Nos meus pessoais Jogos de Paris, há muitos anos, 1969, também fiz uma cerimónia de abertura. Foi na gare de Austerlitz, onde eu acabara de chegar de comboio e logo comecei uma maratona inesquecível que durou cinco anos, até ao 25 de abril de 1974.

Eu estava equipado sumariamente, como convém em quase todas as modalidades desportivas. Sem passaporte, sem mala, 21 anos, uma decisão simples tomada há muito – sei que não vou por aí – e 5 contos no bolso, o que dava… o que dava exatamente, olhem, façam as contas. Então, a pé, fui da gare de Austerlitz por Paris adentro desde aquele dia inicial e foi um esplendor.  

Há duas semanas os Jogos Olímpicos, que agora encerram, começaram também em Austerlitz, vizinha à minha gare, mas desta vez uma ponte, e foram pelo Sena abaixo.

Não quero comparar, reconheço as minhas limitações atléticas. Se bem se lembram, naquele dia, 6 de agosto, o Simon Nogueira – francês de Braga por via do seu avô (queres ver que este ia no meu comboio de Orense a Irun e a salto pelos Pirenéus, como então se dizia?) – o Nogueira neto, dizia eu, campeão de freerunning francês, corria à maluca em todos os ecrãs televisivos do mundo. Ia a salto pelos telhados de Paris com a tocha olímpica.

Apanhou-a nas Catacumbas e levou-a brandida, saltando pelo zinco do cimo dos prédios haussmaniens. No meu primeiro dia, o mais alto e mais além que cheguei foi a um chambre de bonne, quarto de criada, também ele debruado a zinco por fora, no sexto andar do portão 4, na Place de Saint-Michel, onde um amigo me albergou. Contas feitas, os recordes são: separados por 55 anos, ambos, eu e o Simon, pelos telhados de Paris.

Pode parecer um abuso meter-me num assunto universal, mas não é próprio nos assuntos universais cada um de nós lá estar? Da única vez que estive nuns JO, in situ e sentado, foi em Atenas. Em 2004, jornalista, eu estava magnificamente frente à meta da final de 110 metros barreiras.  A 25 metros dela, de onde o Eusébio calava, a mim e ao estádio, para marcar um livre, vi acontecer outro milagre.

As dez barreiras já saltadas e sempre pelo lançar da perna esquerda, Liu Chiang só com a glória à sua frente, estava certo do que ia acontecer. Então, sucedeu-lhe ser possuído: atirou a cabeça para trás, rebolou os olhos, dançou, esbracejou e, enfim, tornou-se o primeiro atleta chinês com medalha, e logo de ouro! Não vitoriei, tal como não bati palmas no dia (o único) em que vi Georges Brassens cantar. Não só porque nas situações sagradas me remeto ao meu papel de tipo comum, mas também por soberba: se me calhou tal sorte, não quero perder pitada.

Desta vez, 2024, em Paris, antes do festim dos heróis – a fleuma do atirador turco, a homenagem da ginasta Simone, americana, à sua irmã Rebeca, brasileira… – os Jogos Olímpicos decidiram lavar-nos os olhos com a cidade organizadora. Como nos refugiar num mero estádio quando temos Paris de portas abertas e mais o seu rio coleante como alternativa? Então, não houve o tradicional cortejo de chapéus esquisitos, mas meteram-se os atletas, ainda simples homens e mulheres, dentro de iates, péniches, vedetas (não me refiro aos basquetebolistas da NBA, que também lá iam) e bateaux-mouches, seguindo o curso do rio. Sendo o rio o Sena e as margens, Paris, o curso foi um doutoramento olímpico.

Para confirmar quanto o saber – o saber que nos encanta – está sempre presente em Paris, e não só na Sorbonne, sirvo-me de um exemplo sem mesmo desembarcar deste texto. Os bateaux-mouches, barcos-moscas, são os tradicionais passeantes de turistas que serpenteiam pela cidade. O facto é que há muitos anos estalou uma polémica em Paris sobre aqueles barcos: como é que a empresa se chamava Bateaux-Mouche? Plural, aqui, barcos, e singular, ali, mosca. Em 1953, um académico indignou-se com os reclames que ostentavam um erro de ortografia: não devia o substantivo plural Bateaux, como a lei gramatical exigia, obrigar a mosca que o adjetivava a ser também plural? Bateaux-Mouches, portanto!

