António Valdemar lembra-se da exata mesa onde se sentava Jorge Barradas, nos anos 1960, na Brasileira do Chiado. Com os olhos postos numa sala cheia, o jornalista de 86 anos aponta para o cantinho onde, há sessenta anos, encontraríamos o artista que integrou a primeira vaga de modernistas a expor os seus quadros na Brasileira.

Na passada quinta-feira, dia 17, a Brasileira do Chiado homenageou a vida desse homem “simples e discreto”, como o descreve António Valdemar, na quarta tertúlia artística de um ciclo dinamizado pela Mensagem, no âmbito da celebração dos 100 anos dos primeiros quadros modernistas expostos n’A Brasileira, efeméride que é também assinalada pelo Prémio de Pintura A Brasileira do Chiado.

Os convidados foram o jornalista António Valdemar e Adriana Anselmo de Oliveira, investigadora cuja dissertação de mestrado sobre Jorge Barradas permitiu a redescoberta dos seus painéis.

A Brasileira dos artistas

A história começa quando António Valdemar se mudou para Lisboa dos Açores, para um quarto com vista para o Tejo. Sobre essa vida passada, o jornalista desabafa: “Levantar de manhã e ver o Tejo é receber os bons dias para toda a vida.”

Foi nessa altura que passou a frequentar a Brasileira do Chiado, cruzando-se com os artistas que anunciaram o modernismo nesse mesmo café, no final dos anos 20: Jorge Barradas, José Pacheko, Eduardo Viana, Bernardo Marques, Stuart Carvalhais, António Soares … e, claro, Almada Negreiros.

“O Almada era fascinante”, conta António Valdemar. “Não havia conversa com o Almada, era um monólogo.”

António Valdemar recordou os anos 60 na Brasileira. Foto: Líbia Florentino

Dos serões passados na Brasileira, António lembra-se bem das mulheres que por ali passavam, como Sarah Affonso, artista casada com Almada Negreiros, que de manhã parava na Brasileira para comprar café. Mas era sobretudo à porta da Brasileira que elas apareciam, “fazendo sinais para os maridos irem jantar.”

E lembra-se, pois, de Jorge Barradas, que conheceu nessa mesa de café, sempre por ele ocupada, pois o artista ouvia mal do ouvido direito, e assim assegurava-se que seguia as conversas com os colegas. A amizade entre os dois estreitou-se quando passaram a ser vizinhos, na Rua Barata Salgueiro: um vivia no 3º andar esquerdo, o outro no direito.

Das ilustrações à cerâmica e ao azulejo

Jorge Barradas iniciou a sua carreira enquanto ilustrador em jornais e revistas (chegou a ser diretor artístico do semanário ABC), notando-se uma grande influência da Arte Deco no seu trabalho. A cultura popular povoa o seu imaginário, com a representação de saloias, varinas, lavadeiras, bem como as mulheres, que fazem lembrar as de Modigliani.

Jorge Barradas.

Nos anos 20, seria, como sabemos, um dos jovens modernistas a expor na Brasileira: saloios, vendedores de fruta e varinas, pintadas por Jorge Barradas, passaram a vigiar os convívios diários do café do Chiado.

Mas a sua carreira seria alvo de mudanças: “Barradas passa de aguarela e do guache para o azulejo e a cerâmica”, explica Antonio Valdemar. “Aquilo que havia iniciado na pintura transferiu para a azulejaria, de uma forma inquietante”, diz Adriana.

Adriana Anselmo de Oliveira cruzou-se com a obra de Jorge Barradas precisamente quando, no âmbito do seu mestrado, deparou com um painel do artista, no Museu Nacional do Azulejo, que teria de restaurar.

Através da sua investigação, descobriu que esse painel pertencia a uma série de painéis, produzidos entre a década de 60 e 70, e que Jorge Barradas intitulara de “Caprichos”.

Sobre o painel, Adriana escreve na sua dissertação: “Parece que uma natureza forte e resistente está em luta com um ambiente agressivo e surreal que não chega a ser explícito mas paira em todo o painel. Há uma sensação de mistério, de intranquilidade difícil de definir.”

Ao mergulhar na vida do artista – cuja obra seria fortemente influenciada por uma estadia em São Tomé -, Adriana procurou também aqueles que o tinham conhecido em vida. Entrevistou o artista Manuel Cargaleiro, um dos discípulos de Jorge Barradas e, claro, conheceu António Valdemar, o antigo jornalista do Diário de Notícias que bem o conheceu nos tempos em que a Brasileira era ponto de encontro dos lisboetas.

“A Adriana é a pessoa que ressuscita os esquecidos e os mortos”, diz António Valdemar, no momento em que arranca do público uma salva de palmas. Resgatou a memória do velho amigo de António, e da sua arte – das ilustrações, às peças de cerâmica, aos painéis de azulejos.

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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.


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2 Comments

  1. Há coincidências.
    Conheci o nome de Jorge Barradas numa visita ao Porto, em que estava de passagem num edifício de um banco português (Palácio Atlântico), achando bonitos os painéis de azulejos que decoram a parte interior da “varanda” e os painéis em relevo no interior. O segurança do edifício explicou a história desses painéis, e o nome do autor. Noutra ocasião, vi um painel dele no Palácio da Justiça de Ovar. Gostaria de conhecer mais um pouco acerca das suas obras, mas é difícil encontrar referências ao seu trabalho, e que sejam acessíveis em termos de visita.
    Quando revisitar o Museu do Azulejo, irei estar atenta. Sou capaz de ter visto o seu trabalho, mas na altura, não conhecia o artista em questão.

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