Ilustração: Rita Gilman LSD Lisbon School of Design.

Quando falamos no urbanismo da nossa velhinha Olissipo, lá vêm à baila os suspeitos do costume: o Sebastião José e o Duarte Pacheco. Para não variar. Como se não houvesse mais ninguém, como se a história desta cidade milenar se resumisse a momentos mais felizes ou consequentes de apenas dois ou três dos seus nativos.

Depois do trio “virtuoso” Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, os reais obreiros da Lisboa pós-terramoto, personalidades visionárias como Frederico Ressano Garcia, o Haussman português, ou João Maria de Magalhães, o primeiro defensor da arborização do atual parque de Monsanto, e tantas, tantas outras, mereciam uma outra visibilidade e um outro reconhecimento por parte dos seus munícipes e da edilidade.

E se este último não viveu para assistir à criação do “pulmão” que imaginou para a cidade, projetado e plantado setenta anos mais tarde por Francisco Keil do Amaral, já Ressano Garcia – que, como realça a omnisciente Wikipédia, “projetou e conduziu a construção da Avenida da Liberdade, inaugurada em 1879, da Praça Marquês de Pombal, da Avenida 24 de Julho e do Mercado da Ribeira Nova” –, chegou a dar nome à incontornável avenida da minha infância, que terminou ‘da República’ após a implantação da dita em 1910. 

Embora despromovida a rua e desviada para uma zona menos destacada desta urbe dedicada ao herói grego, o elegante e muito Art Déco Bairro Azul (vizinho do El Corte Inglés, a nova ágora do burgo), é de sublinhar que a toponímia de Lisboa não deixou de homenagear esta figura que viveu no auge do positivismo novecentista e alguém muito marcado pela estética e a obra de Eugène Haussmann – conhecido como o “homem demolidor”, mas o barão que trouxe a modernidade a Paris. Já João Maria de Magalhães, esse caiu no esquecimento.

Ilustração: Susanne Malorny / LSD Lisbon School of Design.

A influência do barão Haussman é bastante evidente na Lisboa ressaniana. Além da avenida da Liberdade, considerada por muitos os Champs Elysées à portuguesa, o bairro de Campo de Ourique inicial, “erigido numa antiga terra de quintas pertencentes a Campolide (…) e que compreende o retângulo entre as ruas Ferreira Borges e Tomás de Anunciação, Campo de Ourique e Saraiva de Carvalho”, é mais uma das emblemáticas criações de Ressano Garcia e um expoente da Lisboa afrancesada. 

Curiosamente, Campo de Ourique, quinze anos depois de eu próprio deixar de ser um seu freguês e de passar a abarcar as antigas freguesias de Santa Isabel e de Santo Condestável, é hoje um dos sítios mais procurados pelos novos residentes oriundos de França. E desde esse longínquo 2010, o bairro reinventou-se e passou a ter uma vibe ou um je ne sais quoi incríveis. O mercado foi renovado e surgiram inúmeros novos espaços e cafezinhos cheios de pinta e charme. Mas também perdeu espaços icónicos como o saudoso Stop do Bairro. Enfim. Como diria o outro, é a vida.

Sendo alguém que entrou cedo na idade dos porquês e nunca mais de lá saiu, questiono-me se artérias como as de Roma, Berlim ou da Igreja, para nomear as mais próximas do meu presente código postal, não deveriam ser renomeadas para glorificar figuras que ajudaram a tornar a cidade mais bonita, limpa, aprazível e visitável? Por exemplo, ao invés de uma artéria que celebra uma instituição cheia de sombras, não faria mais sentido uma ‘Av. João Maria de Magalhães’, talvez o primeiro impulsionador de uma Lisboa neutra em carbono? 


Pedro Salazar

Nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

2 Comments

  1. Gostaria de partilhar a minha repulsa para o desaparecimento do ícone de campo de ourique o comunemente conhecido JARDIM DA PARADA e seu arvoredo para dar lugar a uma estação de metropolitano levando assim para todo o sempre a calmaria e segurança deste bairro que mais parece uma cidade dentro da cidade onde toda a gente se sente segura a qualquer hora do dia ou da noite em breve tudo irá mudar mas para muito pior

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *