Raul Brandão é um dos mais importantes autores do século XX português, filho e neto de pescadores, cedo foi reconhecido como um dos principais intelectuais do seu tempo. Atravessou o período de grande instabilidade política e social que se sucedeu à Revolução Republicana de 1910, num clima de grande fragmentação entre grupos republicanos, monárquicos e militares, com várias mudanças de governo e dificuldades para implementar reformas e estabilizar o país num contexto de um anticlericalismo e antimonarquismo muito intenso. É neste contexto que, em 1912, escreve “El-Rei Junot”, um retrato sobre a Lisboa em 1800.
A obra é uma visão ficcionalizada dos eventos históricos – mas documentada – das Guerras Napoleónicas em Portugal, oferecendo uma interessante perspectiva dos anos imediatamente anteriores a 1800 num contexto do Portugal de 1912. Neste breve comentário ao livro de Raul Brandão iremos usar a obra do autor para embarcar numa espécie de viagem no tempo ao que era a Lisboa de 1800.
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O contraste entre a riqueza do clero e a miséria nas ruas
A obra tem um carácter marcadamente anticlerical com amplas e profusas referências à decadência da Igreja. E a crítica começa logo nas primeiras páginas, em Belém, no convento do padre Teodoro de Almeida (Convento das Salésias) onde o autor refere que as conventuais eram “raparigas criadas na sombra e no torpor” num convento que “cheira a jasmim e harém” debatendo as freiras sobre se deviam usar toucados redondos ou os de bico ou se os cantos do toucado deviam ser mais ou menos altos para que se vissem melhor os seus fios de ouro.
Em contraste, nos campos agrícolas em redor grassava a miséria, como aliás no resto deste Portugal de finais do século XVIII: um jornaleiro ganhava 8 vinténs quando um alqueire (cerca de 13 L) de milho custava entre 400 a 1000 réis (um destes réis dividia-se em 20 vinténs). Raul Brandão prossegue a sua visão crítica do clero de 1800s mencionando que na “Santa Basílica da Patriarcal” e, apenas na capela real se acotovelam, para além do Cardeal Patriarca, 4 “principais primários”, 3 presbíteros, 4 diáconos, 13 “monsenhores proto-notários”, 5 “monsenhores subdiáconos”, 9 “monsenhores acólitos”, 17 “cónegos presbíteros”, 44 “beneficiados”, 12 padres de “antiga criação” que recebiam anualmente 700 réis, 32 da “nova criação” com 500 réis e outros 32 “clérigos beneficiados” que recebiam 250 réis cada.
E o autor não nos permite esquecer os 61 capelães, os 10 mestres de cerimónias de capela nem os 7 de basílica, para além de vários cantores italianos e portugueses e mais de 60 pessoas em diversos cargos subalternos. Ou seja, mais de 320 “funcionários”: uns religiosos outros leigos tiravam o seu rendimento da Patriarcal.
Nos anos que precedem a invasão francesa de 1807 e sob a ameaça do liberalismo, a Inquisição reabre as prisões em Lisboa e noutras cidades o que consolida o sentimento popular contra esta instituição e multiplica as anedotas sobre o ódio que os frades derramam uns sobre os outros: beneditinos contra Jerónimos, loios contra bernardos, bernardos contra Jerónimos, todos contra todos. E, muito na base desta competição e animosidade popular estava o facto de Lisboa estar coberta de conventos: nas vésperas da entrada de tropas de Junot existiam, com efeito, e apenas em Lisboa, 39 conventos para 200 mil habitantes.
Por comparação, o Porto tinha 8 para os seus 60 mil e Évora 12 com os seus 16 mil. O que nem tornava Lisboa a cidade portuguesa com mais frades, contudo há que somar a estes todas as instituições religiosas que rodeavam Lisboa (algumas hoje dentro das suas fronteiras) e que faziam ascender este número de 39 para 180 tornando assim a cidade de Lisboa aquela onde vivia a maior parte dos 230 a 300 mil religiosos de Portugal quando o país tinha pouco mais de 2 milhões de habitantes (13,25% da população!).
