É uma loja com história. Ultimamente, com histórias muito engraçadas. Fundado em 1986 pelo vocalista e guitarrista dos Trovante, Luís Represas, o bar Xafarix, em Santos, foi durante décadas sinónimo de boa música ao vivo na noite lisboeta. Isto até, em 2023, ver na mudança do perfil da população lisboeta uma nova vocação e passar a abrir o seu palco aos comediantes. 

Aos comediantes de todo o mundo.

Sede da Republic of Comedy, o Xafarix tornou-se o mais charmoso ponto de encontro dos humoristas estrangeiros que escolheram Lisboa para viver. Entusiastas na arte do stand up comedy como a trupe Lisbona La Prima, composta por cómicos italianos que vivem em Lisboa, e também por artistas de outros países da Europa e da Ásia, entre eles o comediante indiano Ash e a chinesa Xinyi.

O italo-alemão Francesco Kirchhoff repetiu em Lisboa o modelo que conheceu nas noites de Berlim. Foto: Líbia Florentino.

A mudança de azimute da música para o humor foi o resultado de uma sociedade luso-germânica, quando o empreendedor de turismo Pedro Pereira assumiu a gestão do Xafarix em meados de 2023 e convidou o humorista italo-alemão Francesco Kirchhoff para ajudá-lo na missão de reverter a baixa frequência de clientes registada nas noites do histórico bar. 

Homem do turismo com experiência em negócios na Costa da Caparica, Pedro Pereira percebeu que os portugueses paulatinamente haviam se afastado do frenesim no Cais do Sodré e arredores, substituídos pela avalanche de efusivos turistas e de residentes estrangeiros, muitos deles fãs do stand up nos seus países de origem e órfãos de uma noite dedicada ao humor na sua língua natal ou no idioma universal, o inglês.

Sem temer ser acusado de heresia em ousar alterar a rota do bar que desde 2019 faz parte da lista das Lojas com História de Lisboa, o empresário confiou na expertise do humorista Francesco Kirchhoff para escolher os convidados, organizar a agenda e comandar as noites de humor internacional do Xafarix.

Pedro Pereira apostou no bom-humor dos estrangeiros para voltar a encher o Xafarix. Foto: Líbia Florentino.

“No final, o Xafarix mantém sua vocação original. A comédia honra a tradição de um bar com história em Lisboa, onde quem entra sai feliz”, resume Pedro Pereira.

O resultado refletiu-se na frequência, antes da mudança resumida à meia-dúzia de clientes, e que agora cresceu exponencialmente. 

Nas noites de quarta-feira a sábado, não é raro encontrar os 56 lugares da casa no número 69 da avenida D. Carlos I tomados por lisboetas de várias partes do mundo, divertindo-se com piadas especialmente centradas no ponto de vista da experiência de um estrangeiro a viver em Lisboa. 

O que faz das sessões de humor no Xafarix um programa interessante também para os “locais” portugueses que dominem o italiano ou inglês e uma oportunidade de verem a cidade onde vivem pelos olhos desses bem-humorados vizinhos.

Lisboa na visão dos vizinhos italianos

No palco do Xafarix, o italiano Jacopo Spaziani de microfone na mão fala das diferenças entre a sua Roma natal e Lisboa. O assunto é o comportamento no trânsito, especialmente em relação à strisce pedonali, a passadeira dos peões, um objeto meramente ilustrativo para os mundialmente mal-afamados condutores romanos. 

Jacopo lidera o grupo de humoristas italianos que vivem em Lisboa: comparações entre os países e “críticas leves” aos lisboetas. Foto: Líbia Florentino.

De microfone em punho, Jacopo conta que, em Roma, a passadeira serve apenas para o condutor aprimorar a mira na hora de acertar o incauto pedestre, ao contrário de Lisboa, onde o costume é pararem para ceder a passagem. Um comportamento que gerou uma certa estranheza.

“No início, pensava que o carro havia parado na passadeira porque estava avariado. Só depois, percebi que nove em dez vezes os motoristas portugueses param. E quem não para, ainda levanta a mão a pedir desculpa”, narra o comediante em italiano, para uma assistência lotada de compatriotas no Xafarix.

“Daí, quando o motorista acenava, eu acenava de volta, pois achava que era um português gentil a dar-me as boas-vindas a Lisboa”, remata.

Jacopo é o líder do grupo Lisbona la Prima, composto por quase uma dezena de comediantes italianos que vivem em Lisboa. Cómicos part time, para ser mais preciso, que dividem as noites no  palco com o expediente matinal nos mais variados tipos de trabalho, o mais frequente deles nas empresas de gestão de redes sociais. 

Foi uma proposta semelhante que trouxe Jacopo de Roma a Lisboa, após a mãe do romano ter voltado de uns dias de férias em Lisboa. 

“Em Itália, encontrar trabalho tem sido uma tarefa impossível e a minha mãe, quando voltou de uma viagem a Lisboa, trouxe um anúncio de emprego destinado a nativos em italiano. Enviei um email na sexta-feira e, na segunda, já estava embarcando para Lisboa”, recorda-se o comediante. 

Os Lisbona la Prima no momento especial, a apresentação no Cinema São Jorge durante a Festa do Cinema Italiano em Lisboa. Foto: Alessia Bonfanti.

