
Este artigo faz parte da investigação Cidades resistentes ao calor, que junta as redações da Mensagem de Lisboa, em Portugal, da Maldita.es, em Espanha e do Slow News, em Itália, num projeto dedicado ao Jornalismo de Soluções com o apoio de Journalismfund Europe.
Quando o calor aperta, sabe qual o lugar mais fresco próximo de si? Um jardim, biblioteca, praça, lago ou bebedouro? A esses pontos da cidade, onde é possível encontrar-se alívio do calor, os investigadores chamam refúgios climáticos: “áreas onde nos podemos refugiar dos extremos”, explica António Lopes, especialista em climatologia urbana, investigador e professor no IGOT .
Mas, embora haja cidades que tenham já mapas de identificação destes pontos – como Paris e Barcelona -, em Lisboa não há nenhum mapa oficial. Em 2022, Isabel Mendes Lopes, deputada do Livre, apresentou em sessão de Assembleia Municipal uma recomendação para que algo semelhante pudesse nascer em Lisboa, mas ainda nada se materializou.
Foi preciso que um cidadão se chegasse à frente.

Sabendo da recomendação do Livre, o lisboeta Manuel Banza decidiu não esperar e tirou partido da biblioteca de dados abertos da Câmara de Lisboa e, sozinho, publicou um trabalho de identificação de refúgios climáticos em Lisboa. Num mapa interativo da cidade, sobrepôs a cartografia que mostra a intensidade do efeito ilha de calor urbano e juntou-lhe a localização de jardins, fontes, bebedouros, piscinas públicas e bibliotecas.
E procurou os espaços da cidade que, por não estarem rodeados de jardins ou outros espaços arrefecidos, mais precisam de intervenção.”O mapa que eu criei identifica as zonas onde é mais urgente fazer alguma alteração no espaço público, nomeadamente por cinco variáveis” – o efeito ilha de calor urbano, a proximidade a jardins, o arvoredo da cidade, a densidade populacional e a proximidade a bibliotecas.
A análise permitiu-lhe identificar seis zonas de intervenção prioritária. É onde moram mais pessoas que “uma intervenção vai ter mais impacto”, diz. E é para esses pontos que Manuel Banza aponta a maior prioridade na hora de criar refúgios climáticos em Lisboa:
1 – Baixa
2 – Alto de São João e Rua Morais Soares
3 – Chelas
4 – Bairro do Rego
5 – Parque das Nações
6 – Ajuda

No primeiro episódio deste trabalho sobre o calor em Lisboa, procurámos oferecer contexto.
Demos conta do impacto do calor na saúde de quem vive na cidade, explicámos o efeito ilha de calor urbano – ou como a construção e a densidade da cidade dificultam o arrefecimento das ruas – e pedimos a especialistas para nos explicarem como se arrefece uma cidade. Neste segundo e último episódio, apontamos para as soluções – as já experimentadas com sucesso noutras cidades e as sugeridas pela ação cidadã dos lisboetas.
Criar refúgios climáticos
Partindo do mapeamento de Manuel Banza, como se poderia intervir na cidade? Onde não existem espaços frescos na cidade – ilhas de frescura, por oposição às ilhas de calor urbano – é possível criar as condições para que passem a existir, tomando medidas como:
- Renaturalizar o espaço;
- Criar sombra nas ruas através da colocação de árvores e vegetação;
- Diminuir o número de automóveis a circular pela cidade;
- Garantir que nos corredores de ventilação da cidade – que, através dos vales, asseguram a penetração de brisas e ventos – não se constrói em densidade.
São ações concretas que, comprovadamente, contribuem para o arrefecimento natural das ruas.
Identificar refúgios climáticos
Mas, para criar novos refúgios pela cidade, importa também identificar os espaços já existentes que cumprem essa função.
Lisboa, como qualquer outra cidade, tem vários espaços de acesso público que garantem refúgio em dias de calor. “As igrejas, por exemplo, são ótimos locais, porque normalmente o seu interior não aquece muito. São refúgios climáticos por natureza, por causa da sua forma de construção”, explica António Lopes.
Cláudia Reis, investigadora no Zephyrus, a unidade de investigação em alterações climáticas da Universidade de Lisboa, explica que muitos outros lugares podem ser refúgios climáticos, espaços interiores ou exteriores, desde que assegurem uma temperatura mais reduzida.




