Há 20 anos, João “Branko” Barbosa transformava uma antiga florista em Campo de Ourique no estúdio da sua nova editora independente. Estava plantada a semente para aquilo que viria a ser a Enchufada, reputado selo que mantém até hoje, altura em que assinala precisamente as duas décadas de carreira.

Desde então, foi um dos motores do fenómeno internacional Buraka Som Sistema, lançou o percurso a solo e mudou-se da Amadora para este bairro lisboeta, Campo de Ourique, a que agora chama “casa” — e onde sempre teve raízes familiares.

Foto: Rita Ansone

Ouça esta playlist de Branko, enquanto lê:

Cresceu na Venteira, perto da estação de comboios, do Parque Central da Amadora e do famoso centro comercial Babilónia, numa zona onde a sua avó tinha uma loja de relógios e ouro. Os outros avós, os paternos, moravam na Rua Arco do Carvalhão, em Campo de Ourique.

“Já existia uma relação muito grande e cresci entre os dois sítios. Se bem que, obviamente, passava mais tempo na Amadora. Então, quando surgiu uma boa oportunidade aqui, pareceu-me a altura certa para me aproximar um pouco da cidade”, conta.

Tinha 28 ou 29 anos, a filha acabara de nascer e mudou-se para perto do Jardim da Parada, onde ainda mora, 15 anos depois.

Foto: Rita Ansone

Entre a Amadora e as lojas e clubes do centro de Lisboa

Que som tem esta Lisboa dele? Em março, Branko lançou “Soma”, o quarto álbum de originais — composto a partir de jam sessions com músicos que para si personificam o som de Lisboa, de João Gomes a Iúri Oliveira.

A cidade e as periferias foram sempre uma inspiração maior – já Campo de Ourique tornou-se no “poiso” de descanso e conforto, para relaxar entre viagens e concertos.

YouTube video

Há 25 anos, quando se fez adulto, a sua noção de Lisboa era muito diferente. “Para mim, a Amadora e Campo de Ourique ficavam em duas cidades independentes. Sempre tiveram energias muito diferentes, mas, ao mesmo tempo, complementares. A ideia da Grande Lisboa aplica-se muito mais hoje.” 

Para ele, a Amadora era a cidade residencial e pacata onde tinha crescido com a família e os amigos. Juntos, embarcavam no comboio rumo ao Rossio para descobrir as lojas de discos e de streetwear da Baixa e os clubes do Bairro Alto. “Se crescesses com gostos um pouco alternativos, tinhas sempre de fazer esse circuito. Para nós era um mundo que só experienciávamos ali, no final do dia voltávamos para casa.”

Foto: Rita Ansone

Campo de Ourique era também um bairro muito diferente do que é hoje. “Muito polarizado, porque existia o Casal Ventoso, um supermercado de drogas a céu aberto na zona da Meia Laranja e da Maria Pia para baixo. E depois havia um bairro mais nobre, das famílias com aqueles nomes pomposos. Era um contraste interessante e completamente diferente da Amadora.”

Ao crescer, não se sentia particularmente do centro.

Aliás, o centro era o “ponto de encontro” das tais lojas e clubes onde convivia com pessoas que vinham de Almada, Odivelas ou da Linha de Sintra. “Nem sequer nunca senti que havia propriamente pessoas do centro. Na minha cabeça, todas as pessoas estavam a vir de todos esses pontos das periferias.”

Aos poucos, enquanto ia frequentando espaços como o Captain Kirk, Purex ou o Clube da Esquina — tão importantes quanto lojas como a Big Punch — foi-se apercebendo da movida mais central. “Foi quando comecei a pensar: se calhar não preciso de morar na Amadora, de voltar de comboio todos os dias.”

Chegou a questionar-se: “porque é que não há uma loja assim na Amadora? Porque as pessoas vêm todas da Amadora para estarem à frente desta loja há três horas a falar sobre nada e sobre coisas que estão dentro da loja que nunca vão poder comprar. Quem diz lojas diz clubes… Estão 50 pessoas da Amadora nesta discoteca, porque é que não há uma discoteca na Amadora?”

A dinâmica dos sítios centrais enquanto pontos congregadores das diferentes periferias explica o fracasso de espaços descentralizados que funcionaram como experiências sem grande longevidade.

Foto: Rita Ansone

Foram esses convívios em comunidade em torno das lojas e clubes que fomentaram o espírito criativo de Branko e que acabaram por formar a ideia de uma Lisboa musicalmente ímpar.

Por um lado, de forma inconsciente, tinha crescido a ouvir kuduro ou kizomba na Amadora, tendo em conta a diversidade cultural e a vivência africana na cidade. Por outro, ao educar-se musicalmente com Kalaf ou DJ Johnny nos passeios que faziam por Lisboa, foi aprimorando o gosto e aprofundando os seus conhecimentos. 

Para si, Lisboa tinha todas as características para ser a cidade-berço de um género musical. “Quando paravas para pensar como é que os grandes géneros surgiram, olhavas para a cidade e estava lá tudo. Uma comunidade isolada, com uma linguagem e uma forma de estar própria…. Foi só uma questão de fazermos os beats certos para encaixarem naquilo que estava na nossa mente.”

