José e Jorge são amigos, trabalharam juntos no jornalismo, mas quando ambos tomaram a mesma decisão de sair de casa no confinamento para fotografar o bairro de Campolide, nenhum dos dois sabia o que o outro andava a fazer.

Coincidência encontrada, deram-se conta que entre os dois tinham reunido centenas de fotografias do bairro que amam. O resultado é um arquivo de memórias visuais, um livro chamado “I Love Campolide”. Está lá tudo: os edifícios pombalinos, os prédios abandonados, a Torre das Amoreiras, o Aqueduto das Águas Livres, o Liceu Francês… Também os becos e os grafitis na parede, alguns deles já nem sequer existem, como aquele que acabaria por dar nome ao livro.

A família de José Viera Mendes, jornalista, crítico cinematográfico e um apaixonado pela fotografia, foi viver para Campolide há um século. Foi ali que José nasceu, cresceu, namorou, teve a primeira casa. Apesar de atualmente viver no bairro ao lado, Campo de Ourique, na altura dos confinamentos decidiu ir fazer caminhadas para o sítio que conhece tão bem.

“Foi um regresso com alguma nostalgia. Fui identificando lugares e memorias da minha infância e da evolução do bairro”, conta, para logo explicar: “Uma das razões por que gosto tanto de passear no bairro com a minha máquina fotográfica é porque, aos meus olhos, um prédio degradado, um muro em ruínas ou um par de velhinhos a conversar numa esquina podem ser tão comoventes como um quadro de um mestre da Renascença ou mesmo uma catedral”, afirma. Porque “também as casas têm feridas, cicatrizes, rugas e tatuagens que contam a sua história, tal como acontece com as pessoas que já viveram muito”.

O também jornalista cultural, tradutor e autor Jorge Lima Alves apaixonou-se pelo bairro em 2005, quando comprou uma casa na Rua de Campolide. Na pandemia percorreu as ruas com outro vagar, descobrindo pormenores que converteu em imagens. Algumas delas ia partilhando nas suas redes sociais. Foi através destas partilhas que José percebeu que, afinal, tinham tido a mesma ideia e que em comum, além da amizade, havia o amor a Campolide.  

A história de um bairro histórico

E que bairro é este? Apesar de, para muitos, ser apenas uma zona de passagem, José Vieira Mendes diz que Campolide é, sobretudo, um bairro histórico, com edifícios que datam do período pombalino. “Existem dois arruamentos que se chamam o Alto do Carvalhão e o Largo de Carvalho que se referem ao Marquês de Pombal”.

Veja aqui algumas das fotos do livro:

Nas suas fotografias – e nas de Jorge – pode constatar-se isso mesmo. “Os edifícios pombalinos que ainda existem e misturam-se ao longo dos tempos com alguma construção dos anos 60, com a habitação social do bairro da Calçada dos Mestres, com o Aqueduto das Águas Livres e com a Torre das Amoreiras”, enumera.

Apesar do turismo aqui não ter ocupado casas – só mais recentemente foi inaugurado um hotel na zona – Campolide envelheceu: as casas foram ficando degradadas, é preciso reconstrução, e também as suas gentes acumularam anos. “Os edifícios novos são em zonas caras, em Nova Campolide ou mais próximas das Amoreiras”, acrescenta. Este é ainda “um bairro que se define por alguma estratificação social de baixo para cima: os mais pobres vivem em baixo e os mais ricos vivem em cima”.

 Apesar da população ser sobretudo sénior, a zona tem evoluído. “Tem vindo a mudar, não drasticamente, mas agora estão a construir uns edifícios novos, modernos, de luxo, isso é capaz de vir a mudar a vida do bairro”, vaticina Jorge, que escolheu aquele endereço por causa de uma casa que decidiu comprar. “Eu não conhecia Campolide, só de passagem, e a casa que me mostraram tinha uma janela panorâmica de onde se via todo o vale de Campolide, com o Aqueduto e Monsanto. Fiquei sobretudo encantado com a vista. Há 16 anos que este é o meu bairro”, conta o jornalista, entretanto reformado.

Agora tem mais tempo – ele mesmo o sublinha – para redescobrir os pormenores do sítio onde gosta tanto de viver. “Gosto da centralidade do bairro, num instante estou na Gulbenkian, vou a pé às Amoreiras, ao El Corte Inglés. É também um bairro calmo. Tenho um filho com 10 anos que já nasceu aqui, é um filho de Campolide”, afirma.

Veja aqui mais fotos do livro:

Sobre o livro, é a primeira vez que partilha a autoria, e logo com um amigo. Ficou feliz com o resultado do trabalho a quatro mãos. “Temos olhares completamente diferentes, mas ao paginar o livro comecei a aperceber-me que as imagens se complementavam, acho que as fotografias se valorizam umas às outras”.

A capa do livro, assinada por Jorge Lima Alves, é uma fotografia que todos pensam ser um desenho. “Era um grafiti que existia em Campolide, mas que já tiraram. No momento em que a ia tirar, passou um senhor de canadianas que agora parece incorporado dentro do grafiti”, descreve. Na pintura na parede, entretanto já apagada, o letreiro no elétrico não indica o destino, mas sim” I Love Campolide”, com o verbo em inglês a ser substituído por um coração vermelho. “Era perfeito para título”, diz Jorge. E assim ficou.

“I Love Campolide” tem lançamento marcado para setembro, mas já se encontra à venda na Livraria Linha de Sombra (da Cinemateca), na Livraria Snob e ainda na Livraria Ler, em Campo de Ourique. Também vai estar à venda na Feira do Livro.

Paula Freitas Ferreira

Nasceu em Moçambique e viveu em muitas cidades até chegar a casa, Lisboa. Acredita que os lugares são impossíveis de contar sem ouvir as pessoas e as suas histórias. É jornalista desde o ano 2000 e passou pelas redações do 24horas, Sábado e Diário de Notícias. Colaborou com a Notícias Magazine e escreveu três livros.

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4 Comentários

  1. Como posso fazer para adquirir o livro ? Tenho muito interesse .

  2. Há uma indicação no final do texto. Feira do Livro e uma livraria de Campolide.

  3. Ainda bem que há ” carolas” que se interessaram para dar história de campolide. Irei comprar o livro, não para confirmar o texto que certamente estará à altira dos seus autores. Não sou de Campolide, mas morei mais de 40 anos a dois passos das Amoreiras. Era a garagem de recolha dos autocarros da Carris. Sei que existe um livrinho com os Patios , Vilas e Becos. Aos autores I’Campolide fica a sugestão para 2 livros. Parabéns pela partilha do material para o livro. Abraço A. Melo

  4. Maria Conceição está à venda na Livraria Ler em Campo de Ourique e na feira do Livro.

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