Não foi pela literatura que tudo começou, foi pelo hip hop. “Venho da escola do rap, escrevia rimas e pensei em escrever uma música que depois alongou-se.” Essa música da então rapper Telma Tvon, formada em Estudos Africanos, mestre em Serviço Social, deu um livro de quase duas centenas de páginas: Um Preto Muito Português (Quetzal Editores). Um romance que carrega nas entrelinhas da comportada literatura o ADN contestador do hip hop e que foi tema de conversa na última sessão do Clube de Leitura de Lisboa da Mensagem, n’A Brasileira do Chiado.

Vídeo: Catarina Ferreira | Edição: Inês Leote

Nasceu em Luanda, Angola, em 1980 e chegou a Lisboa em 1993. E essa viagem parece fazer de Telma Tvon uma lição sobre equilíbrio. Não a visão do equilíbrio equivocada do senso comum, que faz pender a balança para um só dos lados, o lado da parcimónia, quando se diz que alguém “é muito equilibrado”, mas a versão clássica da Física, onde o equilíbrio se dá na tensão entre duas forças que atuam ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. No caso da autora angola, as forças da doçura, da consciência cívica e da generosidade, em contraponto com a força da contestação, da luta e da resistência, todas em perfeito equilíbrio.

Falamos da contestação e reflexão sobre ser um negro em Portugal, um cabo-verdiano nascido em solo português que sente literalmente na pele a discriminação nas ruas, no trabalho, nas relações sociais, inclusive em Lisboa.

“Lisboa segue a tendência geral. Andei com o livro em várias cidades de Portugal e em todas elas ouvi episódios muito parecidos. Portanto, eu percebo que é uma questão nacional e é uma questão transversal no país”, comenta.

Uma ferida aberta na sociedade portuguesa que Telma Tvon, como sublinha na entrevista a seguir, não só faz questão de pôr um dedo nessa ferida, “mas três ou quatro”.

Formada em Estudos Africanos, mestre em Serviço Social. O tema do livro daria uma tese académica, então, por que a literatura?

Nunca pensei de todo em escrever nenhum artigo académico sobre essa temática, da mesma maneira que não pensei em escrever uma ficção. Venho da escola do rap, escrevia rimas e pensei em escrever uma música que depois alongou-se. Comentei com a minha irmã que estava a escrever a letra da música e não conseguia parar e ela me disse que tinha o tema para ser um livro. 

O personagem principal é um homem. Quando escrevias letras de rap era com uma visão masculina?

Não, sempre como uma mulher. Porque a cultura do hip hop às vezes tem uma visão não tão otimista das mulheres e era interessante cantar numa perspectiva feminina. No livro, preferi uma visão masculina para dissociar-me de mim, para que não pensassem que foi autobiográfico. Também para dar um tom sensível a um homem, pois dentro das culturas africanas as pessoas têm a tendência em dizer que os homens são frios, distantes, que não falam sobre os seus sentimentos. Então, tentei impor uma personagem que falasse dos seus sentimentos. 

Telma Tvon acredita que seja no rap ou na literatura, é preciso aproveitar os espaços para gerar o debate. Foto: Catarina Ferreira

O personagem principal foi inspirado em alguém particularmente?

Inspirei-me basicamente em vários homens que conheço, em pessoas com quem andei na escola, conheci na faculdade, elementos da cultura hip hop e no meu ciclo de amigos, alguns das comunidades com quem convivi ao longo da vida. Há inclusive alguns episódios e alguns comentários ouvidos pelo personagem que realmente aconteceram com esses meus amigos.

E a família do personagem?

Bem, os pais eu acho que são um bocado o retrato de muitos pais que migram e trazem para cá os seus sonhos, seus desejos e como se sentem ao viverem em Portugal, como imigrantes. Relativamente aos irmãos do personagem, o que eu tentei fazer foi mostrar, que independentemente da educação e dos valores serem os mesmos, as pessoas tendem a reagir de forma diferente numa situação de racismo, de preconceito, de descriminação.

Como assim?

Às vezes, numa situação dessas, as pessoas me perguntam sobre o que penso do assunto, como se a minha forma de pensar validasse a forma como todos os negros pensam. Então o que eu tentei, com essas três pessoas tão diferentes, foi provar que dentro da mesma família, por exemplo, dentro do mesmo meio, nós não somos um organismo e uma célula única que pode responder por toda uma raça. No livro, entre os irmãos, há uma irmã muito complexada, um irmão muito revoltado, que tem vontade de partir do país inteiro, e o outro, o narrador, que está no meio entre os dois.

O livro pode suscitar alguma polémica. Quando o escreveu, pensou em evitar algum tema?

Eu venho de uma cultura onde já nos censuram normalmente. Nós temos uma oportunidade, seja a plataforma, seja o palco, seja poder escrever um livro, seja ter a possibilidade de participar de um podcast. Se nós pudermos pôr um dedo na ferida, nós vamos pôr três ou quatro. Não pensei nunca assim, de poxa, será que eu devia falar isso? Pelo contrário, pensava isso aqui não pode faltar, tenho que falar isso e disso. 

Como tem sido a resposta dos leitores?

Tem sido um caminho bem variado, entre os colegas da cultura hip hop, as comunidades de origem africana e os leitores em geral. Andei a falar do livro na Polónia, na Itália e Inglaterra, o que tem sido engraçado, pois são estudantes de português como língua estrangeira que se deparam com a linguagem do livro que contém muito calão. Alunos habituados a lerem Eça de Queiroz que agora têm acesso a um outro Portugal. É engraçado como os livros realmente fazem a sua viagem e vão chegando a um público mais variado.

Os leitores tiveram a oportunidade de expor seus pensamentos e de fazerem perguntas a Telma Tvon. Foto: Catarina Ferreira

E a resposta dos leitores na comunidade de origem africana em Portugal?

Não costumam apontar falhas ou críticas, como se tivesse deixado de falar de algum assunto. Já me perguntaram porquê ter escolhido um personagem cabo-verdiano se sou angolana. Para mim, fazia sentido ser cabo-verdiano pois convivi mais com cabo-verdianos aqui do que angolanos. No secundário, quase todos os meus amigos pretos portugueses eram cabo-verdianos, moçambicanos e guineenses e não me senti segura em falar de uma realidade com a qual não cresci. Mas todos nós, incluindo os angolanos, claro, somos pretos muito portugueses. 

É possível perceber como Lisboa se enquadra nesta questão?

Lisboa segue a tendência geral. Andei com o livro em várias cidades de Portugal e em todas elas ouvi episódios muito parecidos. Portanto, eu percebo que é uma questão nacional e é uma questão transversal no país todo e não específica de Lisboa ou de outra cidade, para o lado bom ou ruim.

O livro tem um final aberto. Já pensou numa sequência?

Acabei de escrever um livro sobre o universo feminino negro, o histórico de várias mulheres negras em Portugal e que deve ser lançado em breve. Já me pediram, sim, para continuar a história, de falar mais sobre o destino deles, mas não é algo que penso. Não excluo a possibilidade, se calhar até faz sentido daqui a 20, 30 anos dizer, hum, deixa ver o que é que mudou, o que aconteceu Portugal para estes personagens serem diferentes. Ou se continua, infelizmente, o mesmo cenário.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa. É autor de sete livros, dois deles com Lisboa como personagem, Alojamento Letal e O Mau Selvagem.

alvaro@amensagem.pt


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