A vida de Branko nesta Lisboa aberta e inclusiva, mas também gentrificada

Ao contrário da Amadora e do circuito das lojas e clubes do centro de Lisboa, Branko não sente que Campo de Ourique o tenha “contaminado musicalmente”. Mas era precisamente isso que procurava quando se mudou para o bairro: um sítio tranquilo, residencial e próximo do centro — bem como do aeroporto.

Foto: Rita Ansone

Campo de Ourique não é sequer um “bairro muito virado para a cultura”.

“Tem uns restaurantes fixes, um bom ambiente familiar para os teus filhos, mas não é propriamente um bairro no qual sintas que estás a fazer parte de algum pulsar cultural. Se calhar hoje nem consigo encontrar um bairro em Lisboa que tenha esse pulsar — voltámos a meio dos anos 90 e tens uma série de pessoas que estão a fazer coisas incríveis na cidade mas que vêm de outros sítios.”

E as obras do Metro de Lisboa no Jardim da Parada — onde será instalada a estação de Campo de Ourique — são um tema incontornável no bairro. “Havendo estações de Amoreiras e Estrela, não sei até que ponto seria necessário uma terceira. Se desse para não criar essa disrupção no Jardim da Parada, achava interessante. Mas por outro lado consigo ver as vantagens e não tenho aquela postura burguesa de quem tem três carros por família e acha que o metro vai estragar tudo.”

Branko acaba por nos levar ao célebre Cemitério dos Prazeres, que tem uma vista ampla sobre o Vale de Alcântara. Apesar da sua natureza, é um sítio muito frequentado para passeios — e até se organizam ali tours, graças à quantidade de ilustres que ali repousam para a eternidade.

Foto: Rita Ansone

Passamos ainda pelo Mercado de Campo de Ourique, que mantém o mercado tradicional mas também tem uma área comum de restaurantes, onde Branko tanto compra fruta como costuma almoçar.

Representa bem aquilo no que Campo de Ourique se tornou ao longo dos últimos anos: um bairro com muito comércio de rua que equilibra lojas tradicionais com negócios modernos e cosmopolitas, muito graças à influência francesa que ali se sente. “No pós-pandemia sinto, sem dúvida, que houve um rebentar de negócios, muitas tentativas, até coisas para as quais olhas e vês logo: ninguém fez um business plan para isto, vai fechar daqui a três meses. Há coisas que se calhar funcionam em Avignon mas que aqui em Campo de Ourique nem por isso”, diz.

O músico diz que o bairro mudou muito nos últimos anos, com uma certa renovação de gerações e a vinda de vários estrangeiros. “Tenho curiosidade por espaços e coisas novas, gosto de experimentar, mas há espaços que estão mesmo a falar sozinhos e esse é o problema da gentrificação.”

Assume ter “sentimentos mistos” quando se fala na gentrificação da cidade, dada a sua visão aberta do mundo:

No caso de Campo de Ourique, sente que acaba por funcionar como uma espécie de bairro-modelo para uma série de experiências.

Foto: Líbia Florentino

Um dos melhores exemplos que Branko encontrou no seu bairro — até se tornou um cliente habitual — é o Red Nose, um bar de vinhos naturais.

A 28 de novembro, Branko estreia-se em nome próprio na icónica sala lisboeta. “Sempre quis fazer o coliseu. Para mim é a sala por excelência de Lisboa e aquela que sempre tive a ambição de fazer — desta vez quase como uma celebração não oficial dos 20 anos de carreira e de apresentação do novo álbum. Não há nenhum momento na minha vida, quando estou para lançar alguma coisa, que não pense nessa ideia: será que é agora que vamos para o Coliseu? Agora sentimos que era o momento certo.”

A música de Lisboa vive o “melhor momento” de sempre, mas falta uma aposta pública?

“Soma” reflete a “cidade plural” que sempre foi a musa de Branko. “Está ali a história da música recente da cidade. Claro que a mim interessa-me trazer isso mas depois convidar um grupo brasileiro ou uma referência da música tradicional portuguesa”, o que também diz muito sobre a visão cultural abrangente que tem sobre Lisboa.

Buraka Som Sistema foi um fenómeno que emergiu dessa cultura própria da capital europeia culturalmente mais próxima de África, de uma Lisboa mulata que depois tanto se refletiu nas cordas dos Dead Combo como nos ritmos de DJ Marfox, passando pelas letras de Dino D’Santiago.

YouTube video

A narrativa de uma “Nova Lisboa” — diversa, inclusiva e vanguardista — em que as tradições portuguesas e dos PALOP se casam com a modernidade, fez com que a cidade atravesse, para Branko, o seu melhor momento musical de sempre. E o músico foi um dos principais arquitetos desses alicerces, produzindo para inúmeros artistas, e promovendo as festas Hard Sessions, e, depois, Na Surra.

Para si, tirando o ecossistema musical e criativo — muitas vezes independente, com poucos recursos — não tem havido qualquer tipo de aposta pública na promoção desta linha musical que tanto representa Lisboa (e Portugal) lá fora, promovendo a diversidade cultural e a inclusão. 

Foto: Rita Ansone

Da sua perspetiva, seria sempre necessário um trabalho feito por uma “entidade exterior”, algo que nunca aconteceu, nem sequer com a intenção de “ganhar dinheiro e marketizar esta realidade”. 

YouTube video

Ricardo Farinha

Nasceu em Lisboa e sempre viveu nos arredores da capital, periferias que lhe interessam particularmente. Conta histórias em modo freelance, sobretudo ligadas à área da cultura.


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *