Quando hoje pensamos em fado, vêm-nos logo à ideia histórias de ciúme e abandono, esperas chorosas por quem nunca há-de vir, mulheres traídas cantando ao despique numa viela ou evocando memórias num quarto vazio. Mesmo nos repertórios dos intérpretes de gerações mais novas, não faltam composições sobre desencontros amorosos ou vinganças caladas, porque o amor, já se sabe, é um tema que nunca se esgota – nem na vida, nem no fado.
E, porém, é bom que se diga que não foi sempre assim; além de trazer desde o berço um lastro de denúncia das más condições de vida de quem o cantava, foi ainda em plena monarquia que o fado se iniciou como “canção de intervenção”, fase que duraria até pelo menos aos anos vinte.
Uma das suas formas mais evidentes foi o “fado operário”, que deve grande parte da sua existência a um grupo de tipógrafos da Imprensa Nacional (gente próxima dos livros, como não podia deixar de ser) que viram na canção de Lisboa um meio privilegiado de fazer propaganda política e de mobilizar o proletariado para a luta contra as desigualdades sociais.
Todos eles eram fadistas, letristas ou compositores – João Black, Avelino de Sousa, Carlos Harrington, João Maria dos Anjos… – que levaram este canto comprometido das ruas da capital para a periferia e o interior, onde cantavam em festas, piqueniques e associações recreativas e animavam reuniões sindicais, veiculando mensagens assumidamente ideológicas com o objectivo de despertar consciências e contribuir para aquilo a que Rui Vieira Nery chamou, e muito bem, a “construção de uma utopia igualitária”.
Esses fados são uma espécie de canções sociais, em que a luta de classes está sempre presente através de binómios mais ou menos óbvios – rico/pobre, explorado/endinheirado, capitalista/trabalhador – e que por vezes incluem referências a figuras exemplares como Antero de Quental ou José Fontana, assim evidenciando a militância socialista dos seus autores.
Com uma linguagem forte e directa, profusão de exclamações e adjectivos e um tom, regra geral, bastante exacerbado, o fado operário tão depressa constitui um simples grito de revolta como se torna um apelo declarado à revolução, tida como essencial para alcançar o progresso; mas, nas palavras de Avelino de Sousa, que foi também um dos seus teóricos, é acima de tudo uma “trova educadora” e “o mais fácil elemento de educação social” – muito longe, portanto, do fado dos nossos dias.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

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