Foto: Arquivo Fotográfico da Gulbenkian.

Na minha infância, não se ia ao Tivoli (ou ao São Jorge ou ao Monumental) como aos outros cinemas. Não tenho a certeza se ainda seria assim em todas as famílias, naqueles anos imediatos ao 25 de Abril, mas o meu pai insistia em que nos vestíssemos de ponto em branco para uma ida à Avenida da Liberdade, composta de matiné e visita a uma pastelaria elegante. E lá ia eu, de sapatos de verniz, soquetes brancos e vestido de mangas tufadas, para um encontro, frente a frente, com a Bela Adormecida da Disney ou com a Julie Andrews a revolucionar o quotidiano das crianças Von Trapp, em Música no Coração.

O primeiro impacto do Tivoli no meu imaginário infantil antecedia, no entanto, a entrada na sala de cinema. Começava logo no requinte do foyer, que me parecia coisa digna de ser frequentada por “estrelas” de Hollywood. O que eu ainda não podia saber é que essa confusa sensação infantil se devia à modernidade que o arquiteto Raul Lino conferira ao palácio dedicado à cultura, que lhe fora encomendado por Frederico Lima Mayer. O mesmo, que inaugurou a 30 de novembro de 1924, com a exibição de Violetas Imperiais, um melodrama de amor e maldição, que tinha a espanhola Raquel Meller no principal papel.

O requintado foyer do Tivoli: digno de estrelas de Hollywood. Foto: Arquivo Fotográfico da Gulbenkian.

Por essa época, o cinema ainda era mudo, mas a sua popularidade era já inultrapassável: o cinema queria-se fantasia, romance e evasão, tudo maior do que a vida. Em Março de 1927, quando o Tivoli anunciou que iria exibir o novo filme da mega-estrela, Charlie Chaplin, A Quimera do Ouro, a reação dos cinéfilos foi apoteótica. Uma pequena multidão dirigiu-se à estação do Rossio para receber as bobines, escoltando-as depois, a pé, até ao Tivoli. A 27 desse mês, o filme estreou com o sucesso que tal euforia deixava antecipar.

A Avenida da Liberdade era já, nessa Lisboa que vivia os seus loucos anos 1920, o local procurado pelas elites na hora de escolher um bom entretenimento.

Mesmo em frente ao Tivoli, Adolfo Lima Mayer, irmão de Frederico, inaugurara o Parque que perpetuou o apelido da família, destinado a apresentar aos lisboetas o melhor do teatro ligeiro nacional. Não muito longe, na Praça dos Restauradores, estava o Condes, explorado já nessa época pela distribuidora Filmes Castello Lopes, e na rua das Portas de Santo Antão, o Coliseu e uma série de night clubs em que se dançava o fox-trot ou o charleston com um frenesim digno de Londres ou Paris. 

Mas foi no Tivoli, com a sua sala capaz de acolher mais de 1000 espectadores, que, em 1925, António Ferro fundou uma companhia de teatro de estética modernista, a que deu o nome de Teatro Novo. Isto, enquanto no écran, se exibiam filmes como O Último dos Homens, de Murnau, O Anel dos Nibelungos, de Fritz Lang ou Lisboa, crónica anedótica, de Leitão de Barros. 

Foto: Reprodução.

A excelência  da programação foi sempre o cartão de visita desta sala, fosse o espetáculo de cinema, teatro ou música. Em dezembro de 1926, estreou-se nos concertos do São Luiz um jovem recém-chegado de Londres, com uma carta de recomendação de Bruno Walter, que era irmão do mais famoso compositor português, Luiz de Freitas Branco. Lima Mayer foi ao concerto, composto por peças de Schubert, Berlioz, Wagner, Borodin e, a fechar, o Prelúdio à Tarde de um Fauno, de Debussy., e deixou-se cativar pelo talento do jovem Pedro de Freitas Branco. Em breve, convidá-lo-ia para dirigir os concertos sinfónicos de Lisboa, função que este só deixaria em 1932, quando rumou a Paris a convite de Maurice Ravel. 

Muito mais viria nos anos seguintes, com concertos de Arthur Rubinstein, Orquestra Filarmónica de Viena ou Yehudi Menuhin, entre muitos outros, ou atuações, nas áreas do teatro e da dança, da Comédia Française, Marcel Marceau, Companhia de Teatro Cacilda Becker (grande nome do teatro brasileiro de meados do século XX) ou Ballet da Ópera de Paris. À excelência de tais programas não seria estranha a amizade de Frederico e Augusto Lima Mayer com os Duques de Cadaval, nomeadamente com Olga, grande mecenas e divulgadora de intérpretes internacionais, que os terá ajudado a trazer a Lisboa alguns desses grandes nomes, cabeças de cartaz em qualquer parte do mundo.