À época, o conhecimento de Jacopo sobre Portugal era praticamente nulo. “Achava que ficava algures em Espanha”, reconhece, entre risos. Mas isso não o impediu de arriscar. A data da viagem ficou marcada na memória do comediante, 18 de fevereiro, dia em que o italiano faz aniversário. 

Na nova casa, Jacopo aos poucos retomou a escrita dos stand up, no início em inglês. Mas ao notar o acentuado crescimento da comunidade italiana em Lisboa – a quarta população imigrante em Portugal, atrás de brasileiros, britânicos e cabo-verdianos – não teve dúvidas de que existia um público para o humor na língua materna.

Em 2023, Jacopo começou então a reunir compatriotas lisboetas. Uniram-se ao grupo Angelo Bios, Micol Costa, Enrico Di Lello, Caterina Guarini, Flavio Spaziani, Carolina Boldoni e Eugenia de Florio, que se revezam nas apresentações do Lisbona La Prima não só no Xafarix, mas também no bar La Sharada, um dos redutos da comunidade italiana em Lisboa.

Apresentações que culminaram com a grande aparição no Cinema São Jorge e no Cine-Teatro Turim, convidados pela Festa do Cinema Italiano de Lisboa, em abril. 

Para Jacopo, que em setembro se estreou num espetácolo solo, o segredo é manter o equilíbrio entre as memórias da Itália e as experiências em Lisboa, com direito a uma “crítica leve” aos donos da casa.

Críticas como a do comediante compatriota Angelo Bios na noite de apresentação acompanhada pela Mensagem, quando o italiano foi escalado para o warm up da apresentação do grupo e usou como mote um problema vivido pelos lisboetas durante o inverno: as casas frias.

“Quando recebi a mensagem do Jacopo dizendo que teria a missão de aquecer a sala, pensei logo no tamanho do desafio, pois toda a gente sabe que de novembro a março é impossível ter uma assoalhada aquecida em Lisboa”, contou.

Angelo Bios: realidade do inverno lisboeta como mote para quebrar o gelo. Foto: Líbia Florentino.

O humor indiano contra os estereótipos

Integrante do Lisbona la Prima pelo seu lado italiano, o comediante e empreendedor Francesco Kirchhoff começou no stand up curiosamente pelo lado normalmente tido como mais sério: o alemão. Foi na multicultural Berlim que Francesco conheceu os primeiros clubes de comédia dedicados aos estrangeiros que viviam na cidade.

O indiano Ash usa o estereótipo que as pessoas fazem do indiano para fazer humor e uma crítica à sociedade. Foto: Líbia Florentino.

O modelo de negócio berlinense inspirou o Republic of Comedy, uma aposta no caldeirão cultural da capital portuguesa. “Na Europa, só em Berlim, e agora em Lisboa, é que existem noites de stand up em italiano”, revela Francesco. Apesar da façanha, a imensa maioria dos espetáculos no Xafarix são, por motivos óbvios, em inglês.

O idioma é o preferido até mesmo por comediantes portugueses, como Manuel Godinho, e alguns brasileiros que eventualmente sobem ao palco. “Muitos têm carreira internacional e estão acostumados a apresentarem-se em inglês”, explica Francesco, que colocou o Xafarix no roteiro das digressões dos comediantes europeus e de outros continentes.

Outros fizeram o sentido inverso, começaram por Lisboa e agora apresentam-se no exterior, como o indiano Ash, um ex-nómada digital que se fixou em Lisboa em 2017, onde é proprietário do café Selva, na Ajuda. 

Após horas de microfone na mão, seja no Xafarix ou também nas noites de humor que mantém no seu café, Ash tem matado as saudades dos tempos de nómada na digressão do seu espetáculo solo, Heartbroken in Portugal, por capitais europeias. 

Aos 37 anos, Ash é um dos pioneiros nas apresentações de stand up em inglês em Lisboa. Em 2018, subiu ao palco de um clube no Chiado ao lado de outros oito comediantes, entre profissionais e iniciantes como ele, para a primeira noite de stand up em inglês na capital, esgotando os 120 lugares disponíveis na casa. 

Nascido em Assam, na Índia, Ash usa o estereótipo que as pessoas constroem em relação aos indianos como munição para o seu humor. Apesar do tom leve, as histórias que leva ao palco refletem a realidade social portuguesa, na nem sempre pacífica relação entre uma minoria de portugueses e os muitos imigrantes, muitas delas retiradas de situações verídicas.

Numa delas, Ash narra os percalços de suas idas anuais ao IMT [Instituto da Mobilidade e dos Transportes] para a vistoria do seu carro. 

Noutra, Ash lembra o imbróglio de trânsito que teve com um ciclista português que fazia entregas para o Uber, numa curiosa inversão de papéis sociais.

Sem entrar no mérito de quem tinha razão na discussão, Ash revela que, apesar de ser o “português” a guiar uma bicicleta com uma mala da Uber às costas enquanto o estrangeiro é quem conduzia um carro, a contenda terminou como de costume, com o “local” a berrar no meio da rua para o imigrante um sonoro “volta para a tua terra!”.

Hoje, a parábola rende alguns sorrisos, mas não deixa de ser uma prova de que o humor também é uma janela para se falar de coisas sérias.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.


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