Se os religiosos assolavam as contas e a economia do país com a sua imensa mole improdutiva, os nobres não lhes ficavam atrás. Escrevia sobre a fidalguia lusa José Agostinho de Macedo, escritor, poeta, historiador, crítico literário e jornalista que estudou no Real Colégio dos Nobres: “os fidalgos crescendo em delícias, crapula, odio, molleza e jogo, não é admirar que sejam brutaes em seus apetites”. Mais tarde, Laura Junot (aliás “Laura Permon” uma expatriada suíça que casou com Junot em 1808) também haveria de escrecer que: “A nobreza não tem educação nem talento. Passa a vida em cortesias ridículas”.

Um cenário de insegurança nas ruas
Em termos de segurança, as estradas que rodeavam a cidade eram, em finais do século XVIII e começos do XIX extremamente perigosas graças aos vários bandos de salteadores activos que, sem temor, não hesitavam em assassinar as testemunhas. A Justiça é ineficiente e caracterizada pela corrupção generalizada através da extorsão pura e simples às vítimas que procuravam justiça.
A Lisboa de finais do século XVIII, começos do XIX, está cheia de crianças vadias: pedintes, todas, pequenos ladrões, quase todas, estas crianças andavam de porta em porta e rondavam os numerosos conventos da capital: pedindo e roubando sempre que podiam para o seu próprio sustento e alimentação.
Muitas destas crianças vadias são, aliás, antigos “expostos” (crianças abandonadas nos conventos) e que quando não eram compradas por espanhóis em troca de 4 ou 6 mil réis se escapuliam para a liberdade das ruas lisboetas.
Escrevia o general francês Charles-François Dumouriez, figura parcial mas, neste concreto, credível sobre o estado da Justiça portuguesa da época: “quem cai nas mãos da Justiça só de lá sai arruinado”. Com o sistema judicial nestas condições não admira que Lisboa fosse quase tão insegura como as estradas que cercavam o seu termo: Em 1783 eram tão frequentes os roubos e assassinatos nocturnos que os lisboetas só saiam de casa em grupo ou, se fossem abastados, rodeados pelos seus criados.
Mas o crime não saia sempre impune: Raul Brandão em “El-Rei Junot” detalha um dos casos em que os malfeitores foram levados à justiça: Em 19 de janeiro de 1802 seis assassinos foram com “baraço e pregão” levados pelas ruas de Lisboa até à forca, onde depois, já cadáveres, os decapitaram, e levaram a cabeça de um, Francisco Garcia para a Tapada das Necessidades e de outro para a Rua das Trinas (“Rua das Trinas do Mocambo” no Bairro Alto). Aqui ficaram as cabeças expostas “em postes altos até que o tempo as consuma”.
Os outros membros da quadrilha foram condenados às galés ou como Catarina de Sena – a única mulher do grupo – degredados para Angola. Este bando é o mesmo que Raul Brandão descreve envolvido numa animada perseguição nocturna em 1801 em que o dito Garcia, chefe do bando, no Largo do Poço Novo (actual Largo do Dr. António de Sousa de Macedo) com “bacamartes de 4 palmos de cano” atacou na Calçada do Carmo o edifício do “correio geral”.
Perseguidos pelo “juiz do crime” do Bairro de Santa Catarina o bando escapa e, junto à Rua da Bica Grande (onde hoje encontramos o “Ascensor da Bica”) houve troca de tiros ferindo a quadrilha de 15 a 20 meliantes alguns oficiais da ronda deixando para trás um dos seus elementos que se veio depois a descobrir ser um militar no activo. De sublinhar que nesta época ainda não existia a Guarda Real de Polícia que foi apenas criada em 1801 com quartel no Largo do Carmo e que as formas da polícia eram muito pouco numerosas.
Caos na infraestrutura e administração pública
O país está coberto de más estradas e as que rodeiam Lisboa não são excepção. Mandadas construir pelo Marquês de Pombal e por Pina Manique estavam, em finais do século XVIII, muito degradadas impedindo que os produtos agrícolas chegassem em condições aos mercados da capital. Nas palavras do Duque de Wellington “pela ruína delas não podem os habitantes Lavradores transportar os frutos do seu trabalho”.
Em 1791, ordena-se a construção de uma estrada de Lisboa ao Porto, com “40 palmos de largura” mas em 1798 o serviço de diligência ia apenas até Coimbra, transportando até 4 passageiros de cada vez num serviço financeiramente deficitário dado que não havia passageiros suficientes e porque o plano de chegar ao Porto ainda não fora executado.