Logo saltou para duelo um jornalista do Le Monde, Robert Escarpit, com esta dúvida pertinente: e se Mouche não adjetivar coisa nenhuma, pois era tão-só uma homenagem ao fundador da empresa? Hipótese que passou a certeza sustentada, quando Escarpit publicou a biografia de Jean-Sébastien Mouche, com pompa e circunstância.

A 1 de Abril de 1953, fez-se um cruzeiro pelo Sena com Tout-Paris convidado, a Assembleia Nacional representada pelo seu presidente Edouard Herriot, a Orquestra de Paris a tocar a Marcha Fúnebre, de Chopin – para a apresentar a biografia de Jean-Sébastien Mouche, ali representado por um centenário busto esculpido. Aliás, lembrava-se, a frota dos Bateaux-Mouche, assim, legitimamente sem “s”, fora iniciada em 1889, durante a Exposição Universal, aquela que nos deixou a Torre Eiffel. A obra assinalava ainda que Mouche trabalhou estreitamente com o prefeito e criador da Paris moderna, o Baron Haussmann, a ponto de lhe montar uma rede de informadores para a polícia municipal, daí o termo que perdura ainda hoje para esses esforçados cidadãos, mouchard, moscardo.  

Tudo clarinho, não fora Jean-Sébastien Mouche não ter existido, os barcos para turistas terem sido só criados em 1949 e a gramática ter acabado por impor a ordem das gramáticas nos reclames da empresa. Diz-se Bateaux-Mouches, parabéns à prima. E eu fiquei sempre fiel ao meu Jean-Sébastien.

Acresce que Robert Escarpit escreveu na primeira página do jornal Le Monde um bilhete, luminoso e curto, quase diário, de 1949 a 1979. Cerca de 10 mil crónicas – nenhuma nem perto de chegar aos mil carateres, um minuto de leitura. Chamava-se Au jour le jour, viver o dia a dia. Eu cumpria o minuto, pousava o jornal e ficava com um sorriso a matutar de prazer e Paris à minha volta.

Sei que sou jornalista graças aos doutoramentos quotidianos que de lá tirei, naqueles quatro dedos transversais de conversa com a primeira página de um jornal. Robert Escarpit torcia a realidade da informação que dava e duas linhas adiante fazia o texto contradizer-se. Quem quer um cronista feito de certezas?

Eu estava há um ano em França quando De Gaulle, já retirado do poder, morreu. Foi uma emoção nacional como nenhuma democracia ocidental conheceu, com laivos de veneração. Bilhete de Escarpit, a 24 de novembro de 1970, duas semanas depois da morte: “Se acreditar em certos dizeres contraditórios, é um crime sentir respeito por De Gaulle e não ser gaullista. É sempre necessário transformar a homenagem em culto? Ou recusar a homenagem porque se tem medo do culto?” Que bom perguntar, em vez de vituperar.

Charles De Gaulle foi o mais preclaro estadista europeu, aquele que mapeou um dado fundamental da nossa história (e isso quando a separação, Ocidente versus URSS, parecia irredutível, Guerra Fria): “A Europa vai do Atlântico aos Urais”, disse e bem o general francês.

Mas por que vos trago para aqui, De Gaulle e Escarpit, quando comecei eu a escrever sobre o deslumbramento dos atuais Jogos Olímpicos de Paris?

Porque, justamente, nos meti, eu e o leitor, no mesmo barco. Ou melhor, nos bateaux-mouches, que carregados de atletas e bandeiras, e nós a ver e a viver, partiram da ponte de Austerlitz, seguindo o curso da história, andaram seis quilómetros, passaram sob uma dúzia de pontes, ao lado de muitas histórias, que contaram, de uma infinitude, que ficou por contar, e desembarcaram na ponte de Iena, ao lado do Trocadéro e da Torre Eiffel, dois dos culminares da cerimónia de iniciação destes JO.   

