Nascido lisboeta e filho de lisboetas, o fenómeno do “ir à terra” foi-me sempre alheio. Sem grande entusiasmo e com a resignação e a ignorância de quem ainda tinha ainda pouco mundo nas pernas e no currículo, acabei por viver erradamente o ditado de que ‘Portugal é Lisboa e o resto é paisagem’. Enquanto os meus colegas tinham uma terra para onde ir nas férias ou nos fins-de-semana alargados, eu contentava-mecom “os meus campos” urbanos: o Pequeno, Entre(campos) e o Campo Grande, os mais próximos, ou os de Ourique, (Campo)lide, de Santana ou das Cebolas, que implicavam dar corda aos sapatos ou um bilhete de metro ou autocarro para serem fruídos.
Não que tenha razões de queixa deste desterro ao contrário. Estes campos foram a minha primeira rua, o meu primeiro parque infantil. No Campo Pequeno aprendi a andar de bicicleta, em Entrecampos andei para cima e para baixo na montanha-russa da feira popular e no Campo Grande de barco a remos no grande lago.
Olhando para trás, esta dissonância entre o ir à terra e o ter de me satisfazer com os campos da urbe acabou por despertar em mim uma curiosidade crónica com o que fica fora de portas. É, aliás, curioso este sentimento tão lisboeta (e português) de sair e acontecer “lá fora” e, sempre que o fazemos, rapidamente ficamos a morrer de saudades das nossas sete colinas e do bacalhau à Brás. Os povos anglo-saxónicos chamam-lhe homesick. Claro. Não é por acaso. Afinal, “nós” parimos um Camões saudosista e “eles” um Shakespeare tragicómico.
Apesar de, como cantava o Carlos do Carmo, eu ser o típico homem da cidade, estive quase para ter o(s) dito(s) “Campos” no bilhete de identidade. Porém, a conturbada relação do meu adorado avô com o seu progenitor – um médico da Marinha com um feitio execrável, que em boa hora foi deixado pela minha bisavó e filhos naquele breve período da Primeira República em que as mulheres se podiam divorciar – fez o Campos ficar-se pela geração do meu pai e eu crescer bombardeado com as duas questões clássicas de alguémnascido na véspera de Natal e com um último apelido controverso desde os meus quatro meses de idade.
Mas adiante. Enquanto freguês de Alvalade, gostaria de voltar a debruçar-me sobre o campo que me é hoje mais próximo e um dos parques emblemáticos da cidade: Campo Grande. Conhecido como Alvalade-O-Grande, este espaço, situado numa das antigas saídas da cidade, foi zona de vinhas no século XII, campo de feiras e cerimónias militares quatrocentos anos mais tarde, ganhando, a partir de 1620, a sua primeira alameda.
Século e meio mais tarde, no pós-terramoto, Diogo Inácio de Pina Manique, o implacável “Intendente-Geral da Polícia, confere ao espaço uma nova vida, com uma feira anual, iniciada em 1778”.
Após uma requalificação paisagística profunda e bem-vinda nos últimos dez anos, que tornou o Campo Grande num dos espaços verdes mais aprazíveis de “A Cidade Branca”, houve algo que ficou por cumprir: a ligação entre as zonas Norte e Sul do jardim.
Para ser totalmente assertivo, apesar da extraordinária renovação, o jardim do Campo Grande mantém-se um pequeno grande oásis partido ao meio por uma faixa de alcatrão, que liga a avenida do Brasil à alameda das universidades, e rodeado de automóveis e carbono por todos os lados. Posto isto, fica a proposta.
Da mesma forma que o estádio de Alvalade(-O Grande) inclui um sinistro fosso onde só faltam crocodilos e que já merecia ser aterrado, está na hora de o nosso Central Park lisboeta ganhar pelo menos mais uma passagem pedestre ampla e desnivelada (em túnel e não aérea!), capaz de voltar a tornar uno o nosso prazeroso jardim do Campo Grande. Se foi possível fazê-lo para os carros que entram e saem da cidade, não me parece um empreendimento assim tão descabido numa cidade que se quer mais verde e sustentável.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Pena a revista ter silenciado a destruição dos espaços verdes de Caldeira Cabral e Ribeiro Teles junto a este jardim….. Pena a revista vir defender um velho projecto socialista que envolve um negócio de alguns milhares já acordados numa infraestrutura cuja a prioridade face ao abandono e insalubridade das zonas verdes tão perto é …. nada.