É normal que as pessoas conhecidas exerçam fascínio sobre as demais e desencadeiem, sobretudo depois de mortas, uma série de estudos e trabalhos a seu respeito. Nesse aspecto, as biografias são, entre as várias formas possíveis, uma das mais interessantes para dar a conhecer a vida de homens e mulheres dignos de admiração.
Claro que há biógrafos demasiado vaidosos que não deixam brilhar os seus biografados, mas esse não é, felizmente, o caso de Maria Antónia Oliveira, autora de Alexandre O’Neill: uma Biografia Literária, que não só soube cuidar da vida do poeta sem mimos desmesurados nem ataques e gratuitos, como deu voz a muitos dos que o rodearam e com ele conviveram e que trazem à tona nesta obra histórias bem curiosas.
É justamente um desses amigos, José Fonseca e Costa, quem conta a páginas tantas como, afinal, O’Neill não queria escrever a letra de um dos mais belos fados de sempre. E, porém, se ouvirem Amália cantar Gaivota, pensarão que um poema assim só podia vir de alguém que amava profundamente o fado; mas desenganem-se: foi precisa realmente muita insistência de Alain Oulman, amigo e autor da música, para convencer O’Neill a escrevê-lo.
Depois de várias tentativas infrutíferas para conseguir uma letra dele para a melodia que já estava feita – e sabendo como o poeta era un homme à femmes (isto para usar uma expressão na língua do compositor) –, Oulman decidiu organizar na sua casa com piscina do Dafundo uma bela sardinhada, para a qual convidou Amália Rodrigues, esperando que a beleza da fadista fosse capaz de fazer com que o amigo mudasse de opinião; mas, revela o cineasta, eram ambos tímidos e a química não aconteceu…
No entanto, não foi só isso: Fonseca e Costa explica que O’Neill troçava do fado, que achava uma coisa portuguesinha típica, que só apreciava nele a canalhice e que nem sequer exprimira uma vez que fosse o desejo de conhecer Amália; e a biógrafa cita até um texto que o poeta viria a escrever muitos anos depois no Jornal de Letras chamado (notem bem!) “Desenfado”, em que descrevia a canção de Lisboa como “uma torpeza que sonha com torpezas, uma ordinarice que quer projectar-se em múltiplas ordinarices”.
Dá para acreditar?
Depois de ouvir Oulman tocar a melodia ao piano certa tarde, e de ficar com ela no ouvido, parece que Alexandre O’Neill começou finalmente a escrever a letra de Gaivota, que teve o retumbante sucesso que já sabemos; mas foi apenas pelo facto de receber os belos carcanhóis que a Gaivota lhe rendeu que acabou por escrever mais uns quantos poemas para fado.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.