Uma elipse, Austerlitz-Iena.

As mesmas águas podem nunca passar por baixo da mesma ponte, mas há lições que perduram, embora nós sem aprender. Ponte de Austerlitz, assim chamada para homenagear a batalha ganha por Napoleão, em 1805, contra Francisco I, da Áustria e do Santo Império Romano Germânico, aliado ao czar Alexandre I, da Rússia. Ponte de Iena, em homenagem à batalha ganha por Napoleão, em 1806, contra as forças prussianas. Hélàs, as vitórias não são eternas e Napoleão viu Paris ocupada, em 1814, pelas tropas russas e prussianas.

Então, o marechal Blücher, prussiano, ofuscado pelo nome de uma derrota sua, quis destruir a ponte de Iena. Salvou-a o outro então ocupante de Paris, o czar Alexandre I, que ameaçou o aliado em ir ele próprio para cima da ponte, se preciso fosse para a defender.

Por ironia, a ponte que foi salva por um gesto de um czar russo, teve um papel relevante, 210 anos depois, nestes JO de 2024, em que a bandeira russa esteve banida.

Como se não fosse mais prudente só punir as culpas pessoais e terrenas – mandar Napoleão para a ilha de Elba ou o Putin para o raio que o parta e nunca o deixar concorrer a uma medalha no judo. Mas perceber, de vez, que os povos são etéreos e contraditórios, e é bom para todos deixá-los correr, saltar e esgrimir juntos e em igualdade. Não foi por causa disso que Pierre de Coubertin, barão parisiense ou deus grego, inventou os jogos olímpicos? Que bela crónica faria Robert Escarpit…

Felizmente quatro pontes antes dos bateaux-mouches chegarem à de Iena, a Rússia eterna (e eterna europeia, apesar dos putinescos e dos antirussos primários) foi dos melhores lugares para assistir a um dos grandes momentos da cerimónia de abertura. A ponte Alexandre III, homenagem ao czar neto do outro, tem candelabros de Arte Nova e está virada para o Grand Palais. O filme Um Americano Em Paris abre com Gene Kelly na ponte Alexandre III e só no ano seguinte ele vai deslumbrar-nos dançando na chuva, noutro filme.

Há duas semanas, chovia quando a meio-soprano Axelle Saint-Cirel cantou A Marselhesa no cimo do zimbório envidraçado do Grand Palais. Porque tenho de lembrar que a francesa tem carapinha, quando preciso de linhas para dizer como a arte, nova ou velha, é tão bela sob a chuva?

A viagem, rio abaixo, entalada pelas margens da cidade, foi um golpe de asa de Thomas Jolly, diretor artístico de teatro e organizador das cerimónias dos JO. Já o vimos, foi coisa simples, bastou-lhe ser genial: não desperdiçou Paris.

O caminho fez-se caminhando, como disse um poeta. Depois da ponte Austerlitz, logo passas pela ilha de Saint-Louis, podias parar e dar com a memória de Georges Moustaki, que morou lá. Um dia parei, tomei um café com Mário Pinto de Andrade, um dos pais do nacionalismo angolano, precursor do MPLA e autor da primeira antologia de poesia negra de expressão portuguesa.

Moustaki estava noutra mesa e os dois exilados reconheceram-no, claro. Eu com a excitação de novato na civilização, o Mário com displicência de quem levava já década e meia de cosmopolita, no lugar mais adequado para isso, Paris. Mário Pinto de Andrade nunca pôde regressar ao seu país, foi reputado intectual africano, ministro da Cultura da Guiné-Bissau e morreu sem ter o passaporte angolano. Aquele encontro casual de Saint-Louis podia ter-lhe evocado o destino.

Um artigo do Libération, em 2013, escrevia: “Nascido em Alexandria, de uma família judia grega mas de língua italiana, batizado Giuseppe pelos seus pais, inscrito no Registo Civil egípcio com o nome Youssef, e na escola francesa do Cairo Joseph, e conhecido depois como Jo, um diminutivo que fez crer, quando chegou a França, que se chamava Georges, o que ele deixou que assim fosse pela admiração por Brassens, Georges Moustaki simbolizava por esta simples sucessão de prenomes o universo mediterrânico.”