A maioria dos esgotos de Lisboa, em 1800, ainda correm nas ruas a céu aberto, pelo meio das ruas. Muitos habitantes atiram das janelas, para a rua, os dejectos nocturnos com o conhecido dito “água vai”. Nem mesmo todas as novas construções têm canalização interior e por vezes são mal construídas, têm fissuras ou entopem frequentemente, o que impossibilita o seu uso regular e consolida os maus hábitos.
Em “Recordaçoens”, Jacome Ratton, escreve que em muitas casas de Lisboa domina um “tal fedor que as torna inabitáveis” e que a cidade é “um objecto asqueroso pelos montões de imundícies acumulados nas ruas, por efeito do descuido inveterado de se não varrerem, e se não tirarem com a devida regularidade, não obstante as rendas que há destinadas para isto”.
O industrial, comerciante e político luso-francês atribui a situação à libertação de todos os escravos que entrassem no reino, por D. José I, em 1761, o que fizera com que, a partir de então fossem os próprios lisboetas a tratarem, eles próprios, das suas “imundícies” despejando-as a partir de então, simplesmente, nas ruas.
Em 1795 ainda se encontravam em Lisboa ruínas do terremoto de 1755. Nesse mesmo ano ordenou-se a demolição de todas as ruínas: debalde… Algumas contudo serviram para a instalação de hortas na Rua de Buenos Aires perto do Palacete dos Viscondes dos Olivais na Estrela. De sublinhar que na reconstrução da cidade o seu perímetro tinha crescido um pouco para a Lapa, Graça e Necessidades.

Lisboa era também a cidade dos cães vadios (na ocupação francesa 2 mil seriam abatidos pela administração) e os malfeitores usavam estes animais para darem o alerta da aproximação da Polícia a qual, em 1807, reclamava “são tantos e até mesmo a impertinência dos seus ladros durante o sossego, e silêncio da noite, que clamam por uma providência adequada”.
Lisboa importa praticamente por via marítima e do estrangeiro tudo o que consome. Desde o trigo para o pão (a produção nacional de trigo dava apenas para 3 meses de consumo), até ao azeite e arroz. Esta dependência da capital do comércio marítimo torna a actividade de extrema importância para a cidade e afirma-a como o centro do comércio triangular entre África, Brasil e Europa.
Raul Brandão indica que em 1789 tinham entrado no porto de Lisboa 252 navios portugueses e 640 estrangeiros numa proporção que se mantém idêntica até, pelo menos, 1804.
A administração antes do governo de Pombal era caótica e este, de facto, impõe alguma ordem nas contas públicas mas em 1799 a desordem financeira tinha regressado e, com excepção da Marinha, nenhum ministério tinha um “orçamento de despesa”.
A dívida do Estado em 1800 ascendia então a mais de 90 milhões de cruzados mas os cofres do Governo tinham apenas 12 ou 13 milhões (“contos” de “comptos”) de reis.
Em 1803 a receita anual subira e rondava os 10 mil milhões de reis mas a despesa continuava fora de controlo. As repartições públicas em Lisboa funcionavam muito mal tendo funcionários que nunca apareciam ao trabalho ou que ninguém sabia bem o que faziam, dizendo-se que em toda a Europa “era difícil encontrar uma administração de maior fausto e dispêndio”.
A arte entre o devoto e o obsceno
As manifestações artísticas na Lisboa de 1800 oscilavam entre o formal e o devoto, faltando-lhe – com algumas honrosas excepções – a originalidade e a criatividade. A censura da Inquisição e da Intendência de Polícia reprimiam qualquer desvio à norma.
Paradoxalmente, havia tolerância dos desvios para a obscenidade na poesia e no teatro… A poesia bucólica, formal e oca, prospera no “conluio de poetas” conhecido como Arcádia, protegido por Pina Manique nas casas da Casa Pia, no castelo de São Jorge.
Mas não é esta a poesia mais lida e apreciada…
São os poemas mais ou menos obscenos de Bocage, Lobo de Carvalho e José Agostinho que correm na cidade, muitas vezes manuscritos, por vezes apócrifos, quase sempre distribuídos gratuitamente e de mão em mão.