Podem ser, diz, “espaços públicos refrigerados, centros comerciais com ar condicionado, espaços verdes com sombra, com disponibilidade de água”. Jardins, bibliotecas, museus, estações de metro.
A ação de Lisboa contra o calor
Perante todas estas ações que poderiam ser tomadas, como é que Lisboa tem atuado para mitigar o efeito das ondas de calor?
Em requalificações recentes do espaço público, a CML tem vindo a apostar na introdução de jogos de água, como repuxos ou vaporizadores de água. Maria João Telhado, diretora do Departamento de Ambiente, Energia e Alterações Climáticas da Câmara Municipal de Lisboa (CML), explica que o município tem o objetivo de criar “zonas de arrefecimento ao longo de toda a cidade”, para que seja possível uma continuidade da estrutura verde, “passando de um corredor verde para um pequeno jardim e de um pequeno jardim para um espaço arrefecido”.
Ao nível do espaço público e estruturas verdes, têm surgido novidades na criação de espaços verdes e sombreados: neste verão, foi inaugurada a nova praça de Sete Rios e, em 2021, o Parque Gonçalo Ribeiro Telles, na Praça de Espanha – resultado da conversão de um nó rodoviário num vasto espaço verde e renaturalizado.






Em baixo, a nova Praça de Sete Rios. Foto: Inês Leote
Ao nível das ruas, tem sido através de projetos europeus que algumas mudanças – limitadas – têm sido concretizadas.
Através do projeto Life Lungs, de financiamento europeu, a Câmara Municipal de Lisboa plantou 2800 árvores em arruamento e substituiu relvados por prados de sequeiro, uma iniciativa que leva à poupança de água e à promoção da biodiversidade.
Ao longo dos dois últimos anos, um projeto da CML e da EPAL permitiu a instalação de uma nova rede de bebedouros públicos, com 200 novos equipamentos. Em julho deste ano, ao abrigo do projeto Ruas Verdes+, foram colocadas 27 novas árvores de porte médio e folha caduca numa rua. Foi, contudo, uma experiência limitada. Este projeto, com financiamento europeu, chegou ao fim em agosto, sem que tenha sido anunciada a sua replicação por outras zonas da cidade.

“Existe um outro projeto, também com financiamento europeu”, explica Maria João Telhado, “que é o Cool Noons”, com o foco no aumento do conforto térmico na cidade. Até 2026 e através da recolha de imagens térmicas, pretende “monitorizar diferentes superfícies para identificar percursos mais aproximados das zonas mais [climaticamente] amenizadoras para locais e para turistas em dias de calor”.
Isabel Mendes Lopes, deputada municipal do Livre, tem uma visão crítica sobre a ação do município em matéria de adaptação climática e intervenção no desenho das ruas para as arrefecer – por exemplo, através da criação de sombra ou da colocação de vegetação. Considera faltar uma “visão de conjunto”, criticando o que diz ser uma estratégia dependente de projetos com financiamento europeu e baseada em “projetos isolados”, com data de validade. “Lisboa está claramente a ficar para trás”.
O caso das piscinas de bairro
Nos bairros de habitação municipal é difícil encontrar estruturas que permitam o arrefecimento das ruas. Muitas vezes, são os próprios moradores a arregaçar as mangas e a transformar o meio urbano.
No bairro Carlos Botelho – mais habitualmente conhecido como Bairro Branco – no Beato, na zona das Olaias, a chegada do mês do início da escola significa o recolher da piscina desmontável que, durante o verão, ocupou aquele que, no resto do ano, é um espaço de convívio da comunidade do bairro.




Mesas, sofás, cadeiras: em frente a um aglomerado de prédios, num espaço que dantes era ocupado por estacionamento, a vizinhança criou um ponto de encontro. E, quando o calor chega, os mais novos já sabem: é tempo de ali montar a piscina.
É uma forma de dar aos mais novos a possibilidade de irem a banhos – “Somos um bairro social e não há muitos meios para levar os mais novos à piscina”, explica a moradora Filipa Valente – mas também, claro, de refrescar quando o calor na cidade aperta.
A promessa de um mapa de refúgios climáticos
Entretanto, o mapa oficial de identificação de refúgios climáticos continua por fazer. A recomendação do Livre foi aprovada por maioria, com a abstenção de PSD e CDS e voto contra do Chega. O texto da recomendação pedia que a rede estivesse em operação no verão seguinte, em 2023, mas, dois anos depois, ainda nada avançou.
Em Barcelona, o mapa de refúgios climáticos está em constante atualização. Hoje, contam-se mais de 370 refúgios climáticos pela cidade, identificando os locais mais próximos onde as pessoas podem encontrar alívio em dias de calor – em espaços exteriores e interiores: bibliotecas, jardins, pavilhões desportivos, piscinas, museus ou mesmo mercados municipais. São locais em que estão asseguradas, mesmo nos dias mais quentes, temperaturas inferiores a 27 graus.
A cidade catalã promoveu, em 2023, um concurso para a criação de três protótipos de estruturas para a criação de sombra em três tipologias distintas de espaço público: em ruas convencionais, em espaços amplos, como grandes avenidas ou praças e em parques infantis. Em julho deste ano, começaram a ser testadas nas ruas durante quatro meses, com o objetivo de instalar mais destas estruturas pela cidade, nos lugares em que não seja possível plantar árvores.