Não simbolizam as origens diversas, cada vez mais, o universo do nosso, cada vez mais, pequeno mundo?

Quando eu cheguei a Paris, Moustaki acabava de lançar uma canção que abria dizendo: “Com a minha cara de meteco, de judeu errante, de padre grego e meus cabelos aos quatro ventos…” A canção chama-se Le Métèque, foi um sucesso mundial e lembrava-nos, no título, o estrangeiro de Atenas que vivia sem direitos de cidadão, entre os gregos que praticavam os jogos olímpicos… Às vezes os acasos à frente dos nossos olhos parecem factos orquestrados por feiticeiros que nos querem iludir. Cotejam a canção de 1969 e os noticiários de hoje.

O cortejo fluvial de Thomas Jolly bordejou a ilha de Saint-Louis e deteve-se na ilha vizinha da Cité. Naturalmente, nas formas exatas da Notre-Dame, agora recuperada do incêndio, e logo pela fachada da Conciergerie, palácio real e prisão, monumento real ilustrado pela realidade também, oh quanto!, de Maria-Antonieta, rainha e presa supliciada.

Funâmbulos e pirotecnia, fumos e músicas, artesãos do luxo da Louis Vuitton, palavras que saltam, “Chic”, gavroches de Victor Hugo que correm nas ruas, frases que cunhadas na amurada das pontes, Fluctuat nec mergitur, Paris flutua não se afunda, recordando as bombas de ideias brutas e burras, em 2015, derrotadas por uma barcaça, em 2024, que entre chamas desliza pelo Sena com o mais fecundo dos programas: a letra cantada de Imagine, de John Lennon. Imagina que não há céu, imagina que todo o povo… Não tem feito outra coisa na vida, Paris, senão imaginar. Como não lhe ser grato?

Na Biblioteca Nacional de França sucede que Jules et Jim, meros comparsas, se encontram dominados pela imensa Jeanne Moreau, o que deixa rendido o Los Angeles Times: “É a primeira cerimónia de abertura de Jogos Olímpicos com um ménage à trois!” Vindo das bandas de Hollywood é um reconhecimento de submissão da próxima cidade organizadora, em 2028. Como competir com tamanha ousadia e beleza? Estávamos nisto e o parisiense Bizet põe Carmen a cantar a Habanera. Vocês sabem, ela é uma operária de fábrica de cigarros, e ele, José, é um cabo de camaratas. Entre os seus, uma e outro, está escrito nas palavras da ópera, tratam-se por “camaradas”. Paris, a chic, nunca se esquece dos seus miseráveis e arraia-miúda.

Navegando sempre, na ponte des Arts, pedonal e dando para a frontaria da Academia Francesa – dos doutores das palavras – salta Aya Nakamura. Francesa e maliana, ela canta em, mais ou menos, crioulo, como os nossos portugueses da Damaia. Há meses, constou que ela cantaria uma canção de Édith Piaf nos JO de Paris. Foi um sufoco para os cheganos que também os há em França: “A Piaf rola os erres gauleses como deve ser, como é que uma preta ousa… Aqui é Paris, não é o mercado de Bamaco [capital do Mali]…”

A questão, mais uma vez nesta cerimónia olímpica abençoada, tem pano de fundo cultural. Frantz Fanon, um psiquiatra negro da Martinica, escreveu, prefaciado por Sartre, Peau Noire Masque Blanche, pele negra, máscara branca, um livro logo nas primeiras páginas explicado. Um negro das Caraíbas chega a Paris, entra num café e, impelido pelo trauma que lhe emprestam, carrega nos erres, para parecer o que não é, e pede: “Garrrçon, un verrre…”, para mostrar que é branco. Mas logo escorrega: “(…) de biée.” A pele negra não conseguiu atingir a máscara branca: “Crrrriado, uma ceveja!”