A maioria dos livros impressos e escritos em Lisboa são dedicados a príncipes e nobres e clamam pelo seu apoio financeiro derramando sobre eles elogios e panegíricos, na – muitas vezes vã – esperança de apoio financeiro. De permeio, quando passa dos limites impostos pela Intendência e Inquisição, Bocage passa pelos calabouços e é confrontado com os inquisidores em 1797, acusado de satirizar o clero e a nobreza. Consegue livrar-se da perseguição mas a partir de então dedica-se totalmente à segura tradução de autores franceses e latinos.
Apesar disso, em 1802, a Inquisição abre-lhe novo processo com a acusação de pertencer à Maçonaria. O processo é arquivado por falta de provas ou, provavelmente como bem especula Daniel Pires, devido à fraca saúde do poeta que, de facto, havia de falecer em Lisboa apenas três anos depois.
Outra das grandes figuras intelectuais da época é o padre José Agostinho de Macedo. Apesar de ser um reputado poeta, filósofo e jornalista, sobrevive com dificuldade. Outra figura maior da época, Lobo de Carvalho, poeta satírico conhecido como “Pasquim vivente” ou “Lobo da Madragoa” que vivia numa água-furtada na Madragoa, no prédio do Conde da Calheta de cujas janelas lançava sátiras e obscenidades a quem passava na rua.
Na Lisboa de 1800 funcionavam três teatros, pequenos, escuros e de fraca qualidade: o da rua dos Condes, com um café, outro no Bairro Alto e um terceiro na Rua do Salitre. Este último, propriedade do empresário João Gomes, exibia à entrada a frase “Nobre Ócio”. Muito vigiados pelas “moscas” (os agentes secretos da intendência de polícia) os teatros são alvo de profusos relatórios para o monarca onde os polícia suspeitam da “concorrência dos dois sexos” e reportam a presença de “mulheres de porte duvidoso que vão servir de escolho à virtude”.
Pina Manique recomenda, aliás, o fecho dos teatros porque “os Santos Padres condenaram os espectáculos nos primeiros séculos da Igreja”. Em 1805, obriga a condessa de Ega a abandonar o teatro por causa do “escandaloso decote”. A qualidade das peças levadas a palco oscila entre o péssimo e o muito mau. Até 1792, os homens faziam o papel de mulheres mas em 1793 inaugura-se o S. Carlos e em 1799 já se permite que as actrizes representassem nos teatros da capital e, designadamente, no S. Carlos.
A qualidade das peças e das interpretações melhora. De notar que a construção do teatro é financiada por uma lotaria tornando-se assim esta a terceira em curso na cidade, a par da do Hospital Real e da Casa dos Expostos.

Comércio e a vida na Baixa
O comércio desta Lisboa de finais do século XVIII concentra-se na zona do Terreiro do Paço e arredores. A Rua de São Bento era outro pólo comercial da cidade mas é na Baixa que prosperam os sapateiros alguns dos quais, como José Francisco, o Saloio, são muito conhecidos e prestigiados alcançando alguns a fortuna (em 1800 uma botas de boa qualidade podem custar mais de 2 mil réis quando um operário que trabalhasse na construção e conservação das estradas recebia 3 mil réis por mês).
De sublinhar que, na época, era habitual usar sebo nas botas, para que o pé entrasse mais facilmente, o que sujava as meias e tinha outros inconvenientes no que respeita ao odor…
Nas ruas da Baixa os operários trabalhavam à porta aproveitando a luz solar e ao lado, sentadas no chão, vendedoras africanas, antigas escravas vendiam castanhas, mexilhões em tigelas, assim como verduras, cravo do Maranhão e azeite.
Na zona da Ribeira Velha, na orla ribeirinha, abundavam os comerciantes de carnes que exibiam os seus produtos pendurados em ganchos. Em barracas, junto às portas das lojas, jovens raparigas vendiam um pouco de tudo, mas sobretudo arroz com açafrão, sardinha assada e chanfana.
À noite, a zona é dominada pelas tabernas, muito ruído e agitação, muitas vezes violenta. Os preços deste comércio lisboeta de 1800 são alvo de frequentes reclamações populares e até dos conventos: 12 ovos 4 vinténs (20 partes de um dos réis), a carne 100 réis o arrátel (cerca de 500 gramas), um cântaro de azeite 3 réis, o arrátel de bacalhau 80 vinténs e um arrátel de carne de porto 120 vinténs.
