E se Ulisses decidisse voltar a Lisboa, dois mil e tantos anos depois? E se ao navegar pelo Tejo, o mítico herói grego fosse seduzido pelo canto de uma sereia moderna, a fadista de Alfama de madeixas negras e um dragão tatuado no ombro? E se, mesmo alertado pelos seus bons e fiéis homens, abandonasse o barco para uma volta pela Olisipo que carrega o seu nome?
Penélope poderia mais uma vez esperar, mesmo sem a necessidade de longas noites a tecer e desfazer sudários e outras vestimentas, afinal, em Ítaca, logo ali na esquina, também havia uma filial da Zara.
Penélope o esperaria, Ulisses sabia disso, também ele havia ouvido aquela velha canção do Chico, a do mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas.
Sabia também dos perigos de voltar a Lisboa. Da última vez, evocou a ira da rainha-serpente, regente da então Ofiúsa que, ao ser abandonada por ele, serpenteou furiosa no encalço do herói em fuga, ao ponto de cindir uma única montanha nas atuais sete colinas da cidade.
Nenhum perigo enfrentado durante a sua odisseia, porém, havia preparado o herói para o que viria pela frente nessa nova Lisboa.
Ao aportar no Cais do Sodré no seu pequeno barco a remo, com a lua como testemunha, Ulisses não reconheceu Lisboa. Começou, portanto, a expedição com o reconhecimento do terreno e decidiu usar o antigo estratagema de penetrar a muralha da cidade no ventre de um disfarce.
Se funcionou com os atentos troianos, funcionaria com os distraídos lisboetas. E na falta de um cavalo de madeira, valeu-se de uma pequena carroça de ferro sem animais a puxá-la que os locais chamavam de tuk-tuk. E foi assim, a chocalhar num tuk-tuk que Ulisses circulou por Lisboa.
Ulisses ouviu o condutor narrar inúmeras histórias – algumas poucos verossímeis, mas os trovadores são assim mesmo – relatos sobre a cidade, seus invasores, suas batalhas e os dias sombrios após o grande terramoto, mas também a respeito de sua beleza, a hospitalidade do seu povo e os sabores da sua gastronomia.
Lá pelas tantas, ouviu ainda o condutor citar o seu nome, o que o envaideceu, embora não tenha gostado de ser referido como uma lenda.
Ulisses pagou a viagem de tuk-tuk com moedas de ouro e achou tudo muito mais caro do que a primeira vez. “É a inflação”, justificou o condutor, e Ulisses ficou a pensar que mitológica besta seria aquela, um terrível monstro com dez cabeças que até ouro devorava.
Já de manhã, voltou à velha rua dos Lupanares. Quem sabe não encontraria um abrigo para repousar e até uma companhia para aquecer-lhe as costelas. Estranhou o chão pintado em cor de rosa, mas de resto, tudo lhe parecia o mesmo, a mesma orgiástica horda de estrangeiros a dançar, beber e beijarem-se nas ruas.
Dionísio deveria estar orgulhoso.
O tempo passou e a experiência de Ulisses com a nova Lisboa foi do encanto para a irritação. A começar pela fadiga de não dormir em paz. Longas noites em claro no Cais do Sodré, um herói insone derrotado pelo ruído da música estridente, estilhaços das garrafas partidas e gargalhadas de escárnio a cortarem a madrugada.
Isso, no começo.
Logo, logo, as moedas de ouro rarearam até nada restar. A tal inflação era um flagelo esfíngico, do tipo decifra-me ou devoro o teu orçamento, e de Édipo ele não tinha nada. Ulisses viu-se então obrigado, pela primeira vez nos seus dois mil e oitocentos anos de vida, a trabalhar. Uma tarefa que se mostrou mais hercúlea do que os 12 trabalhos de Hércules.
A começar, por não ter documentos. Na Grécia de oito séculos antes de Cristo ainda não haviam inventado o passaporte. Buscou ajuda e um estrangeiro com jeito de um pacífico huno indicou-lhe a agência de migrações. Ulisses para lá rumou decidido. Porém após um, dois, trinta, cem dias de fila, sob o sol e chuva, não teve sucesso.
Lembrou-se de Sísifo a rolar interminavelmente a sua pedra montanha acima para, no outro dia, recomeçar o martírio. Estaria ele também sendo punido por Zeus?
Sem autorização de residência, restou a Ulisses aceitar um trabalho qualquer.
Um lisboeta gordo e de um olho só como o cíclope Polifemo, apresentando-se a si mesmo como sendo um liberal, ofereceu-lhe uns reles cobres para andar por Lisboa montado num cavalo de duas rodas. “É o que resta aos imigrantes ilegais“, disse-lhe o liberal.
Nem na ilha de Circe, onde toda a sua tripulação foi transformada em animais, Ulisses foi tratado como um ser-humano ilegal. Os liberais pareciam um povo cruel. Mas o herói não tinha alternativas e, assim, o heroi, agora metade homem, metade bicicleta como um centauro pós-moderno, começou a trabalhar como entregador de comida.
Zeus certamente estaria por trás disso, afinal, só os gregos da mitologia poderiam pensar num castigo tão doloroso como passar o dia inteiro faminto a levar comida quentinha e cheirosa nas costas aos outros.

No sujo colchão pousado no chão de um apartamento onde vivia com outras dezenas de almas, Ulisses lembrou-se da musa Calipso a mantê-lo preso por anos com as promessas de uma vida eternamente feliz. Avistou a Ursa Maior pela janela e sonhou em voltar a Ítaca, aos tépidos e macios braços de Penélope.
Mas parecia impossível.
Ulisses sentia-se um Teseu preso no labirinto do Minotauro, o filho bastardo de Minos, rei de Creta, nascido da relação da rainha Pasífae com um lindo touro branco. Os cretenses tinham lá suas perversões, mas Ulisses logo descobriu que mais perverso do que os vizinhos cretenses era a raça dos cretinos.
Cretinos como os líderes que gastavam a palavra democracia em vão, a democracia uma herança do seu povo à civilização, agora a serviço da tirania.
Em nome da democracia, os novos centuriões montavam operações nas ruas para caçar ilegais como o próprio Ulisses, sob os aplausos dos mesmos liberais que lucravam com os ilegais.
Uma caçada que enchia de alegria o peito de uma raça ainda mais inferior, nascida das chagas pútridas da açoitada democracia, composta por homens de braços direitos extremamente enormes, mas sem coração e alma, herdeiros direto do barqueiro Caronte cujo único objetivo na vida era reabrir a caixa de Pandora e conduzir todos ao inferno.
E assim, encolhido no sujo colchão, pela primeira vez o herói chorou.
Ulisses chorou de pena dele e dos outros imigrantes. Devastado pelo destino reservado a esse enorme contingente de seres humanos considerados ilegais, perseguidos e vilipendiados pelos homens, esquecidos pelos deuses.
Pois Ulisses sabia que, diferente das fantasiosas tragédias criadas pelos seu conterrâneos gregos, para os ilegais agrilhoados à burocracia como Prometeu à águia, não havia uma milagrosa saída deus-ex-machina para um final feliz.
Apenas o doloroso destino do sofrimento sem fim de Sísifo e Prometeu.

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