Os adeptos de Fanon (também os há em Portugal) e os racistas brancos têm o ponto comum de gostar deste confronto, seja à porrada ou no divã, o conflito tem de se manter. Na Academia Francesa, um académico prático (também os há) sugeriu há muito uma ajuda para uma parte do problema. Como ele veio de fora, o libanês Amin Maalouf achou por bem dar aos imigrados em França, como ele, dois conselhos: aprender e respeitar a cultura dos que já lá estão, quando se chegou; e oferecer ao novo país o tanto que trouxeram.

Os noticiários têm parecido demonstrar que o conflito continua insanável e mais agudo. Até que, num destes dias maravilhosos, à frente da Academia Francesa e sobre a ponte des Arts, Aya Nakamaru continuou a ser a mais ouvida das cantoras francesas. E, mais, fê-lo com uma ironia demolidora. Não, ela não tentou rolar os erres como a Edith Piaf, sublime em La Foule: “Emporrrrrrrrrrrrtés/ parrrrrrrrrr la foule/ qui nous trrrrrrraîne/ Nous entrrrrrrrrrrrrrraîne…”  Afinal, Aya cantou o que lhe apeteceu, nestes tempos poderosos em que franceses de todas as cores não precisam de imitar ninguém. Écrrrrrasés l’un contre l’autrrrrrre, gente diferente, esmagados um contra o outro, pode ser bom como o caraças.

E isso aconteceu quando a banda oficial da Guarda Republicana também saltou para a ponte des Arts. De farda reluzente, capacete de festa, adornos dourados nos ombros, tocando clarinete e dançando, o capitão Frédéric Foulquier, chefe da banda, fez a sua tropa enrolar-se com as dançarinas e o coro de Aya. E deu-se a ironia da banda tocar “For me, for me, formidable”, de Charles Aznavour.

Os pais de Aznavour eram arménios, a mãe chegou grávida a Paris, onde esperavam um visto americano para embarcar no Havre para Nova Iorque, quando Charles nasceu, em 1924. Um francês de gema, não descendia de Astérix, mas quase! Aznavour iria pela primeira vez à América com Édith Piaf, na década de 40 (isto está tudo ligado) e fez uma carreira internacional. No Carnegie Hall, em Nova Iorque, ele cantou pela primeira fez For me, for me, formidable …, numa letra em que pede desculpa à sua my darling pelas palavras em inglês arranhado, enquanto lhe promete melhor vocabulário em francês. Se isto não arrasa as teorias dos Neandertal contra a francesa Aya por causa do seu francês mal amanhado, porém tão popular…

Ah, ainda não chega? Então saibam que a Piaf, além símbolo francês, que é como poucos, é neta de Emma Saïd Ben Mohamed, artista de circo, de origem berbere, da Argélia. Essa avó que Toulouse-Lautrec retratou, no canto direito da Dança Mouresca, exibida no Museu d’Orsay, ali ao lado por onde temos passeado nesta crónica.

A dado momento, no cortejo  surgem Mulheres de Ouro, sororidade daquela metade do mundo que conquista o reconhecimento daquelas que, não estando, são. Falo delas. Fiz figas para que se esquecessem de uma. E não é que se esqueceram de Josephine Baker? Fiquei tão contente – comprovei que a minha Paris é tanto tudo que até pode prescindir da americana que cantou “tenho dois amores, meu país e Paris”. Que distribuía sopa aos pobres, na Frente Popular, em 1936. Que envergou a farda de resistente aos nazis e pôs as medalhas francesas para falar em Washington, logo antes de Martin Luther King proclamar que tinha um sonho. Que entrou no Panteão de Paris, porque sim, não foi um exemplo, é.

O melhor de todos estes dias que Paris me ofereceu foi a confirmação de que Paris não foi um sonho da minha juventude – é ter-me dado esperança. Merci.

Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo. More by Ferreira Fernandes

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1 Comment

  1. Ferreira Fernandes com a habitual eloquência deu o mais belo retrato da abertura destes JO de Paris . A inteligência e humor habituais , pintados com as cores da História. E da sua história . Magnífico .

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