Em Paris, uma cidade naturalmente mais fresca que Lisboa, também há um mapeamento. Aos mais de 1400 pontos identificados pela cidade, a Câmara deu-lhes o nome de ilhas de frescura, com o objetivo de proteger as pessoas “dos riscos associados ao calor elevado e desfrutar de alguns graus a menos”. O município tem também apostado na renaturalização de ruas, através da eliminação de estacionamento e permeabilização das superfícies.

Maria João Telhado assegura que o município está a “inventariar vários espaços” e a trabalhar “virado para os refúgios verdes – intervenções em infraestrutura verde”, para, “por um lado, arrefecer a cidade”, e, por outro, “dar a conhecer que espaços são esses”.
A autarquia revela que alguns passos concretos foram já dados, entre os quais a “identificação dos locais críticos, tendo por base o mapeamento da ilha de calor”, bem como a “construção de mapas com indicação dos refúgios climáticos”, embora estes não tenham ainda sido tornados públicos.
Para António Lopes, o primeiro passo que Lisboa deve seguir “é saber onde é que estão esses refúgios [e] fazer a cartografia, porque nem todos poderão ser o refúgio eficiente”. Depois, “criar uma estrutura para o apoio”, como “o caminho para o refúgio”.
Cláudia Reis sublinha, depois, a importância da comunicação e divulgação dos refúgios.
“Acho que é fundamental, sobretudo pensando na população, por exemplo, mais vulnerável – a população idosa. Será que sabem que tem, num caso de um dia mais quente, tem um jardim nas proximidades? Qual é que é o espaço mais rápido que conseguem chegar, de forma segura, para se refrescarem?”
Manuel Banza: de um mapa ao 3-30-300
Sem que o mapa oficial avance, o cientista Manuel Banza continuou com o seu trabalho. E, no ano passado, fundou o coletivo Fazer Cidade. “Nasceu em conversas com amigos, com os quais falava muito sobre esta questão do direito ao lugar, do espaço público e dos espaços verdes. E cada vez sentíamos mais os efeitos do calor.”
Recorrendo ao conceito “3-30-300”, cunhado pelo investigador holandês Cecil Konijnendijk – segundo o qual, da janela da nossa casa, devemos conseguir ver pelo menos 3 árvores, inseridas num bairro com pelo menos 30% de cobertura vegetal, e com um jardim de grande ou média dimensão que não esteja a mais de 300 metros -, Manuel Banza criou, com Bernardo Fernandes, um mapa interativo, onde é possível identificar quais os bairros que cumprem (ou não) essa regra.
Com esta análise, Manuel Banza percebeu que pouco mais de 2% de todos os edifícios em Lisboa estão em conformidade com a regra 3-30-300. Essa escassez torna-se ainda mais acentuada quando a este mapa é sobreposto o mapa das ilhas de calor. Onde falta cobertura verde, os edifícios não cumprem a regra. Em contrapartida, nas zonas que cumprem a regra, a ilha de calor é praticamente inexistente.

Nota: depois de digitar a morada, clique no prédio que pretende ver; irá aparecer uma janela pop-up onde pode explorar a informação que procura.
“É preciso olhar para o espaço que temos e perceber que faltam espaços verdes. Há ruas em Lisboa sem árvores, dominadas pelo cimento e pelo asfalto, materiais que absorvem o calor”, diz o cientista de dados.
“Temos de criar programas especiais: plantar árvores, fechar estradas aos carros em determinada altura do dia, criar ruas pedonais, onde pintamos o espaço público com cores claras de forma a refletir o calor.”
O último tipo de intervenção remete para o conceito de urbanismo tático, uma forma rápida e barata de intervir no espaço público, e que se materializou em Barcelona com os “superblocos”, ou superquarteirões – um programa a partir do qual a cidade catalã tem vindo a reorganizar-se, promovendo o aumento do espaço público e a acalmia do tráfego rodoviário. O conceito também foi recentemente testado em Lisboa.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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