O apoio psicológico tem tido um grande estigma. Por isso, o Manel, em vez de pagar 90 euros para ir a um consultório numa cave sombria no Campo Pequeno, pagou 150 para ir a uma orgia no Palácio do Marquês de Tancos. Isso mesmo, estas cenas acontecem à entrada de Alfama, e nós todos sem fazer ideia, a achar que Lisboa é só pastéis de nata e Tejo azul. Enfim, voltando ao escândalo digno de Manuel Maria Barbosa du Bondage: em 2024, além de workshops sobre massagens eróticas, velas quentes e BDSM, as orgias também têm uma equipa de psicólogos. Isto para o caso de alguém se ver ao espelho e ver um trauma.

Lá foi o Manel. Quem o visse entrar julgaria que ia apenas sacar loiras de saias de cabedal e orelhas postiças de cão. Mas nada, ia para depravação pior. Não sei se há-de ter visto o Diogo Faro nas andanças, mas, se o viu, ponho a mão no fogo por ele sabendo que não lhe pôs a mão. Se há coisa a que o Manel acha graça, é a alguém com piada.

Lá chegado, sei que o Manel se pôs em tronco nu. É imagem que não aquece nem arrefece, mas o workshop sobre velas quentes seria coisa boa para alguém com tantos pêlos à volta dos mamilos. Perdoem quem gosta de pele lisa, à Cristiano Ronaldo, mas era o que me faltava pôr-me a gabar carpetes em cima de peitorais. Passou um alemão cheio de músculo e uma meia com orelhinhas fofas a tapar os genitais. Veio uma nigeriana que usava soutien XXL, mas que o tinha deixado em casa. Passou um português a coçar o bigode (antes assim, que ali podia ser pior, e aceitável). Uma francesa metia o dedo à boca – mas estava mesmo a roer a unha, como eu faço. No meio disto, o Manel olhava, procurava, escrutinava. Santo deus, no meio de tanta gente, nem um psicologozinho?

Lá encontrou uma. Disse-lhe: “Olhe, se faz favor, queria falar.” E lá se puseram a um canto, enquanto o desfile de nudistas continuava. Um anão piscava o olho a uma ruiva. A ruiva tinha na mão um anãozinho. Três sujeitos faziam dos corpos peças de puzzle, que sabe deus onde encaixavam. Estava feito, valha-me Nossa Senhora, um comboio de rapazes. Dois loiros e três morenas falavam com segundas intenções. Ao lado, meia dúzia de gente já ia nas terceiras. Havia, Jesus Cristo, e não explico, um buraquinho na parede. Com tantos corpos à toa, a cerveja deslizava goela abaixo e pelo chão. Cheirava a álcool, a suor, a demasiada gente – a caos. Parecia que tudo era corpo e nada era emoção. Um senhor, em vez de um copo, passou levando na mão um lubrificante que sabia a tutti-frutti. Ainda tinha a etiqueta a dizer que estava em promoção: 30 por cento de desconto. Um gordinho trazia penduradas as suas bolas tailandesas. Um gajo loiro e magro, seco como um espeto, usava saia e top de renda. Uma senhora na casa dos cinquenta entretinha-se com uma cena que vibrava. Era uma barulheira de urros, gemidos, corpos a bater em corpos, outros a bater em mesas, mãos a bater em nádegas, música psicadélica e ejaculações precoces. E, no meio disto, ainda se ouvia a voz do Manel como um ceceio: “Sabe, Cátia, na minha infância passou-se assim assim.”

Passaram duas horas e o homem despejou tudo. Por perto, outros homens faziam aquilo para que Deus os tinha mandatado, e mulheres faziam o que a Igreja condenava. Por si só, já era um pé de vento, e bastava olhar para se perceber que nada daquilo era saudável: estava uma noite tão fria que ainda se constipavam todos. Quando o Manel começou a falar da Sónia, que o largara no 10º ano quando mudara de escola, e passeara depois pela rua com um palerma de rastas que cheirava sempre a ganza, já o anão e uma das ruivas espirravam forte e feio. A psicóloga, farta daquele relambório, aborrecia-se como um padre eunuco se aborrece a ver um filme porno antes da missa. Enfim, nada disto interessa agora. Vamos ao que importa: o Manel acabou tudo, sentiu-se mais leve, levezinho, passou no workshop a ver se aprendia qualquer coisa, e, tendo aprendido menos do que eu nas aulas de literatura (já sei tudo), vestiu uma camisola antes de sair dali, ainda a pensar nos sinais contraditórios da gaja maluca, totalmente avariada da cabeça, que o fizera ter a triste ideia de ir procurar ajuda. Ainda por cima, a Cátia pouco dizia. Falava como se conhecesse a gaja e só lhe dava conselhos palermas. Era tente esquecê-la, era foque-se em si, era ame-se primeiro. E pensar que pagara 150 euros para aquele chorrilho de aldrabices. Isso mesmo, o equivalente a 22 McMenus com McRoyal Bacon, e ainda sobram trocos.

Antes que me acusem, só sei porque me contaram. Um amigo meu, que costuma participar nestas coisas, e até organiza algumas, falou-me disto. Não revelo o nome para garantir a discrição. Olhou-me nos olhos e afonsamente me disse: “Julgava que as pessoas iam a orgias para criar traumas, não para os resolver.” E eu espantei-me com a sensatez desta afonsice. É uma frase que reorganiza a vida, tal é o afonsismo, e que podia garantir o desemprego à Cátia, razão pela qual isto tem sido desafonsado, que é português para abafado.

Imagino o Manel a deixar aquele estúdio do Canal 18 (que nunca tive, mas de que também ouvi falar) de mãos nos bolsos, cabisbaixo, desiludido com a vida, à abandonado ou à poeta. E imagino que a vida fosse melhor com um amigo. Um amigo qualquer – sei lá, por exemplo, lembrei-me agora, como o meu amigo Afonso – que lhe oferecesse um ombro quando a vida ficasse turva. Bastava isso para não precisar de orgias nem precisar de psicólogos. E principalmente para nunca meter os pés numa orgia com psicólogos.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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