A anacrónica muralha do antigo parque de Santa Gertrudes veio finalmente abaixo e os jardins que já foram jardim zoológico, velódromo, feira popular e que, desde o final dos anos 50, são Gulbenkian, recuperaram a sua sétima parte – o seu vértice sul. E estão prestes a reencontrar-se com o Palácio Vilalva ou Eugénio de Almeida, a imponente e antiga casa principal desta mancha verde verdadeiramente resistente num país e numa cultura em que o betão e o lançamento de primeiras pedras costumam prevalecer. 

Para celebrar este inusitado reencontro, está a nascer no seu lugar um longo banco corrido de pedra em arco virado para o início da rua Marquês de Fronteira e o edifício novecentista que, desde novembro passado, alberga a Provedoria da Justiça.

Num texto recente, falei do valor dos bancos públicos numa Lisboa que se presta a ser contemplada, desfrutada, amada. É com particular prazer que acabo de descobrir que aquele muro de inspiração medieval, que incluía ameias e guaritas e criava uma barreira grotesca com o resto da zona da Palhavã, caiu de vez para dar lugar a um bucólico espaço de contemplação.

Um jardim aberto à cidade.

Ainda não foram descerradas as placas da obra assinada pelo arquiteto paisagista Vladimir Djurovic e já conseguimos vislumbrar que o projeto de recuperação da sétima parte do velho parque de Santa Gertrudes respeita o espírito visionário e integrador de Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto.

E, para munícipes que, como eu, cresceram a poucos quarteirões da inestimável Gulbenkian e se mantêm seus frequentadores assíduos, esta não podia ser uma melhor notícia. 

Na segunda metade dos anos 90 e na primeira dos anos 2000, aquando de uma discreta, mas sempre gratificante, participação em diversas edições do Jazz em Agosto, onde conheci e pude ouvir ao vivo grandes lendas do jazz mundial, como Max Roach ou McCoy Tyner, contaram-me, a certa altura, uma história mirabolante sobre o sinistro castelo contíguo aos jardins da fundação. 

Segundo esse testemunho, que descobri mais tarde provir de uma imaginação particularmente fértil ou regada a minis fresquinhas, o edifício das antigas cavalariças, depois casa de habitação, tinha sido copiado de um castelo algures na Escócia e, mais tarde, os donos do original descobriram a patranha e obrigaram os proprietários a vendê-lo à fundação após a morte das suas últimas residentes, duas irmãs velhotas sem herdeiros. Assim, a prazo, garantia “a minha fonte credível”, todo o complexo voltaria para o regaço da Gulbenkian.

Ainda que mais prosaica, diria que a verdade histórica do sítio não é menos interessante.

Acima de tudo, há que sublinhá-lo, os lisboetas ganham, a partir deste verão, um Centro de Arte Moderno renovado (será que o saudoso self-service também regressa?) e mais oito mil metros quadrados de jardim, a acrescentar ao projeto dos anos 50 do século passado que transformou um espaço de diversões num revolucionário espaço de arte e cultura e de referência em Lisboa, Portugal e no mundo.

Foto: Rita Velez Madeira

Entretanto, uma breve nota dedicada um outro espaço na cidade, em Entrecampos, que também acolheu a feira popular e faz parte do meu imaginário e de tantos outros alfacinhas. 

As máquinas já estão a carburar a toda a velocidade. Desta vez, não são motas a mergulhar no poço da morte, carrinhos a chocar freneticamente uns contra os outros ou comboios para cima, para baixo e em looping na montanha russa. São retroescavadoras e camiões que escavam e retiram megatoneladas de terra para aquele que é um dos maiores negócios imobiliários de sempre em Lisboa. 

Várias décadas e polémicas depois, o gigantesco terreno da feira popular vai deixar de ser aquilo a que foi votado durante demasiado tempo: uma terra de ninguém. Para os locals mais atentos às mudanças que vão marcando aqui o burgo, é curioso ver como as duas últimas (e únicas?) moradas da mítica feira estão em obras e vedadas aos olhares indiscretos no mesmo espaço temporal.

Enquanto morador próximo, é com entusiasmo que aguardo a retirada dos tapumes nos terrenos que albergaram, respetivamente, os ainda mais antigos Velódromo da Palhavã e Mercado do Gado de Lisboa. Descerrem as placas. Cortem as fitas.


Pedro Salazar nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campolide, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.


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