O Rossio é em 1800 no inverno, um autêntico charco, mas é aqui que se organiza a feira da ladra todas as terças-feiras. Mais adiante, o Passeio Público é um dos espaços mais nobres de Lisboa. Segundo Jácome Ratton era “o único refúgio que têm os habitantes de Lisboa para passearem livres de lama mas costuma estar fechado a horas que devia estar aberto”. Estava totalmente murado com janelas gradeadas e a entrada era feita por uma “cancela verde sempre podre”.
O comerciante luso-francês relata ainda que o espaço estava vedado aos “homens de capote” (as pessoas que trabalhavam como carregadores em Lisboa) mas não às “mulheres de capa” que na Lisboa dessa época desempenhavam as mesmas funções. O Passeio Público tinha sido concebido pelo arquitecto Reinaldo Manuel em 1764 no contexto da reconstrução de Lisboa como um “jardim palaciano dedicado à classe média” com fontes, bancos, e flores. Em 1800, estendia-se desde os Restauradores à Praça da Alegria.
O uso comum desta Lisboa de 1800 mandava que a missa era atendida às 8, a “janta” (almoço), tinha lugar à uma da tarde, a sesta era dormida até às 3, o lanche era tomado pelas 4, às 8, no inverno, as famílias pobres recitavam o terço à porta de casa, recolhendo-se depois e entregando a rua aos malfeitores e àqueles que saiam com escolta. A ceia encerrava o dia e tinha lugar pelas 9 da noite.
Por essa hora, até pelo menos 1807, os sinos indicavam a hora a que todos se deviam recolher às suas habitações. A essa hora acendiam-se os candeeiros que eram coadjuvados pelas velas que iluminavam as estátuas de santos nos nichos sobre muitas portas da cidade. E bem eram precisos porque os candeeiros públicos apenas preenchiam metade da cidade…
Quando os “lisboetas de bem” saiam à rua saiam com as espadas e iam visitar “alguém de consideração”, em grupo, à frente da mulher e com a restante família atrás, seguida da criadagem. Estes burgueses e fidalgos endinheirados eram as principais visitas do Real Jardim Botânico (Ajuda), do Museu do Príncipe Regente, o Museu do Marquês de Angeja (na Junqueira, em Belém), o Museu do Marquês de Abrantes (Benfica), o Museu de Luís de Vasconcelos e Sousa, ao lado do Passeio Público (hoje na parte inferior da Avenida da Liberdade), o Museu Maianense no convento da N. Sra. de Jesus (Bairro Alto), e outros de menor importância para além dos 6 “gabinetes de medalhas e antiguidades” que Raul Brandão contabiliza nessa época como estando dispersos pela cidade.
De passagem estes lisboetas abastados passavam por mulheres catando piolhos ouvindo críticas destes à falta de educação respondendo elas (não sem razão) de que “mais porcos são vocês que não catam”…
Os cafés mais frequentados da Lisboa de 1800 eram o Nicola e o Parras, de António Joaquim de Lima Parras, mais conhecido como “O Agulheiro dos Sábios”. Ambos eram muito frequentados e locais de eleição dos intelectuais e pessoas influentes na Lisboa de então.
“Agulheiro dos Sábios” pode ser interpretada como uma referência à agulha, que simboliza a precisão e a subtileza do conhecimento. Nestes cafés conservava-se sempre uma mesa para os “notáveis” sendo que os cafés serviam na época o mesmo papel que hoje cabe aos meios de comunicação social o que, aliás, causava grande desconforto nos “moscas”: “nos cafés (…) fala-se com liberdade nas matérias mais sagradas dos santos mistérios da nossa religião (…) e na soberania com pouco respeito”.
A Lisboa em 1800 enfrentava grandes desafios: a reconstrução de 1755 ainda estava incompleta, epidemias e uma sociedade estratificada e ansiosa pela iminência da ameaça napoleónica preenchia todo o espaço social e humano. Esta é a imagem, realista, crua e um tanto parcial e desfocada que nos deixa o Raul Brandão da Lisboa de 1800 numa obra cuja leitura recomendo vivamente.

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