morreu em Lisboa com apenas dois anos, em Dezembro de 1906:

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Tão linda e finda a memoro!
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?

Pelo contrário, o Dia de Natal de 1931 está claramente escrito no topo da folha manuscrita onde Fernando Pessoa verteu o poema “As lentas nuvens fazem sono”.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.

E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém.
Não sou capaz de peso ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom, à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo…
E só em sono eu vou primeiro,
E só em sonho eu vou seguindo.

Finalmente, a nossa lista de escritos de Fernando Pessoa no Dia de Natal ao longo dos anos encerra-se em 1932, ano no qual o poeta produz um invulgar “Ladram uns cães à distância”, manuscrito apressado e com emendas/rasuras, de que reproduzimos a versão fixada pelas organizadoras da antologia na bibliografia:

Ladram uns cães a distância,
Cai uma tarde qualquer,
Do campo vem a fragrância
De campo, e eu deixo de ver.

Meu sonho meio sonhado,
Em que o campo transparece,
Está no ar, está a meu lado,
Ora me lembra ou me esquece.

E assim neste ócio profundo
Sem males vistos ou bens,
Sinto que todo este mundo
É um lugar onde ladram cães.

ABSOLUTAMENTE… NATAL

Terminado assim o elenco da produção literária de Fernando Pessoa no exacto dia 25 de Dezembro ao longo dos seus anos adultos, mal seria se não nos detivéssemos a analisar os textos pessoanos que não tendo sido escritos nessa data exacta, abordam directamente o Natal.

Na revista Contemporânea – a mesma onde meses antes se tinha estreado a sequência “Mar Portuguez” de Mensagem – Fernando Pessoa publica, em Dezembro de 1922, o primeiro poema a que chama “Natal”. Hermético, ocultista, céptico e – basta ler – polémico.

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

NATAL

Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Seis anos depois da publicação de “Natal” na revista Contemporânea nº 6, Fernando Pessoa insiste no título, agora para O Notícias Ilustrado, em 30 de Dezembro de 1928. “Natal… Na província neva” assenta essencialmente numa nostálgica recordação da vivência familiar. O poema voltará a ser publicado ainda em vida de Pessoa, em 1934, no Diário de Lisboa.

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Foto: Espólio Fernando Pessoa/BNP

Sendo parte de um fragmento não datado – e não podendo nós saber se foi escrito no dia de Natal -, há ainda no Livro do Desassossego um pequeno texto que fala especificamente da data. Neste manuscrito a tinta preta, encabeçado pela nota Mais “pensamentos”, pode ler-se, à cabeça, o seguinte:

Dia de Natal. (Humanismo. A “realidade” do N[a]t[al] é subjectiva. Sim, no meu ser. A emoção, como veio, passou. Mas um momento convivi com as esperanças e as emoções de gerações innumeras, com as imaginações mortas de toda uma linhagem morta de mysticos. Natal em mim!)

Curiosamente (ou não), aqui, Fernando Pessoa usa a imagem do Dia de Natal completamente fora de um ponto de vista religioso ou simbólico, antes o utilizando para transmitir a sua experiência emocional, (d)escrevendo o que o liga à herança comunitária e espiritual da Humanidade. Sempre fiel a si próprio – e ao múltiplo que foi, nesse drama em gente que fez a sua vida.


Ricardo Belo de Morais

Ricardo Belo de Morais

Ricardo Belo Morais é escritor, investigador literário, poeta e dramaturgo. Tem publicados vários livros, prefácios, capítulos de obras colaborativas, ensaios e artigos académicos sobre vida e obra de Fernando Pessoa. É membro da equipa da Casa Fernando Pessoa, em palestras didácticas e comparatistas pessoanas para todos os públicos, concebeu e guia diversos passeios literários pessoanos em Lisboa e é realizador, há sete anos, do único programa semanal de rádio do mundo dedicado ao mais universal dos escritores portugueses.

Bibliografia:

– PESSOA, Fernando, Poesia : [1902-1935] – 3 vol., ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, Lisboa, Assírio & Alvim. Ao volume I corresponde a edição 0120 (Dezembro 2005). – Ao volume II corresponde a edição 1009 (Dezembro 2005). – Ao volume III corresponde a edição 1010 (Julho 2006). – 1º vol. : 1902-1917. – 498, [5] p. – 2º vol. : 1918-1930. – 492, [3] p. – 3º vol. : 1931-1935 e não datada. – 647, [6] p. – ISBN 937-37-1059-5. – ISBN 972-37-1071-4. – ISBN 972-37-1072-2

Obra completa de Ricardo Reis, Fernando Pessoa ; ed. Jerónimo Pizarro, Jorge Uribe. – 1:ª ed. – Lisboa : Tinta-da-china, 2016. – ([Pessoa] / coord. Jerónimo Pizarro). – ISBN 978-989-671-345-4

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa; ed. de Jerónimo Pizarro. – Lisboa : Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2010. – vol.  ; 25 cm. – (Edição Crítica de Fernando Pessoa. Série Maior ; 12) ;- Tomo I: 516 p.: il. p&b. – Tomo II: 517-1094, [3] p. – ISBN 978-972-27-1849-3

Fernando Pessoa na intimidade, Isabel Murteira França [autora e entrevistadora]; pref. António Alçada Baptista ; [entrevistada: Henriqueta Madalena Rosa Nogueira Dias]. – 1ª ed. – Lisboa : Dom Quixote ; Rio de Janeiro : Livraria Paisagem, 1987. – 326 p., [15]

O meu tio Fernando Pessoa, Manuela Nogueira; pref. Richard Zenith. – 1.ª ed. – V. N. Famalicão: Centro Atlântico, 2015. – 125 p.. – ISBN 978-989-615-202-4

Fotobibliografia de Fernando Pessoa: 1902-1935, org. introd. e notas de João Rui de Sousa; pref. de Eduardo Lourenço. – 1.ª ed. – Lisboa : Imprensa Nacional – Casa da Moeda : Biblioteca Nacional, 1988. – 319 p.

– Arquivo LdoD: https://ldod.uc.pt/

– Arquivo Pessoa: www.arquivopessoa.net 

– Pessoa Digital: www.pessoadigital.pt

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2 Comments

  1. Uma vida muito solitária e profunda, mas que nós deixou grande beleza.
    Obrigado por trazer tudo isso.
    Amo Fernando Pessoa.
    Um feliz natal !

  2. Interessante levantamento a que nem se pode dizer que falte uma conclusão, pois não parece que uma conclusão fosse desejada, ou devesse ser esperada. Mas para o leitor, o que este leitor conclui é que para Pessoa 25 de Dezembro era uma data, como poderia ser 20 de Março (no meu caso, de 2026). Mas é claro que Pessoa sabia que esse era um dia feriado e que, para outras pessoas, tinha um significado especial, como talvez para ele já tivesse tido no passado (em Durban?), mas nem isso é seguro… Talvez a conclusão que serviria a Pessoa deva ser procurada no (posterior) “Dia de Natal” de Gedeão…

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