Ao longo da sua história, o fado tem tido letristas absolutamente geniais, muitos dos quais, ainda por cima, sem grande instrução, como foi o caso do enorme Frederico de Brito (1894-1977) – o “Britinho”, como era conhecido no meio –, estucador e motorista de táxi que fez algumas das mais belas letras que hoje conhecemos, reunidas em duas colectâneas publicadas ainda em vida do autor, uma das quais mereceu prefácio do escritor Teixeira de Pascoaes.
Os génios são, regra geral, muito solicitados, e o Britinho, como outros da sua estirpe, escreveu para os maiores fadistas do seu tempo, de Carlos Ramos a Carlos do Carmo (Canoas do Tejo é uma composição inteiramente do seu punho), passando por Amália, Tristão da Silva, Lucília do Carmo, Beatriz da Conceição ou Fernanda Maria.
Nos nossos dias, também não faltam grandes autores ao fado, entre os quais não posso deixar de destacar o trabalho sublime de Manuela de Freitas (uma pena não estar reunido em livro, mas, ao que sei, a autora nunca lhe deu a devida importância) e os excelentes poemas dos muito “requisitados” João Monge e Tiago Torres da Silva, graças a Deus ambos com obra publicada, mesmo que incompleta, que trabalham actualmente para um ror de gente, dentro e fora do fado.
Há, porém, vozes poéticas que, quando experimentadas por determinado fadista, são realmente a tampa que encaixa perfeitamente na sua panela, tornando-se por isso as favoritas e acabando por criar uma espécie de relação quase exclusiva (como aconteceu, fora do fado, com Rui Veloso e Carlos Tê).
Alain Oulman, já o disse noutra crónica, foi decisivo na carreira de Amália Rodrigues quanto a esta matéria: com a sua cultura literária, deu-lhe a oportunidade de cativar novos públicos mais exigentes, apresentando-lhe poetas contemporâneos que imediatamente se dispuseram a escrever para ela; nesta medida, David Mourão-Ferreira terá representado um dos mais felizes casamentos de poesia e voz: o poeta não só escreveu muitas letras originais que continuam a ser ouvidas até hoje (o celebérrimo Abandono, conhecido por Fado Peniche, é só uma delas), como também foram da sua autoria as adaptações de várias canções de sucesso que Amália interpretou em filmes e concertos (Barco Negro, por exemplo).
Mas já antes Fernanda de Castro escrevera quase em exclusivo para a fadista Ada de Castro que, ao contrário do que se possa pensar, não era da família; por sua vez, Manuel Alegre teve também o «seu» intérprete, João Braga, que se dedicou a cantar muita da sua poesia, a qual quase sempre musicou; e o falecido Carlos Zel elegeu decididamente a poesia de Rosa Lobato de Faria para mostrar ao público o que valia, e valia muito.
No entanto, o mais paradigmático destes encontros é seguramente o de Carlos do Carmo com Ary dos Santos; o poeta, longe de ser apenas um letrista extremamente dotado (basta ouvir Estrela da Tarde para o perceber), ajudou o mestre a criar um estilo de fado mais leve e entranhável que antes não existia; foi “o Ary”, aliás, quem assinou as letras de quase todos os grandes êxitos de Carlos do Carmo, tornando-se assim o seu par mais-que-perfeito: quem pode esquecer Os putos, O homem das castanhas, O amarelo da Carris, Fado do Campo Grande, Lisboa menina e moça e, sobretudo, Um homem na cidade, cujo final magistral – “que mal me quis, que me quer bem” – fica no nosso ouvido para sempre?
Panelas há muitas, mas com tampas à medida são mesmo para abrir e deixar sair as palavras e a música que têm dentro.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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