O Tivoli era então, há que dizê-lo, uma sala de elites. Num saboroso texto intitulado Cenas de lutas de classes nos cinemas de Lisboa, João Bénard da Costa evoca os anos da sua juventude, muito passados  no “escurinho” do cinema: “Estava sempre alguém no São Luiz, como estava sempre alguém no Tivoli, que também se podia pronunciar Tívoli. Noutros cinemas – Éden, Politeama, Gymnasio ou Condes cuidadosamente hierarquizados por esta ordem – as possibilidades de lá haver alguém eram menores, mas ainda decrescentemente consideráveis (…).”

Foto: Arquivo Fotográfico da Gulbenkian.

Para este prestígio, contribuíam ainda as terças-feiras clássicas, a que as senhoras acorriam com as toilettes criadas por Ana Maravilhas ou Candidinha. Eram sessões especiais, dedicadas a filmes menos comerciais, comentados por grandes nomes da nossa Cultura, desde Vitorino Nemésio a Sophia de Mello Breyner Andresen, de Delfim Santos a Jorge de Sena, numa iniciativa da JUBA – Jardim Universitário de Belas-Artes. Mas também  houve as sessões que ficaram para a História apenas pelo glamour irradiado, como aquela em que, em 1954, o Tivoli se tornou o primeiro cinema da Península Ibérica a apresentar o sistema de Cinemascope. A obra exibida era o drama de inspiração bíblica, A Túnica, mas o verdadeiro espetáculo estava na plateia onde se sentavam, a convite da administração da sala, o rei de Itália no exílio, Umberto, e os condes de Barcelona, acompanhados pela Infanta Pilar.

Com o passar do tempo, a sociedade portuguesa foi-se modificando, apesar da resistência oferecida pelo ditador, mas o Tivoli manteve o prestígio social e o sucesso de bilheteira. Nos anos 1960, ficarão para a história as 62 semanas consecutivas em cartaz de Música no Coração, os filmes da Disney, os bailes de máscaras para miúdos e graúdos no Carnaval e as festas de Natal de empresas, como aquela, em que, em 1972, aos cinco anos, me vi subitamente no palco para entregar um ramo de flores maior do que eu a uma senhora de cabelo louro e vison verdadeiro, que era a empregadora do meu pai. O caso foi filmado, passou durante umas semanas nos jornais de atualidades, inaugurando e encerrando, assim, a minha “carreira” cinematográfica.

Foto: Arquivo Pessoal.

No ano seguinte, e não por causa disso, os Lima Mayer venderam a sala à Lusomundo. Os multiplexes já dominavam a cidade e, aos poucos, aquele palácio modernista foi-se esvaziando e transformando num formidável anacronismo, plantado no coração de Lisboa. Um dos últimos filmes que lá terei visto, na adolescência, terá sido Gandhi, vencedor de muitos Oscars. Apesar disso, dos 1100 lugares não estariam ocupados mais de 50, com a sala a evidenciar cada vez mais a falta de obras, o desconforto e o abandono. 

O encerramento chegou em Julho de 1989, tal como já acontecera ao Monumental e aconteceria no final desse ano ao Éden, o fabuloso edifício concebido por Cassiano Branco, e, mais tarde, ao São Jorge e ao Condes.  Mas, ao contrário do que aconteceu com o Éden e sobretudo com o Monumental, demolido sem dó nem piedade em 1982, para o Tivoli houve um final feliz. Paulo Dias, da Uau, a empresa que explora a sala, fala-nos em espetáculos, muito diversos entre si, que “têm uma ocupação média de 90% da sala”. O “segredo” parece estar “em assegurar uma programação muito variada, dirigida a vários tipos e públicos, com teatro, ballet e vários géneros de música.”

Ao comemorar cem anos (quantas salas de espetáculos do mundo podem orgulhar-se do mesmo?), o Tivoli, tal como a Avenida da Liberdade onde se insere, voltou ao brilho e à luz de outrora, quando as avós, ansiosas por uma boa bisbilhotice, perguntavam: “Estava lá alguém?” Só os visons, felizmente, passaram a ser falsos.


Maria João Martins

Maria João Martins

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1 Comment

  1. Pois é que saudades desses Cinemas . !
    Costumava ir com o meu marido sempre aos filmes apresentados que eram filmes de qualidade.
    Esperemos que algum seja aberto para nos deliciarmoas nessas salas !

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